Sistema financeiro global está ferido de morte

A precária situação da banca americana e a realidade do mercado monetário REPO (recompra de activos financeiros) são bombas-relógio que podem, mais depressa do que muitos pensam, fazer implodir o sistema financeiro global.

Citibank, Bank of America, HSBC (USA), Wells Fargo e JP Morgan Chase poderão sofrer perdas bilionárias nos próximos meses e desestabilizar o sistema financeiro global segundo dados recolhidos nos respectivos relatórios e contas de 2008.

 Em conjunto, até 31 de Dezembro, os riscos de prejuízos líquidos com instrumentos derivativos de crédito aumentaram em USD 587 mil milhões/bilhões (mm/bi), um crescimento de 49% nos últimos 90 dias de 2008.

O cenário da exposição actual e futura daqueles bancos aos famigerados Credit Default Swaps (CDS) – seguros de crédito para protecção de riscos de incumprimento financeiro – contratados pelos clientes daquelas cinco insituições, envolvidos em operações especulativas, dá razão aos analistas mais sensatos e realistas: 

  • JP Morgan Chase: Risco Actual (RA), USD 241,2 mm/bi; Risco Futuro (RF), USD 299 mm/bi – Reservas actuais: USD 144 mm/bi;
  • Citibank: RA, USD 140,3 mm/bi; RF, USD 161,2 mm/bi; Reservas actuais: USD 108 mm/bi;
  • Bank of America: RA, USD 80,4 mm/bi; RF, USD 137,6 mm/bi; Reservas actuais: USD 122,4 mm/bi;
  • HSBC Bank USA: RA, USD 62 mm/bi; RF, USD 33 mm/bi; Reservas actuais: USD 20 mm/bi; Como banco estrangeiro, o HSBC não recebeu qualquer apoio financeiro do Tesouro dos EUA;
  • Wells Fargo: RA, USD 64 mm/bi; RF, USD 45 mm/bi; Reservas actuais: USD 109 mm/bi; A recente compra do banco Wachovia pelo Walls Fargo, poderá aumentar substancialmente os riscos futuros.

Os potenciais riscos combinados de USD 587 mm/bi excedem largamente as reservas em capital para situações de stress financeiro agudo – USD 497 mm/bi.

Acresce que, para além dos riscos com CDS’s, a exposição dos cinco bancos a outros derivados de crédito – câmbios, taxas de juros, etc. – ultrapassa 1,2 mil biliões de dólares, situando-se bem acima da fatídica fasquia dos trillions. Mil biliões de dólares – one trillion – equivalem actualmente a 7% do PIB dos EUA.

O professor da Economia, Laurence Seidman, da Universidade de Delaware (Newark) fez uma conta interessante. O equivalente ao produto norte-americano – 14 trillion – daria 540 voltas ao Equador se fosse transformado em notas de 100 dólares coladas umas às outras…

Se tivermos em conta que as injecções estatais de capital no Citibank e no Bank of America ascendem respectivamente a USD 50 e 45 mm/bi,  sem esquecer mais USD 100 mm/bi para garantias a empréstimos – facilmente se conclui que, sem ajudas públicas adicionais, em 2009, os principais bancos norte-americanos sofrem sérios riscos de insolvência.

Especialistas concordam

Os cinco bancos referidos detêm 95% do mercado de derivativos dos Estados Unidos. Perante esta realidade, qual a opinião dos especialistas? Acreditam na sua sobrevivência?

