Rússia explora debilidades políticas e militares da NATO

“Se as prioridades [da NATO] são um apoio claro ao falido governo de Saakashvili, se o corte de relações com a Rússia é o preço que eles [países ocidentais] estão dispostos a pagar, então que seja. A culpa não é nossa” Foi nestes termos que o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, comentou o cancelamento pela Aliança Atlântica dos contactos com Moscovo. Em resposta o Kremlin ripostou com a suspensão da cooperação militar no âmbito do Conselho Rússia-NATO. Sobre as vantagens em manter abertas as portas do diálogo bilateral Lavrov foi enfático: “A única coisa que posso dizer é que a Rússia precisa tanto da cooperação com a NATO como a NATO precisa da Rússia.” A observação está relacionada com o acordo entre Moscovo e Bruxelas que permite à Aliança Atlântica transportar armas para o Afeganistão através de território russo. “Após a famosa reunião da NATO alguns representantes de topo da Aliança segredaram-me -‘Vocês não vão impedir o trânsito para o Afeganistão, pois não?'”, precisou Lavrov concluindo: “A sorte da NATO está a ser decidida no Afeganistão.” A dureza da retórica moscovita prenuncia um conjunto de decisões destinadas a fraligizar a já periclitante capacidade negocial dos aliados ocidentais. Alguns observadores russos especulam sobre a possibilidade de, na próxima semana, o parlamento russo aprovar a declaração unilateral de independência aventada pelos parlamentos da Ossétia do Sul e da Abkhásia. Os parlamentos regionais de Tskhinvali e Sukhumi enviaram ontem apelos naquele sentido ao presidente russo Dmitri Medvedev. Paralelamente Lavrov anunciou a intenção da Rússia em manter 500 soldados numa zona-tampão à volta da Ossétia do Sul. “Quero declarar clara e inequivocamente que a Rússia está a cumprir com rigor os seis príncipios acordados entre os presidentes Medvedev e Sarkozy”, precisou o chefe da diplomacia russa. “Aqueles princípios permitem às forças russas de manutenção de paz adoptar medidas adicionais para garantir a segurança na zona-tampão”, disse. Aquela área permite às forças russas manterem-se em zonas estratégicas da Geórgia e controlar a principal autoestrada do país, crucial para a economia georgiana. Por outro lado, está em cima da mesa a possibilidade de a Rússia fornecer armamento sofisticado à Síria satisfazendo um velho desejo do presidente sírio Bashar al-Assad que ontem visitou oficialmente o seu homólogo Medvedev, em Sochi, uma estância de veraneio no Mar Negro. Após o encontro, Lavrov informou os media que a Rússia “está preparada para fornecer armas de carácter defensivo que não violem o equlíbrio estratégico no Médio Oriente.” Observadores americanos interpretam estas declarações como um sinal do provável congelamento da cooperação americano-soviética no combate ao terrorismo e á proliferação nuclear. Os mais pessimistas prevêem o endurecimento da política energética russa face ao Ocidente, pressões acrescidas sobre as bases militares americanas na Ásia Central e o colapso das negociações para o controlo dos armamentos nucleares. Angela Stent, ex-especialista do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, disse ao New York Times que existem múltiplas formas de Moscovo “ser menos cooperante do que até aqui”, citando o Irão, a ONU, a Síria, Venezuela, o Hamas e os programas antiterroristas e anti-drogras. Michael McFaul, consultor de Barack Obama para as questões russas, foi mais longe acusando a Rússia de tentar “romper com a ordem internacional” reconhecendo-lhe capacidade para atingir tal desiderato. “O potencial é grande pois, no final de contas, eles são hegemónicos na região e nós não. Isto é um facto”, disse o professor da Universidade de Stanford. O articulista do New York Times especula sobre os mais recentes receios dos estrategistas norte-americanos. “Nos prognósticos sobre o potencial da Rússia para criar problemas, a maioria dos especialistas olha em primeiro lugar para a Ucrânia que deseja integrar a NATO. O pior cenário que circula nos últimos dias é a tentativa de Moscovo para reivindicar a estratégica península da Crimeia com o objectivo de assegurar o acesso ao Mar Negro. Os legisladores ucranianos estão a investigar notícias segundo as quais a Rússia forneceu maciças quantidades de passaportes aos russos que vivem na região, uma táctica usada por Moscovo nas províncias separatistas georgianas da Ossétia do Sul e da Abkhásia, que serviu para justificar a intervenção militar no sentido de proteger os seus cidadãos.” MRA Dep. Data Mining

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