Opinião: A demência política e a irresponsabilidade financeira norte-americana

O governo dos Estados Unidos voltou a abrir os cordões à bolsa ao anunciar mais um plano de relançamento económico, no montante de USD 800 mil milhões/bilhões (EUR 600 mm/bi), para estimular o consumo e reanimar o mercado imobiliário.

Em conjunto, todas as ajudas governamentais concedidas ao sector financeiro estadunidense, desde Janeiro, já somam USD 7,2 mil biliões – mais de metade do PIB do país.

Recorde-se que, , no dia 3 de Outubro, o primeiro programa específico de emergência aprovado pelo Congresso – Trubled Asset Relief Program (TARF) – fora dotado com um décimo daquela verba (USD 700 mm/bi)

O fundo de emergência, inicialmente concebido para a compra de activos tóxicos, foi sendo sucessivamente alterado e direccionado para outros fins, como a recapitalização das instituições financeiras. Os ziguezagues do secretário do Tesouro, Henry Paulson, são interpretados pela maioria dos analistas como um claro sinal do desnorte do governo dos EUA face à gravidade da situação das empresas e do sistema financeiro norte-americano.

O novo plano anunciado pelo secretário Paulson, visa agora, directamente, o sector que está na origem da grave crise financeira que se alastrou ao mundo inteiro: o mercado imobiliário. Em conferência de imprensa, Paulson justificou a medida afirmando que “milhões de americanos não conseguem encontrar financiamento acessível para as necessidades básicas de crédito. As taxas dos cartões de crédito estão a subir, o que torna as compras do dia-a-dia mais difíceis para as famílias.”

O exorbitante nível de endividamento do Tesouro coloca as finanças públicas no limite da capacidade para conseguir pagar atempadamente o serviço da dívida. Alguns analistas admitem mesmo a possibilidade de os Estados Unidos poderem entrar em ruptura financeira, em meados de 2009.

Em círculos financeiros americanos e europeus há mesmo quem especule com a possibilidade de um incumprimento que, a acontecer, significaria o fim do sistema financeiro mundial, criado após a II Guerra Mundial, e o aprofundar da actual crise sistémica.

O nível de endividamento público norte-americano aproxima-se perigosamente do valor global do PIB – cerca de USD 14 mil biliões. A acção do banco central dos EUA (Fed) de inundar os mercados com oceanos de liquidez, através da emissão de Títulos do Tesouro, está a provocar reacções contraditórias nos mercados. Porém, o seu ritmo e dimensão prenunciam, a prazo, uma forte desvalorização do dólar, a subida em flecha das taxas de juros e a ameaça de hiperinflação.

Após oito anos no poder, a administração republicana Bush/Cheney deixa ao 44.º presidente, o democrata Barack Obama, que tomará posse no dia 20 de Janeiro, um país arruinado, e uma elite irresponsável, que atirou o planeta para uma catástrofe política, económica e social, de consequências imprevisíveis.

MRA Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro

P.S.: Desde 2007, temos expressado as nossas opiniões sobre este assunto. Em Setembro e Outubro, voltámos à carga em três artigos. 1 2 3

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