Opinião: A quadratura do círculo da Sra. Merkel

Os mercados de capitais estão sob pressão. Hoje, na berlinda, estará o alemão. As ondas de choque vão propagar-se a nível planetário com impactos negativos nos cinco continentes. A operação de salvamento do conglomerado financeiro germânico HRE/ Hypo Real Estate tem que ver com a confiança no sistema, a sua capacidade para absorver riscos e evitar rupturas nos segmentos do mercado de dívida. Na Alemanha, um deles – Pfandbriefemarkt – está avaliado por várias instituições em EUR 900 mil milhões/bilhões (mm/bi). Este mercado transacciona títulos de dívida caucionados. Centenas de bancos e seguradoras participam nele através de múltiplas operações de refinanciamento. Governantes e banqueiros sustentam que a falência do grupo HRE é susceptível de desencadear turbulências desestabilizadoras. Só aquela instituição é responsável por quase 15% daquele segmento, um dos mais volumosos a nível mundial. Durante décadas o Pfandbriefemarkt foi considerado seguro e moderadamente especulativo. O Estado alemão, as federações e as autarquias, para além das empresas e outras instituições, emitem garantias sobre operações financeiras recorrendo a estes instrumentos derivativos de dívida. Até agora foram usados pelos investidores como uma aplicação à prova de bala. No final do período de maturidade de cada título, desde a 2.ª Guerra, não foi registado um incumprimento. Para o mercado era uma aplicação segura. Esta confiança está agora em risco. Boa parte dos títulos hipotecários emitidos pelo Hypo Real Estate foram usados em «securitizações» de alto risco, importadas e reexportadas em modelos anglo-americanos de produtos estruturados – CDO’s, ABS’s, MBS’s, SIV, Jumbo, etc.). A orgia subprime lançou uma núvem de suspeição sobre a sua segurança e sustentabilidade. A intervenção do governo alemão e da indústria financeira na salvação do moribundo HRE, tem que ver com isto. O governo de Berlim considera estratégico não deixar secar um mercado eficaz, que vale quase um milhão de biliões – um trilhão – de euros. Mais. A Sra. Merkel garantiu a segurança dos depósitos através da emissão de uma garantia federal no valor de EUR 568 mm/bi. A intervenção estatal é feita através de títulos e não de dinheiro fresco. Se adicionarmos àquele valor, 49% dos EUR 50 mm/bi concedidos para evitar a falência do HRE, temos que o Estado alemão, durante um fim-de-semana, passou a ser responsável por dívidas superiores às cobertas pelo Plano Paulson norte-americano. Mais concretamente, Berlim assumiu o risco de cobrir o equivalente a USD 804 827 milhões (EUR 593 mm/bi). Em 2009, é provável que encargos do mesmo tipo sobrecarreguem ainda mais o já stressado orçamento alemão. Ninguém sabe ao certo. Os prognósticos são reservados.

Certo é que, o caso Hypo Real Estate equivale apenas a um problema, protagonizado por uma instituição. Como vai ser quando outros operadores, de dimensão idêntica, forem atingidos? O governo da Sra. Merkel vai emitir mais garantias? E quando for necessário o dinheiro para liquidar as dívidas? Vai emitir mais dívida pública? Mas, não existe um Pacto de Estabilidade e Crescimento que limita a capacidade de endividamento dos Estados membros da UE? Ou será que os políticos alemães vão adoptar a modalidade norte-americana de “pedir” ao banco central que ponha as rotativas a trabalhar a todo o gás para emitir mais papel-moeda?

Como se trata da divisa comum aos Estados da Zona Euro, estas são questões que justificam a reacção de pânico de muitos depositantes que, este fim-de-semana, sacaram tudo o que podiam das suas contas. O movimento só parará quando regressar a confiança nas instituições. A crise de confiança institucional é a quadratura do círculo. Nela tropeça a chanceler federal, Angela Merkel. Se cair, vamos todos atrás.

MRA Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro

Leave a Reply