  • “Não acredito em nenhum dos números apresentados pelos bancos”; David Wyss, economista-chefe da agência de rating Standard & Poor’s;
  • “Os riscos dos big banks são tão grandes que os transformaram numa espécie de  condenados a caminho da cela da morte”; Gary Kopff, presidente da Everest Management, empresa especializada em acções judiciais contra a banca;
  • “A única solução é rebentar com o mercado dos derivativos – CDS’s, swaps e produtos estruturados – e começar tudo de novo”, Myron Scholes, Prémio Nobel das Ciência Económicas (1997), co-autor do modelo Black-Scholes para cálculo dos preços dos derivativos;
  • “[Os derivativos] tornaram praticamente impossível aos investidores a compreensão e a análise dos balanços dos bancos. (…) Quando leio os relatórios e contas das companhias envolvidas em derivados chego à conclusão de que não sei nada sobre a situação real das respectivas carteiras. É aí que tomo logo uma aspirina.”; Warren Buffett, presidente da holding Berkshire Hathaway, conhecido como o “Oráculo de Omah”, um dos mais respeitados investidores e especuladores dos EUA; Em 2003, em carta aos accionistas, Buffett apelidou os derivativos de “armas financeiras de destruição maciça”;
  • “Há quatro meses, os 10 maiores bancos dos EUA tinham uma capitalização bolsista de USD 722,73 mm/bi. Esta semana, este número encolheu 2/3 para USD 237,83 mm/bi. Em apenas quatro meses, os banqueiros roubaram aos accionistas USD 484,9 mm/bi, ao mesmo tempo que roubavam outros USD 250 mm/bi aos contribuintes e ao Tesouro, em fundos de emergência”; Joseph L. Galloway, McClatchy Newspapers, 28-01-2009;
  • “A distorção dos preços dos complexos derivativos de crédito (…) causou prejuízos a grandes instituições financeiras e colocou algumas, como a AIG, à beira do colapso. A proliferação de tais derivativos expôs aquelas instituições a perdas indirectas caso alguma das partes vá à falência.”; Aline van Duyn, Financial Times, 07-03-2009;
  • “Penso que o mercado CDS está actualmente em fase de completo e acelerado deslocamento. Também assumo que os vendedores de CDS’s fizeram a agulha para a venda a descoberto de activos (acções, futuros e fundos transccionados em bolsa [ETF’s]) numa tentativa desesperada para se protegerem de prejuízos crescentes. Isto colocou pressão adicional em mercados contaminados. Por outro lado, a situação é altamente prejudicial quando as acções detidas pelos nossos maiores credores, e pelas instituições financeiras, estão todas atadas a uma verdadeira espiral da morte. Estas dinâmicas, seguramente, vão provocar uma nova onda de desalavancagem financeira a nível global.”; Dawn Kopecki, Bloomberg,  05-03-2009.

REPO: A ameaça invisível

As metástases do tumor maligno que corrói o sistema financeiro global têm origem no mercado REPO norte-americano, regulado pelo banco central dos Estados Unidos – Reserva Federal (Fed) – que assume uma função nuclear no sistema de crédito global.

Nele, uma escassa vintena de bancos privados executa operações de protecção de riscos e de alavancagem financeira.Os movimentos geram a informação necessária ao Fed para fazer funcionar os instrumentos usados na sua política monetária.

Para se entender como funciona, socorremo-nos de um documento publicado pelo Banco Internacional de Pagamentos (BIS, em inglês). Os mecanismos mais importantes são os seguintes:

  • Neste mercado, os títulos de dívida são transaccionados contra numerário, sendo a respectiva recompra contratualmente estabelecida;
  • Títulos ou dinheiro funcionam como garantia para cada um dos mutuários;Entre as modalidades mais utilizadas contam-se os contratos standard, os acordos de venda ou de recompra e os empréstimos obrigacionistas;
  • Todos visam a aquisição de capital ou de títulos, consoante as necessidades operacionais dos bancos;
  • Os contratos REPO podem ser usados para alavancar negócios, financiar investimentos com maturidades mais dilatadas ou para protecção de riscos financeiros;
  • A forte natureza de curto prazo  das garantias implica uma estreita ligação aos mercados obrigacionistas, interbancários e monetários e exponencia a utilização de produtos financeiros derivados e estruturados;
  • Teoricamente, os contratos REPO têm um risco baixo e são instrumentos eficazes para a gestão da liquidez e do risco financeiro por parte dos bancos centrais;

A presente crise liquidou a tese do “baixo risco”. De facto, na sequência dos excessos e da orgia especulativa que caracterizou a gestão bancária na última década, o mercado REPO é tão vulnerável quanto os outros aos diversos tipos de risco – crédito, operacional e liquidez – e à volatilidade que lhes é inerente.

