VIE’s: O próximo escândalo financeiro global que está prestes a rebentar

Dólares em lume brando“A ausência de informação apropriada aos accionistas, por parte dos bancos, sobre os potenciais prejuízos [nos mercados hipotecário e da dívida] é talvez o maior escândalo desde o aperto do crédito que começou no passado Verão”, escreve Peter Eavis, na edição online da revista norte-americana Forbes.

O redactor-sénior da influente publicação económica e financeira dos Estados Unidos, aborda as consequências ainda ocultas do envolvimento dos gigantescos e globais conglomerados financeiros de Wall Street. “Por exemplo, no início do ano – escreve Eavis – Merrill Lynch, Citigroup e o Bank of America praticamente omitiram que um produto financeiro particularmente tóxico – Obrigações de Dívida «Colateralizadas» (CDO’s, em inglês) – podem ser causadoras de prejuízos da ordem de milhares de milhões/bilhões (mm/bi) de dólares. Tais prejuízos revelaram-se neste Outono. Atacaram os accionistas pelas costas e arrasaram as cotações dos títulos”.

O articulista dá como exemplo as “obscuras condutas” por onde fluem instrumentos financeiros cujo risco deriva, ou é subjacente, ao valor dos activos que garantem a respectiva solvência. Um pequeno número de operações, obrigou o Citigroup a incluir nos balanços, em apenas três meses, cerca de USD 25 mil milhões/bilhões (mm/bi) de prejuízos irrecuperáveis.

A vermelhinha: Norma FIN 46-R

O articulista da Fortune discorre largamente sobre as consequências que os previsíveis e descomunais incidentes de crédito terão em todo o sistema financeiro. “Os bancos continuam a ocultar” obstinadamente tais riscos aos accionistas, investidores e ao público em geral.

O artigo denuncia o facto de os bancos aproveitarem, na legislação que regula o mercado dos valores mobiliários nos Estados Unidos, a norma FIN 46-R, para esconderem a verdade dos números através de um enigmático item contabilístico – entidades de remuneração variável/variable interest entities (VIE’s) – onde são inscritas as exposições a vários tipos de risco não contabilizados. Estas VIE’s ameaçam transformar-se na verdadeira caixa de pandora dos “derivativos de crédito”.

A coberto da citada norma, legalmente e com a cúmplice anuência dos legisladores e reguladores, os bancos podem esconder a verdade do grau de risco a que os seus capitais próprios, e os depósitos dos seus clientes (passivo dos banqueiros), estão realmente expostos com toda a verdade e clareza.

No dia 3 de Agosto passado, o Citigroup informou os seus accionistas que a exposição aos CDO’s, incluída no balanço como capitais não consolidados (VIE’s), era de USD 75 mm/bi, mas sublinhava que os potenciais riscos “não se deveriam materializar. (…) Desde então os prejuízos estimados situam-se entre os USD 8 mm/bi e os USD 11 mm/bi (o que é sem sombra de dúvida materializável)”, escreve Peter Eavis concluindo:

“Imaginem como teriam sido melhor informados os investidores se as estimativas dos actuais prejuízos tivessem sido tornadas públicas. Agora pensem quão útil lhes teria sido o conhecimento antecipado das estimativas dos prejuízos com os quais os bancos tem que se haver, actualmente, nas agonizantes e multimilionárias condutas de riscos financeiros.” (pvc)

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