Rarefacção global do crédito está a asfixiar bancos locais e regionais

O sistema bancário global está a entrar numa fase aguda de sufoco. Os galácticos da liga bilionária – Citigroup, JPMorgan, Merryl Lynch, Lehman Brothers, HSBC, Wachovia Corp., Bank of America,UBS, Barclays, AIG, Deutsche Bank – foram algumas das vítimas. Os prejuízos inicialmente negados foram-se sucedendo dolorosamente nos últimos três trimestres. As estimativas oscilam entre os 200 e os 500 mil milhões de dólares.Quase um ano depois da orgia dos produtos financeiros estruturados, chegou a hora do acerto de contas para os milhares de bancos que “alinham” nas ligas regionais e locais. Os factos indiciam que, para uma boa parte deles, a liturgia da extrema-unção é incontornável. A Independent Community Bankers of America (ICBA), que representa cerca de 5 000 associados, reconheceu esta semana a severidade da situação vivida por um milhar deles. “Os bancos precisam de capital para emprestar aos clientes. Se os fundos não estão disponíveis os negócios desaparecem. A incapacidade de acesso a capitais alheios arrefece bruscamente toda a economia”, disse Chris Cole, um quadro superior da ICBA. Cole admitiu a possibilidade de muitos dos bancos associados serem forçados a declarar falência. Mais preciso foi o bilionário Wilbur Ross ao fazer a comparação da crise actual com a que nos anos 80/90 afectou milhares de instituições mutualistas de crédito (Savings & Loan Associations) nos Estados Unidos: [Na altura] faliram 2 600 bancos, mas ainda ficaram cerca de 8 mil. Desta vez vão falir mais mil (…) Os bancos regionais vão ter mais dificuldades do que os grandes em obter capital.” Ross prepara-se para adquirir alguns deles logo que o governo federal intervenha e limpe os respectivos balanços. Vários analistas concordam que os 8 mil bancos existentes nos EUA, nos próximos meses irão sofrer dolorosamente com o desaparecimento, desde Janeiro, do mercado da «securitização» -um híbrido de dívida e património líquido – avaliado em cerca de 120 mil milhões de dólares. O mercado entrou em colapso progressivo após as penhoras hipotecárias terem atingido 2,47% de todos os empréstimos concedidos no mercado dos EUA. Uma dimensão recorde. O colapso do mercado de crédito assumiu proporções gigantescas com a brusca aversão ao risco no segmento dos produtos estruturados (derivativos), ultra voláteis e altamente especulativos. Outro indicador, o índice S&P relativo à capitalização bolsista de 600 bancos de pequena/média dimensão – Standard & Poor’s Small Cap Regional Banks Index -caíu 34% em 2008, cortando-lhes a possibilidade de se capitalizarem sem prejuízo dos accionistas. Nathan Flanders, analista da empresa de notações Fitch Ratings, ajudou a deprimir ainda mais o mercado ao anunciar (21/05/2008) que poderia rever em alta a notação de risco de cerca de 60 CDO’s (Collateralized Debt Obligation/Titulo de Dívida Colateralizada) devido a incidentes de crédito, ou a pagamentos de dividendos futuros fora dos prazos acordados, por parte de um grande número de bancos. Flanders acrescentou que desde 2000 foram vendidos cerca de 46 mil milhões de CDO’s emitidos por fundos fiduciários (trusts). Desde Novembro de 2007, o número de operações foi igual a zero. Esta semana, o Wall Street Journal (WSJ), noticiou que “bancos pequenos e regionais deverão começar a declarar prejuízos nos próximos trimestres devido ao crescimento dos incidentes de crédito relacionados com projectos de construção e empréstimos imobiliários.” O jornal novaiorquino acrescentou que “durante os próximos cinco anos, os bancos deverão amortizar qualquer coisa como 26% – 165 mil milhões de dólares – dos activos em terrenos e imóveis residenciais”, citando como fonte a empresa Zelman & Associates. O WSJ adiantou que “os bancos amortizaram 0,7% daqueles activos no primeiro trimestre” do corrente ano. Cerca de um terço dos 6 919 bancos obrigados por lei a informar os reguladores do fundo de garantia de depósitos – Federal Deposit Insurance Corporation – reconheceu que as respectivas carteiras de empréstimos à construção já ultrapassaram em 100% os riscos totais cobertos pelos seus rácios de capital. “Um sinal de alerta para os reguladores”, enfatizou o jornal. Keith Maio, CEO da Zions Bancorporation, igualmente referido pelo WSJ, antecipou que os resultados do segundo trimestre serão “brutais”. Por seu turno, John Duffy, CEO do banco de investimento novaiorquino KBW Inc., que também opera no segmento dos derivativos, foi mais derrotista: “Claramente, o mercado está moribundo. Ou melhor, está morto.” Perante isto, e recordando os casos protagonizados pelos gigantes hipotecários Bear Stearns, Countrywide, Fannie Mae e Freddie Mac, para citar apenas alguns dos mais desastrosos, os próximos meses prometem uma nova onda de desagradáveis surpresas. Os mais expostos sucumbirão à crise de liquidez. Dos trambolhões que dela resultarão, assistiremos ao inevitável ciclo de falências, fusões e aquisições, que o presidente do Deutsche Bank, Josef Ackermann, em Agosto passado, eufemisticamente, chamou de “caos criativo”, aludindo às oportunidades da crise para acelerar a concentração da banca a nível global. MRA Dep. Data Mining

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