Portugal afectado pelo contágio da crise financeira global

Crise imobiliária começa a causar primeiras vitimas em PortugalUm fundo de investimento português comunicou ao regulador ter tido necessidade de recorrer a um empréstimo bancário devido ao elevado volume de resgates das participações dos clientes, revelou ontem o presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), Carlos Tavares. A informação foi fornecida durante uma conferência de imprensa, um dia depois de o BPI ter informado que irá liquidar no dia 2 de Outubro o “Fundo BPI Renda Trimestral”.

2.ª vítima protegida pelo anonimato

O fundo de investimento, que Tavares se recusou a identificar, informou a comissão ter sido forçado a recorrer a um empréstimo bancário devido ao elevado volume de resgates das participações dos clientes. O levantamento de dinheiro pelos clientes, que o presidente da CMVM também não quis quantificar, foi provocado pelo stress nos mercados de capitais, iniciado em finais de Julho após o rebentamento da bolha imobiliária e subsequente crise do sistema de crédito norte-americano. Carlos Tavares esclareceu que o recurso a empréstimos “é possível para prevenir situações de falta de liquidez” e que, no caso em concreto, o recurso ao crédito “foi usado dentro das margens normais”.
O presidente da CMVM reconheceu que “não podemos presumir que Portugal não é afectado e que não haja contágio.” (…) “Hoje já não podemos falar apenas no ‘subprime’ [crédito hipotecário de alto risco] nem dizer que pelo facto dos portugueses não terem investimento directo nestes produtos securitizados não são afectados.” (…). “Não podemos subestimar e dizer que este é um problema passageiro nem dar-lhe uma dimensão que ele pode não ter.” (…)

Obrigações são elo mais fraco

“Esta crise vai exigir muita transparência de todos os agentes”, sublinhou Carlos Tavares. “A exposição directa dos fundos portugueses ao subprime foi considerada marginal. Mas no que diz respeito ao mercado de títulos de risco fixo, como é o caso das obrigações [activos a que os fundos são muitas vezes expostos], temos um problema semelhante ao dos outros países”, afirmou. “Vai ser preciso análise e muito transparência por parte de todos os agentes do mercado para saber se há ou não problemas mais profundos e qual a sua dimensão”, disse o regulador.

A CMVM tem vindo desde há algum tempo a reunir com as sociedades gestoras para aferir a situação dos activos que compõem os fundos, verificando os riscos existentes e potenciais. Carlos Tavares deixou também um conselho aos investidores: “olhem para a carteira dos fundos e para as rendibilidades e tenham um diálogo com as sociedades gestoras, exigindo a identificação dos riscos, para tomarem decisões fundamentadas”. Esta foi a primeira vez que uma autoridade financeira reconhece a existência de potenciais problemas para as instituições financeiras portuguesas devido à sua exposição, directa ou indirecta, aos múltiplos “derivativos de risco” transaccionados fora de bolsa na Europa e nos Estados Unidos, nos últimos anos.

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