Opinião: A vitória do capitalismo social sobre o capitalismo liberal

Há 48 anos o terramoto de Valdivia, no Chile (22-05-1960) foi o mais violento registado até agora, com uma intensidade de 9,5 na escala de Richter. Os seus efeitos propagaram-se ao Havai, Japão, Filipinas, Nova Zelândia, Austrália e Alasca. A segunda fase da crise sistémica global terá um efeito igualmente devastador. Com uma diferença. Todos os mercados financeiros do planeta, do mais pobre ao mais solvente, serão afectados. Em Janeiro, falámos das causas.

No dia em que o Congresso dos Estados Unidos americano aprovou a nacionalização das dívidas da banca privada é importante assinalar que a medida marca um novo ciclo político e ideológico. No essencial, é idêntico ao que marcou as diferenças entre socialismo científico, socialismo democrático e capitalismo liberal, no final do século XIX. Os momentos que vivemos representam a derrota do capitalismo liberal face ao modelo social capitalista – socialismo em liberdade – nas versões nórdica e da Europa central. Já acontecera nos anos 30, durante a Grande Depressão. O New Deal foi a solução. O dinheiro dos impostos voltou a ser usado para desfazer os abusos do sector financeiro. Nos anos 90, a crise financeira nórdica demonstrou, de novo, o falhanço do modelo capitalista liberal. Ontem como hoje, as metástases são idênticas. Desde há 20 anos, os liberais anglo-saxónicos denigrem as soluções nórdicas. Dizem estar “infectadas pelo vírus do socialismo”. Agora usam medidas socialmente injustas para “defender” e “acautelar os interesses” dos contribuintes americanos. A desonestidade intelectual é directamente proporcional ao zilionário programa de salvação dos bancos. Para já, resta o sucesso do socialismo na solução da crise nórdica. Os sinais que subjazem à crise sistémica, independentemente da provável reacção positiva dos mercados nas próximas semanas, indicam que não há razões para optimismo. Antes pelo contrário.

No imediato, o Plano Paulson salvará os banqueiros e financeiros com melhores contactos no establishment estatal. O dinheiro dos contribuintes, por muito que seja, nunca chegará para saldar a totalidade das dívidas geradas pela ganância dos banqueiros e gestores. Isto é tão válido para os Estados Unidos, quanto para o resto do mundo. Só subsistirão as empresas que respeitaram as melhores práticas prudenciais. Pelo menos até 2010, continuaremos a assistir ao colapso de empresas do sector, independentemente da sua dimensão e nacionalidade, provocado por incompetência na gestão dos riscos de crédito. No passado dia 23, publicámos uma curta notícia, sobre o perigo de ruptura que impende sobre 2500 bancos norte-americanos. Se extrapolarmos a situação aos mercados de grande e média dimensão poderemos estimar que, nos próximos anos, em média, cerca de um terço das instituições desaparecerão do mercado, a nível global. Em alguns casos, como na Alemanha, o processo de concentração bancária pode liquidar 40% dos actuais agentes financeiros. As nacionalizações transferem propriedade. Não transferem conhecimento nem competências. A qualidade da gestão dos bens públicos, na esmagadora maioria dos países, é medíocre. Da comunista China à América capitalista, passando pela Malásia, Rússia, Brasil, Venezuela, México, Arábia Saudita, Índia. A lista, que integra Portugal, apenas é benévola relativamente a um escasso número de pequenas economias (Noruega, Finlândia, Dinamarca, Suécia, Suíça, Singapura).

A intervenção do Estado americano dificilmente garantirá o fim da crise. Pode até acentuar o pior da actual. Basta fazer contas. Hoje o Congresso americano subscreveu compromissos financeiros no valor de USD 700 mm/bi. Na semana anterior aprovou o orçamento mais despesista na história do país (USD 634 mm/bi). Porém, é bom não esquecer que, antes, já havia garantido o pagamento de USD 25 mm/bi para salvar o banco Bear Stearns, USD 200 mm/bi para salvar as hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, USD 85 mm/bi para impedir o colapso da seguradora AIG. Se adicionarmos a estes, os montantes com injecções de liquidez no sistema pelo Fed, aproximamo-nos dos USD 2 mil biliões/trilhões (mibi/tri) de responsabilidades que afectarão os fundamentais da economia norte-americana. Um dos problemas é que este dinheiro não está disponível nas contas do Tesouro americano. Para financiar a despesa é necessário contrair dívidas sob a forma de Títulos do Tesouro, agravando ainda mais as contas públicas. Estas medidas são catalizadores da depreciação do dólar e da inflação. O lixo tóxico não muda de qualidade com o Plano Paulson. As dívidas continuam a ser de alto risco. A liquidez do mercado evaporou-se. Os incumprimentos vão continuar. Os bancos vão acumular mais prejuízos e um bom número deles vai desaparecer. O crédito vai continuar escasso e tendencialmente caro. Durante muito tempo. O apetite pelo risco é coisa do passado. Os banqueiros que o digam. O défice para 2009 é gigantesco. O Congresso vai ter que aumentar o tecto da dívida pública para USD 11,3 milhões de biliões/bilhões (mibi/tri). A expansão da massa monetária vai depreciar o valor dos títulos da dívida e provocar a subida dos juros. É visível a contracção da economia americana. O impacto nos mercados de capitais e da dívida é inevitável. Dinheiro mais caro, prémios de seguro mais elevados, queda nos resultados das empresas, crescimento negativo e mais desemprego são as consequências. Esta é a realidade da economia ió-ió – engorda e emagrece em função do dinheiro disponibilizado. Porém, tal dinheiro é artificialmente fabricado. Para além de superar a taxa real de criação de riqueza não tem contravalor físico. Este ciclo vicioso já provocou a insolvência de países. Mas também provocou guerras.

MRA Dep Data Mining

Pedro Varanda de Castro, Consultor

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