B+RIC: BRIC um gigante económico, RIC um gigante geopolítico

Os ministros dos Negócios Estrangeiros do bloco BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China reúnem-se em Moscovo, no próximo mês, para debaterem temas de interesse comum no âmbito da globalização: comércio, desenvolvimento e sistema financeiro. Os quatro gigantes querem criar um novo quadro de cooperação que possa gerar sinergias e vantagens competitivas, em particular no âmbito da cooperação económica. Com 40% da população mundial o potencial conjunto das economias e mercados BRIC é uma garantia plausível de poderem passar ao lado do clima recessivo mundial, e assumirem-se como as locomotivas do crescimento global nos próximos 40 anos.

O Brasil dispõe de generosos e valiosos recursos naturais, baixa densidade populacional versus território arável, boas infra-estruturas industriais na cadeia de valor agro-alimentar e taxas de juro atractivas para captar grandes volumes de investimento directo estrangeiro (IDE). Embora se registe um crescimento do apetite para o consumo interno, entre os quatro, a brasileira é a economia com menores taxas de crescimento (entre os 4/5%). Por este facto, e por ser uma potência do Hemisfério Sul, a agenda política será mais influenciada pelos interesses dos outros três membros do bloco emergente.

“A realidade BRIC assenta em laços económicos e financeiros. A agenda RIC concentrar-se-á também fortemente na geopolítica internacional.” Esta nuance diplomática foi explicitamente defendida por Konstantin Vnukov, director do Departamento Asiático do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, recentemente durante uma visita à Índia. A visão RIC, ao que parece, está ser estimulada por Moscovo e Nova Deli, com Pequim na persistente defesa da inclusão brasileira nas dinâmicas geopolíticas mundiais dos quatro estados membros.

Os indianos são claramente os defensores de um bloco a duas velocidades B + RIC, na perspectiva de que, se as previsões de 2003 da Goldman Sachs estiverem correctas, em 2032, a Índia será a 3.ª maior economia global, em termos de rendimento per capita. Com uma afluente população jovem e possuidora de elevados níveis de educação e competências técnicas, um crescimento demográfico politicamente não controlado, ao contrário da China, a ex-colónia britânica, boa aluna da Commonwealth of Nations, dominada pelo londrino establishment da City e de Whitehall é, entre os quatro BRIC, o país que mais claramente aspira ao reconhecimento de estatuto de superpotência global, a par da Rússia, China e Estados Unidos. Esta é a razão para a agressiva política indiana de rearmamento militar, o único passaporte válido para pertencer ao restrito grupo. Claro que a pobreza, as estressadas infra-estruturas e o défice de solidariedade social indianas são pontos fracos e ameaças às suas pretensões globais.

Porém, uma conclusão parece-nos óbvia. A confirmarem-se as previsões do banco de investimento americano, o bloco BRIC, até 2050, ultrapassará os seis países (G6) que dominaram a economia mundial após a II Guerra mundial (Alemanha, EUA, França, Grã-Bretanha, Itália e Japão) e boa parte dos que integram o G7 (G6 + União Europeia). Mas, realmente interessante é o facto de muitas das nações hoje industrializadas poderem estar condenadas a não terem lugar à mesa das negociações das putativas superpotências económicas globais do século XXI.

MRA, Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro

Consultor

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