UE: A dimensão militar do ‘não’ irlandês ao Tratado de Lisboa

Declan Ganley A Irlanda representa menos de 1% da população do bloco e apenas 1,3% do PIB europeu e é o único país membro da União Europeia obrigado pela Constituição a auscultar a vontade do povo sobre alterações aos tratados europeus. No recente referendo sobre o Tratado de Lisboa, que visa a reforma das instituições e dos processos de decisão europeus, mais de 53% dos irlandeses votaram “Não”, e puseram o bloco europeu à beira de um ataque de nervos. A Irlanda, desde que aderiu à CEE (1973) cresceu rapidamente. Em 2007, segundo o Banco Mundial, foi a 5.ª economia do mundo com melhor PIB per capita – USD 51 578,00. Porquê então, a recusa irlandesa? Vamos abordar a vertente menos conhecida: as implicações militares.

O “Senhor Não”, Declan Ganley, um influente empreendedor irlandês, teve um papel decisivo na minagem do Tratado de Lisboa. O “Irish Times” classificou-o como “misterioso fundador” do “Instituto Libertas” que terá arrecadado “donativos anónimos”, no valor de 1,3 milhões de euros, para combater o ‘Sim’. O jornal irlandês conotou-o com o complexo industrial-militar americano, através da sua empresa – Rivada Networks – fornecedora de equipamentos de comunicação ao exército dos EUA – . O deputado europeu Gay Mitchell, antes do referendo, lançou mesmo a suspeita de o “Libertas” ser apoiado pela CIA. O editor do jornal “The Dubliner”, Trevor White, também fez revelações na versão eletrónica do “Evening Herald” (09/06/2008). O “Libertas” nasceu em 2003. Ganley apresentou-o por escrito a meios americanos envolvidos na promoção de “acções militares” e de “fortes capacidades de defesa” para apoio da política externa dos EUA. Para White, Ganley é um feroz adversário de uma política externa e de defesa da UE. O empresário anti–Tratado de Lisboa, em 2003, afirmou: “Em lugar de tentar definir-se como contrapeso aos EUA, a nova Europa deve ser um parceiro igual e influenciar a nível mundial a disseminação da justiça e da liberdade.” A conclusão do jornalista irlandês foi a seguinte: “Se [o leitor] rejeita a ideia de que a Europa precisa de um exército poderoso ‘Libertas’ é o melhor argumento à sua disposição. A sua simples existência, para mim, significa que o Tratado de Lisboa conduzirá à criação de um exército europeu.” No site da Rivada Networks encontramos dados biográficos sobre Ganley, presidente-executivo (CEO) da empresa: “É consultor em ‘tecnologia e terrorismo’ do Clube de Madrid, um grupo internacional de chefes de governo. (…) Durante a presidência irlandesa da União Europeia [Maio, 2004], presidiu ao Fórum para o Debate da Constituição Europeia. (…) Forneceu recursos de comunicação ao exército americano após o furacão Katrina (…) É membro do Royal Institute of International Affairs [e] fundador-presidente do Instituto Libertas.” O vice-presidente da empresa é o contra-almirante estadunidense na reserva, Robert Duncan.

MRA Dep. Data Mining

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