Todo o mundo foge do dólar e dos Títulos do Tesouro americanos

Dólar pelo cano abaixoPaíses asiáticos, liderados pela China e pelo Japão, iniciaram em Agosto acções conjuntas de desinvestimento em activos norte-americanos. Entre 15/8 e 30/11, o valor total das dívidas (vencidas e vincendas) a pagar pelo Tesouro dos EUA aos seus credores atingirá os 273 mil milhões/bilhões (mm/bi) de dólares.

A persistente desvalorização do dólar e a subsequente subida das taxas de rendibilidade das obrigações do governo americano, segundo dados publicados no site do Departamento do Tesouro dos EUA, são as consequências práticas no curto e médio prazo, desde que o mercado não seja artificialmente estimulado, leia-se manipulado.O euro e o iene serão os maiores beneficiados com a crise do dólarMarc Ostwald, economista da empresa Insiger de Beaufort, citado por vários jornais e agências noticiosas, embora reconhecendo que “os números são para atordoar qualquer um”, admitiu que, considerando outras aplicações de investidores estrangeiros em activos cotados em dólares “ os montantes poderão ser mais impressionantes.” O Japão (23 mm/bi), a China (14,2 mm/bi) e Taiwan (5 mm/bi) cortaram em 42,2 mm/bi de dólares a sua exposição a um único segmento da dívida federal estadunidense – obrigações do Tesouro, a principal fonte de financiamento do governo de Washington. Também foi a primeira vez, desde a crise financeira asiática (1998) que venderam este tipo de instrumentos da estratosférica dívida pública e dos crónicos défices orçamentais. “As consequências serão desastrosas para os Títulos do Tesouro se a inflação não se mantiver sob controlo”, precisou Ostwald.A suprema humilhaçãoA publicação destes dados, em simultâneo com as pessimistas previsões do FMI relativamente “à continuada sobreavaliação do dólar” e à sua inevitável “desvalorização no médio prazo”. Semana após semana, independentemente de apreciações pontuais de pendor especulativo, o plano inclinado parece não ter fim. Em comparação com as moedas de economias com fundamentais mais sólidos, robustos e sustentáveis, o dólar regista quedas históricas desde o princípio do ano, dando sinais agonizantes desde o aperto do crédito, em Agosto. Há mesmo analistas que sustentam que a desvalorização se integra numa “estratégia controlada”, combinada entre a Casa Branca, o Tesouro e a Reserva Federal, para correcção do défice.Prosperidade fictíciaA tese é defendida por um economista do Barclays Capital, David Woo. Ele atribui a hemorragia de capitais estrangeiros de Agosto a um “episódio isolado” protagonizado por estrangeiros que adquiriram euros no mercado americano. Outros analistas integram variáveis diferentes nestes cálculos e chegam a conclusões menos optimistas. Em sua opinião o Tesouro americano precisa “aspirar” mensalmente dos mercados globais 70 mm/bi de dólares, sob que forma for, para equilibrar doentiamente obesa balança de transacções correntes. A implosão da bolha imobiliária, o imediato aperto do crédito, a disfunção do mercado overnight, as ineficazes injecções de liquidez e os cortes de juros do Fed, longe de acalmarem os mercados, alertaram os mais cépticos para a real (e ainda encoberta) dimensão real da crise e dos impossíveis de prever efeitos colaterais. A realidade do dia-a-dia mostra que as fontes de financiamento, mesmo as dos bancos centrais, são cada vez mais difíceis e os prémios de riscos cresceram exponencialmente. Em definitivo a era das vacas gordas, do dinheiro barato e do risco-quase-zero são recordações do passado.O efeito dominóA morte vegetativa do mercado de papel comercial, cujo alegado baixo risco era garantido por activos derivados de outros títulos de dívida, de menor qualidade creditícia, mas ainda assim estruturados, securitizados e vendidos, pela esmagadora maioria das instituições financeiras, maioritariamente americanas e europeias, a investidores com apetite voraz pelo risco quase fez ruir o sistema como um castelo de cartas construído no meio de um gigantesco dominó financeiro. Quando caíram as primeiras pedras – as hipotecas subprime – sucederam-se os trambolhões em cadeia. Como neste segmento as maturidades máximas das dívidas de curto prazo tituladas sob a forma de ABS’s CDO’s, MABS’ – ao quadrado, ao cubo, híbridos etc. – podem chegar aos 270 dias (9 meses) muitas surpresas irão acontecer, pelo menos, até ao segundo trimestre de 2008. Os que se forem conseguindo refinanciar, ganham mais tempo para respirar. Porém, para muitos operadores (do lado da oferta e da procura de empréstimos) o futuro não é risonho.Não admira pois que, por muito exacerbado que sejam as suas pulsões nacionalistas, muitos investidores americanos estão a fazer exactamente o que fazem os estrangeiros (institucionais ou não) – fogem do dólar a sete pés, liquidam as suas posições aplicadas em activos dolarizados, e reinvestem noutros mercados, noutras divisas, noutros produtos financeiros não dependentes ou contaminados pelo “leproso” dólar. O BNP Paribas calcula que, desde 2005, os EUA dependam de fontes de financiamento estrangeiras, conhecidos na gíria como “hot money” – fundos de curtíssimo prazo que escapam aos controlos dos bancos centrais – para cobrir as suas necessidades de liquidez para manter os mercados de papel comercial e linhas de financiamento de curto prazo. Também esta escapatória deixou de funcionar com o exacerbar da crise.Quem semeia ventos, colhe tempestadesNas últimas semanas acumularam-se os sinais de deserção do dólar. Da Europa, dos países da OPEP, dos estados do Golfo Pérsico, da Rússia e respectivos ex-satélites, dos afiliados da ASEAN, do Mercosul. Enfim, a palavra de ordem é «Fugir do dólar. Já e a todo o gás!”O diário britânico Telegraph, chegou mesmo a noticiar que em pela crise “ a situação teria sido dramática se os fundos de protecção de riscos (hedge funds), com filiais no Reino Unido e nas Ilhas Caimão, tivessem transferido 60 mm/bi de dólares para os cofres federais que serviram liquidar as dívidas federais, algumas já vencidas.A paralisação da actividade imobiliária, a continuada depreciação dos preços dos imóveis, o agravamento das prestações das hipotecas, a recessão do mercado da construção e obras públicas e o violento emagrecimento dos sectores financeiros do sistema, sobretudo os mais enterrados nesta trapalhada, a incapacidade dos bancos centrais para quantificarem realisticamente a dimensão e os operadores em situação dificilmente sustentável, as perspectivas continuarão sombrias. E os riscos de uma recessão económica à escala global, inexoravelmente, crescem todos os dias. (pvc)

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