A depreciação dos títulos implica automaticamente a desvalorização das garantias. Esta situação obriga os bancos a vender activos ou garantias com penalizações ou com descontos.

O problema agrava-se nas operações de  alavancagem financeira. A deficiente fiscalização e supervisão da qualidade das garantias, sobretudo nos últimos dois anos, escancarou as falhas do sistema.

O então presidente do Fed de Nova Iorque e actual secretário do Tesouro, Tim Geithner, em 2008, deu a mão à palmatória:

“A estrutura do sistema financeiro mudou radicalmente, durante o boom, com o crescimento dramático da quota de activos exteriores ao sistema bancário tradicional. O sistema financeiro não-bancário [ex.: hedge funds] cresceu muito, sobretudo nos mercados monetários e financeiros. Este sistema paralelo financiou muitos activos nos mercados REPO, numa base de curtíssimo prazo, que envolviam transacções entre dois ou três mutuários. Com a expansão do volume daqueles mercados, a variedade dos activos financiados passou a incluir também títulos menos líquidos. (…) A dimensão dos activos relativamente ilíquidos e de elevado risco, financiados através de garantias de curto prazo, transformaram alguns veículos e instituições do sistema financeiro paralelo  em alvos vulneráveis às clássicas corridas aos depósitos, os quais não dispõem das protecções oferecidas pelo sistema bancário tradicional para redução daqueles riscos.”

O diagnóstico de Geithner assume outra importância quando constatamos que o Fed facilita este tipo de transacção a apenas 20 bancos – os chamados “dealers primários” – cujo nível de alavancagem chega a atingir rácios cinquenta a cem vezes superiores aos seus capitais próprios. Por esta razão a sua dependência das operações REPO é gigantesca e as necessidades de capital directamente proporcionais.

Os principais fornecedores dos recursos que alimentam este mercado são fundos monetários, grandes conglomerados industriais, governos locais e federais bem como bancos centrais de países estrangeiros.

Fed intoxicado

Até ao início do milénio, os Títulos do Tesouro dos EUA eram considerados tão bons como dinheiro fresco. Desde 2005, os alquimistas financeiros encarregaram-se de atulhar o sistema com uma parafernália de derivativos – CDO’s, MABS’s, CDS’s, ABS’s e dezenas de outros – hoje tristemente celebrizados sob a designação de “activos tóxicos”.

Este lixo financeiro está a apodrecer os balanços da banca comercial e já começou a inquinar o sistema nervoso central dos EUA – o Fed – e a contaminar o resto do mundo.

O problema tornou-se evidente com o colapso do mercado CDO – Collateralized Debt Obligation – na sequência da implosão do segmento hipotecário de alto risco ou  subprime. A descredibilização das notações fez o resto.

Quando se verificou que os ratings AAA eram pura ficção, o apetite pelo risco diminuiu radicalmente. Em escassos meses o mercado secou, os compradores desapareceram e os vendedores ficaram com as carteiras entupidas com papéis sem valor.

No final de 2008, o economista Gary Gorton – professor da Universidade de Yale e membro do National Bureau of Economic Research (NBER) – diagnosticou os tumores malignos que afectam o sistema, oriundos do segmento REPO.

“A crise do crédito – notou Gorton – foi estimulada pelo choque nos fundamentais. Os preços do imobiliário deixaram de subir e, em consequência, gerou uma crise de confiança nos mercados. O mercado norte-americano de acordos de recompra, estimado em USD 12 mil biliões – maior do que o total dos activos do sistema bancário dos EUA (USD 10 mil biliões), em particular, agudizou a ausência de liquidez durante a crise devido aos receios de incumprimento contratual [counterparty default]. Nas carteiras dos fornecedores de crédito acumularam-se indesejados activos ilíquidos, levando-os a acreditar que não poderiam ser vendidos. O resultado foi a subida dos depósitos iniciais, facto que provocou um movimento massivo de desalavancagem.”

