Orgia dos bónus bancários regressa indiferente à crise

A “cultura dos bónus” está de volta às capitais financeiras do mundo, Wall Street e a City londrina, com os sectores bancários e financeiros a preparar a entrega de milhares de milhões em bónus e incentivos aos ramos da banca de investimento, noticia hoje o jornal ionline.

“Os prémios tiveram um papel importante na crise e, no entanto, nada mudou.” O desabafo é de J. Robert Brown, professor da Universidade de Denver especialista em corporate governance. E os números talvez não sejam para menos. Segundo o “The Wall Street Journal”, as 23 maiores empresas financeiras dos EUA preparam-se para gastar este ano 140 mil milhões de dólares – 95 mil milhões de euros – em bónus e incentivos aos seus colaboradores. Um valor quase suficiente para limpar 80% da dívida pública portuguesa, que deverá atingir 121,6 mil milhões no final de 2009.

Ontem foi conhecido que também o Royal Bank of Scotland, que na sequência da crise financeira entregou o controlo de 70% do capital aos contribuintes britânicos, planeia pagar até cinco milhões de libras a cada um dos seus 20 quadros de topo no ramo da banca de investimento, cabendo aos outros empregados deste ramo em média cerca de 240 mil libras. Estes valores superam o que foi pago pelo RBS em 2007 – o pico antes do caos – e são 66% superiores ao que foi atribuído em 2008. A notícia chegou um ano depois do RBS ter recebido 22 mil milhões de euros dos contribuintes para fugir à falência e, para o “Times”, mostram que “cultura dos bónus” está de volta à City. Mas essa não é a única cultura que está de regresso. Os bancos que sobreviveram à hecatombe estão agora a apostar forte no mercado da dívida e do câmbio, aproveitando a falta de concorrentes para garantir fortes ganhos. “Os lucros dos bancos nos EUA vêm sobretudo do trading e não estão a reflectir-se num crescimento do crédito concedido à economia real”, criticou o economista Jacques Attali, numa conferência em Lisboa, sexta-feira.

Este regresso ao passado é também evidente em Wall Street – JP Morgan prepara a entrega de 18 mil milhões de dólares, a Goldman Sachs mais 20 mil milhões – e tem vindo a criar um dilema. Se por um lado as instituições argumentam que não se podem dar ao luxo de pagar menos, por outro a opinião pública e política promete crucificar o sector caso se confirmem os bónus. Basta ver a tábua rasa que tais bónus implicam nas recomendações recentes de contenção salarial à banca feitas pelo G20.

A complexidade do problema está exposta, porém, num caso: a General Motors. Com um tecto salarial definido pelo Governo – que não pode superar o milhão de dólares anual – a fabricante não está a conseguir contratar um administrador-financeiro para o grupo.

MRA Alliance/ionline

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