Geórgia: Russos saem, Saakashvili e generais na corda bamba

Contra-ataque russo na GeórgiaA retirada das tropas russas da Geórgia iniciada ontem marca o início da segunda fase da crise para o primeiro-ministro Mikhail Saakashvili – o ajuste de contas interno com os líderes da oposição e as faixas descontentes da população. [A crítica] vai começar quando os russos partirem”, escreveu o editorialista Zaza Gachechiladze. Um antigo membro do governo do presidente Zviad Gamsakhurdia nos anos 90 – Temur Koridze – já abriu as hostilidades com o neoconservador georgiano ao afirmar que “nem ele, nem o governo são competentes”, defendendo uma “autoridade saudável e sólida”. “Como comandante-em-chefe [Saakashvili] é um falhado. A sua política bateu no fundo.” Um ministro europeu que esta semana se deslocou a Tbilisi, no âmbito das iniciativas diplomáticas para pôr de pé o frágil cessar-fogo, afirmou a jornalistas ocidentais que dentro do próprio governo começam a ouvir-se vozes dissidentes que questionam a capacidade de avaliação de Saakashvili ao mandar invadir a Ossétia do Sul sem prevenir a reacção russa nem garantir uma protecção eficaz por parte dos aliados ocidentais. Valeri Kvaratskhelia, que integrou o governo do antigo presidente Eduard Shevardnadze aconselhou “o amiguinho de Bush” a pedir desculpa aos ossetas e georgianos e a demitir-se, abrindo caminho a um novo primeiro-ministro para iniciar o processo de reparação dos danos políticos e económicos. [O ataque] não foi apenas um erro, mas um crime”, frisou Kvaratskhelia marcando o tom da campanha anti-Shaakhasvili. As tropas russas e os paramilitares separatistas pró-moscovo encarregaram-se de danificar o que restava da inicipente infra-estrutura da Geórgia, fazendo retroceder o país aos níveis de desenvolvimento da era soviética. Bombardeamentos cirúrgicos, fogos postos e bombardeamentos em zonas militar e economicamente sensíveis, afectaram a circulação interna de pessoas e bens, o fornecimento de energia eléctrica, as telecomunicações e demais serviços essenciais a qualquer economia. Saakashvili e os invisíveis generais do seu exército vão estar na berlinda a partir desta semana. “Será que a Geórgia tem algum exército?”, escreveu com azedume Gachechiladze, editor de um jornal local de língua inglesa. “Há muitas questões a colocar” ao presidente (…) Quem era o comandante encarregado da ofensiva e quem tomou a decisão de invadir a Ossétia do Sul?” Entre a população são frequentes os ataques ao líder, ao governo, à tropa e ao que classificam de “traição ocidental” – a inexistente ajuda militar e política durante a violenta acção punitiva da tropa às ordens do Czar Putin. Alguns analistas ocidentais prognosticam o fim do noivado Geórgia-Ocidente e o cancelamento da boda Nato-Saakashvili. A confirmar-se o prognóstico, vem à colação o ditado português “quem semeia ventos, colhe tempestades.” O crepúsculo de Saakashvili faz lembrar o desabafo de Henry Kissinger, em 1975, na antecâmara da fuga americana do Vietname – “É perigoso ser inimigo dos Estados Unidos, mas ser seu aliado é letal.” MRA Dep. Data Mining

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