Sérvia: Sociedade civil enfrenta “o fardo do genocídio”

Danko Runic recusa a “culpa coletiva” dos sérvios pelo que fizeram homens como Ratko Mladic, “mas o genocídio foi cometido pelo Estado e quem quer que esteja depois no poder tem que lidar com isso”. Frases como esta são sacrílegas para boa parte da opinião pública sérvia, ontem como hoje e ainda mais — se possível — nos dias em que a magistratura de Belgrado prepara a extradição do antigo chefe dos sérvios bósnios para Haia.

“Devíamos esta prisão aos nossos vizinhos”, prossegue Danko Runic, jovem diretor do departamento de Integração Europeia e Cooperação com a Sociedade Civil na administração da capital sérvia. “Espero que a prisão de Mladic seja um primeiro passo para a adesão à União Europeia, mas antes de mais e sobretudo espero que nos ajude a enfrentar o passado”, acrescenta Danko Runic, que é também dirigente de um partido da oposição, os Liberais Democratas Sérvios. “A prisão de Mladic vai trazer, oxalá, um alívio para o sentimento de culpa pelo que aconteceu e, também, alguma paz para o sofrimento imenso causado às vítimas durante as guerras”, afirma também o jovem responsável municipal.

Ratko Mladic é acusado pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPI) de ordenar o massacre de cerca de oito mil muçulmanos bósnios em julho de 1995, no enclave de Srebrenica, além de liderar os 42 meses de cerco e bombardeamento de Sarajevo durante 42 meses.

Danko Runic alerta para “a forma profundamente errada em como a imprensa sérvia apresenta a prisão de Mladic como uma história ‘sexy’, recordando o seu passado militar glorioso e focando a atenção na pessoa dele e na sua biografia”.

Para Runic, “esse é o lado da história completamente irrelevante hoje”. Na televisão nacional, acrescenta, a prisão de Mladic, no dia 26 de maio, foi pretexto “para a exibição de apenas um documentário” na televisão nacional.

“Gostaria de ver, pelo menos, um segundo programa focado nas vítimas de Srebrenica e em todo o sofrimento que Mladic e o seu exército causaram a tanta gente. E também sobre as técnicas do genocídio: havia camiões, havia organização, aquilo foi pensado”, explica o jovem quadro dos Liberais Democratas.

O “fardo coletivo”, diz Danko Runic, apenas pode ser enfrentado por organizações e por iniciativa da sociedade civil, “pois os dirigentes políticos já provaram que não estão interessados em fomentar esse processo”.

Runic fala da importância de projetos como a Casa dos Direitos Humanos, em instalação no centro de Belgrado, ao lado do Parlamento, “e que pretendemos que tenha um arquivo sobre as guerras e os crimes da ex-Jugoslávia maior do que o do TPI em Haia”. A Casa deve abrir até ao final do ano.

Outro projeto, bastante mais ambicioso, é o da REKOM, a rede regional que, no antigo espaço jugoslavo, trabalha em prol da constituição de uma Comissão da Verdade que estabeleça “o destino de cada vítima nos vários países entre 1991 e 2000”.

Uma tal comissão seria diferente do TPI, “em primeiro lugar porque não é um órgão judicial. Precisamos de enfrentar todos o que aconteceu, à semelhança do que foi feito na Argentina, África do Sul e outros países”, diz Danko Runic.

“Não é demasiado tarde” para esse esforço e, no que respeita à Sérvia, o país só tem a ganhar. “Não podemos ter uma boa relação com Bruxelas sem antes resolver o nosso passado recente com Zagreb, com Sarajevo, com Pristina, com Podgorica”.

MRA Alliance/Lusa-Sic Notícias

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