Terrorismo: ETA anuncia mais um cessar-fogo em Espanha

A ETA anunciou, este domingo, um cessar fogo, numa mensagem que foi transmitida em exclusivo pelo canal televisivo BBC. De acordo com o jornal espanhol “El Pais”, a organização enviou um vídeo à estação britânica anunciando que “não levará a cabo ações armadas”. Esta decisão terá sido tomada “há alguns meses” com vista a “pôr em marcha um processo democrático”, refere a BBC com base no vídeo enviado.

O presidente do Observatório de Segurança considerou hoje, citado pelo Público, que o anúncio do cessar-fogo da ETA é um “momento muito importante para Espanha” e representa uma “vitória” da linha independentista basca que quer uma solução pacífica para o problema.

Anes referiu que este cessar-fogo “resulta não da vontade da direcção militar da ETA, que é jovem e radical, mas da enorme pressão exercida” nos últimos tempos pelos membros e simpatizantes da ETA que querem uma “solução pacífica, recusando a via militar”.

O especialista enfatizou que “é um momento muito importante para Espanha”, mas também para a Europa e o mundo porque cessa um conflito armado que já “não fazia sentido”, numa altura em que o país basco, à semelhança da Catalunha, já possui grande autonomia.

Segundo José Manuel Anes, especialmente os “veteranos” da ETA estão “fartos” do conflito armado e também há muitos simpatizantes do movimento separatista basco a pressionar a direcção militar da ETA para haver “negociações políticas”.

Questionado sobre se, desta vez, há mais condições para que o processo negocial tenha sucesso, uma vez que em anteriores ocasiões houve o regresso à luta armada, o presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT) disse estar convencido de que sim, porque é isso que a maioria dos membros e simpatizantes da ETA pretendem neste momento. Observou contudo que “é um processo negocial que vai começar” e que é preciso esperar a sua evolução.

Histórico aconselha prudência

A notícia deverá ser encarada com prudência face ao histórico dos anúncios de suspensão da luta armada pela ETA nas últimas décadas. Com efeito, o último cessar-fogo da ETA, antes do hoje anunciado, ocorreu a 22 de março de 2006 e durou até 30 de dezembro desse ano quando a organização realizou um atentado no aeroporto de Barajas, Madrid, que fez dois mortos.

O cessar-fogo mais longo da organização separatista basca foi anunciado a 18 de setembro de 1998, tendo durado 439 dias. Ao longo da sua história, a ETA anunciou uma dezena de tréguas. Uma cronologia publicada na edição on-line do jornal espanhol El Mundo relembra os principais factos: 

Fevereiro de 1981 – O primeiro cessar-fogo deu-se poucos dias após o golpe de Estado de 23 de fevereiro e foi anunciada para um ano, tendo-se prolongado até agosto do ano seguinte.

29 de janeiro de 1988 – A ETA oferece ao Governo espanhol uma trégua de 60 dias com o objetivo de negociar uma saída para o conflito basco. Representantes da organização e do Governo mantêm contactos, que não dão frutos.

15 de fevereiro de 1988 – Nova proposta da ETA para uma trégua de 60 dias, mas que não se materializa.

30 de outubro de 1988 – A ETA oferece, nas mesmas condições, um cessar-fogo de 60 dias que, uma vez mais, não se chega a concretizar.

08 de janeiro de 1989 – A ETA declara uma trégua de duas semanas, coincidindo com o início das chamadas Conversações de Argel (entre o Governo de Madrid e a organização).

28 de janeiro de 1989 – A organização prolonga este cessar fogo por mais dois meses, enquanto prosseguem os contactos entre a ETA e o Governo em Argel.

27 de março de 1989 – Novo prolongamento de dois meses. Prosseguem as conversações entre os representantes das duas partes.

04 de abril de 1989 – Fracassam as conversações de Argel e a ETA anuncia o fim do cessar-fogo.

10 de julho de 1992 – A ETA propõe um cessar-fogo de 60 dias, pouco depois da queda da sua cúpula em Bidart (França).

26 de abril de 1995 – A organização apresenta a sua Alternativa Democrática com uma proposta para a pacificação do País Basco.

23 de junho de 1996 – A ETA declara uma trégua de uma semana e dá ao Governo a possibilidade de negociar uma saída do conflito, proposta a que o Governo não responde.

20 de novembro de 1997 – A cúpula da ETA declara uma trégua que virá a ser chamada “Frente de las cárceles”.

16 de setembro de 1998 – A organização anuncia uma trégua indefinida e sem condições que começaria dois dias depois. O Governo mostra-se disposto ao diálogo: em maio de 1999 realiza-se um encontro na Suíça que não deu frutos. Em finais de novembro do mesmo ano, a ETA anuncia o fim do cessar-fogo.

18 de fevereiro de 2004 – A um mês das eleições gerais espanholas, a organização anuncia uma trégua ilimitada no território da Catalunha.

18 de junho de 2005 – Um mês depois de o Congresso apoiar a moção do Partido Socialista espanhol para dialogar com a ETA, a organização anuncia o fim das suas “ações armadas” contra “os eleitos dos partidos políticos de Espanha”. Uma semana depois, a organização esclarece no seu boletim “Zutabe” que esta trégua não inclui os membros do Governo.

22 de março de 2006 – A ETA anuncia um cessar-fogo permanente para “impulsionar um processo democrático em Euskal Herria [País Basco]”. Um comunicado da organização marca o início desta trégua para 24 de março de 2006. Um dia antes do final do ano, o cessar-fogo foi violado com um atentado no aeroporto de Barajas que custou a vida a dois jovens equatorianos.

MRA Alliance/Público/Lusa 

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