Segundo Gorton, a exacerbação do stresse no mercado REPO é visível no segmento dos títulos da dívida pública americana. Os incumprimentos na devolução de títulos sob empréstimo aos respectivos proprietários “baterem recordes”. O sino tocou a rebate e aos agentes do mercado começaram a ficar nervosos e hipersensíveis…

O advogado malaio, especialista em finanças públicas, Matthias Chang, antigo secretário político do ex-primeiro-ministro da Malásia, Mahathir bin Mohamad, pegou no tema e escreveu um um oportuno artigo sobre a falência do banco central dos EUA (Federal Reserve, Fed) e o papel que o mercado REPO desempenha no processo.

“Tem havido – escreveu Chang – uma relação incestuosa entre o sistema bancário tradicional e sistema bancário paralelo. O elo que os une é o mercado REPO. De facto, este é o elo mais fraco de todo o sistema financeiro. (…) O congestionamento do mercado REPO é a base da minha tese de que, para além da terrível realidade financeira, ele é o principal factor que contribui para a bancarrota da Reserva Federal”.

O especialista malaio recorre a uma curiosa analogia para explicar a importância da função deste mercado na estabilidade do sistema financeiro:

“Imagine uma corda com três centímetros de diâmetro. A corda é composta por uma série de fios, mais finos, digamos que com 0,3 centímetros de diâmetro cada um. Todos unidos eles asseguram a robustez da corda. Agora imagine que os fios externos se partiram e resta apenas o fio central a suportar toda a tensão. Mais tarde ou mais cedo também vai rebentar e tudo aquilo que suporta vai cair desamparado. O fio central é o mercado REPO.”

Claro que o problema se agrava quando o próprio Fed se dispôs a comprar activos tóxicos para “limpar” os balanços dos bancos e “ilibar” o crime de especulação cometido por irresponsáveis banqueiros privados, conforme alertámos em Outubro. Um mês depois, o próprio secretário do Tesouro, “Hank” Paulson, reconheceu o disparate.

Ainda assim, isso não impediu que os activos ilíquidos aumentassem perigosamente nas contas do banco central dos EUA.

Boa parte do resultado da demência de banqueiros privados é agora passivo público, debitado a futuras gerações de contribuintes por acção dos banqueiros privados que ocupam cargos estatais.

Consequências dolorosas

Conforme notou recentemente Felix Zulauf, na revista Barron’s, “se o passivo do Fed tivesse de ser coberto por ouro cada onça custaria mais de 6.000 dólares. Não voltaremos ao padrão ouro mas os mercados nunca mais vão acreditar nos bancos centrais.”

Durante o biénio 2009-2010, as consequências das intervenções do Fed serão as seguintes, com repercussões dramáticas na Zona Euro e no resto do mundo:

  • Massivo endividamento público, com um défice orçamental que galgará a astronósmica fasquia de USD 2 mil biliões/trilhões;
  • Explosão dos custos do crédito;
  • Regresso das pressões inflacionistas;
  • A combinação juros elevados/inflação alta anulará efeitos práticos dos programas de emergência financeiros e penalizará a economia real;
  • Crises cambiais, com o dólar e o euro no pelotão da frente.

A manipulação dos mercados, operada concertadamente pelos banqueiros centrais do G7 e seu aliados, vai continuar.

Em 2008, os resultados foram-lhes favoráveis. Porém, a contagem decrescente para o acerto de contas já começou.

Mais tarde ou mais cedo, o lixo varrido para debaixo do tapete vai aparecer em toda a sua plenitude.

O cheiro será desagradável.

(Parte I – Fim)

MRA Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro, Consultor 

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