Inflação agro-alimentar e petróleo acentuam desigualdades, pobreza e ameaçam paz mundial

O petróleo barato acabou. A partir de agora promete manter-se longamente acima dos USD 100-120/barril. Com energia mais cara tudo vai subir de preço. Em Abril, cada tonelada métrica de bens essenciais disparou para valores difíceis de suportar. Tomemos como exemplo um país emergente – a Tailândia – e teremos uma ideia clara do perigo da «agflação», a inflação dos produtos agro-alimentares, para o desenvolvimento do país: o arroz branco de 2.ª, base da alimentação nacional ultrapassou os USD 850,00. Outros bens seguiram a tendência altista – leite em pó (USD 4 750,00), milho amarelo (USD 250,00) e o trigo saltou a fasquia dos USD 400,00. Cada tonelada aumentou quase 100% relativamente ao preço no primeiro trimestre de 2007. Na China, Índia, Indonésia, Filipinas, na generalidade dos países africanos, a situação é idêntica. A nível global, apenas num ano, os preços do arroz (+ 120%) e do trigo (+ 75%) explodiram para níveis insustentáveis.

O Banco Mundial estima que 33 países estão enfrentam grave instabilidade social por causa dos aumentos dos preços de alimentos e da energia. Na Indonésia, Filipinas e Camarões há desacatos nas ruas. Pessoas já morreram em conflitos localizados, gerados pela falta de comida, em vários locais do planeta. O líder do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Khan, advertiu recentemente que o encarecimento dos preços dos alimentos, ao ritmo actual, vai ter “terríveis” consequências. Ele destacou a fome para “centenas de milhares de pessoas” e o risco de guerras…

O impacto da «agflação é duplamente ameaçador e dificulta os esforços nacionais para atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), segundo Susan McDade, coordenadora residente das Nações Unidas, em Cuba. O primeiro ODM queria reduzir em 50% o número mundial de excluídos/indigentes e dos que passam fome em todo o mundo, entre 1990 e 2015.

Na semana passada, numa conferência de imprensa, em Havana, McDade sublinhou o que todos sabemos – as nações pobres dependem muito das importações de petróleo e o seu elevado preço é um fardo adicional para as suas balanças de pagamentos. Como no efeito dominó, os serviços públicos, da educação à saúde passando pelos transportes e demais factores de produção, transformam os ODM numa pura ficção.

A Assembleia Geral da ONU aprovou em Setembro de 2000, os ODM como a mega plataforma para erradicar a pobreza, a fome e a desigualdade e proteger o meio ambiente em todo o mundo. Algumas das metas incluem garantir até 2015 a educação universal para crianças e adolescentes, reduzir a mortalidade infantil, assegurar a igualdade entre sexos, melhorar a saúde materna, combater a SIDA, malária e outras doenças, bem como garantir a que o planeta vai crescer de forma gradual e sustentada sem afectar o meio ambiente, os recursos nacionais e a biodiversidade.

O projectado sonho não se realizou. Antes promete manter-se como um pesadelo, e talvez mais grave. Segundo a ONU, 862 milhões de pessoas passam fome no mundo (52 milhões na América Latina e Caribe) vivendo com menos de um dólar por dia. Aos preços actuais dos alimentos a fome e a subnutrição vão aumentar no mundo. O Programa Alimentar Mundial (PAM) foi obrigado a rever o seu orçamento para 2008, passando-o de USD 2,9 mil milhões/bilhões (mm/bi) para 3,4 mm/bi de dólares. Para agravar a situação, a entrada nos mercados especulativos da commodities de grandes fundos de investimento em busca de rendibilidades perdidas nos mercados de capitais, de crédito e da dívida revelou-se, particularmente desde o início da crise subprime, créditos hipotecários de alto risco, no Verão de 2007, as pressões inflacionistas acenturaram-se drasticamente nas matérias-primas base. A formação de preços agrícolas deixou de depender apenas da oferta, procura e clima. As políticas macroeconómicas, como taxas de câmbio, juros e movimentos de capital passaram a fazer parte da equação transformando-a num exercício analítico mais complexo, volátil e imprevisível. O aumento da produção agrícola é difícil face aos problemas ambientais e à crescente regulação internacional face ao perigo do aquecimento climático e dos gases com efeito de estufa sobre os biosistemas e as cadeias de produção.

Mas desenganem-se os que defendem que a «agflação» se agravou com a especulação financeira. O problema é sistémico e global. A solução é uma complexa quadratura do círculo. As verdadeiras razões estão no forte aumento do consumo da China e da Índia. Sózinhos representam 1/3 da população mundial. Grandes países produtores de trigo, milho, arroz e soja como o Brasil, a Argentina e os EUA acabam de impôr restrições às exportações para prevenirem crises domésticas de abastecimento. À semelhança do que aconteceu em vários países asiáticos, também o Brasil suspendeu exportações do arroz armazenado em silos estatais (milhão e meio de toneladas). A reconstituição dos stocks pode demorar 5/6 anos, na opinião de alguns especialistas, mesmo que os preços continuem a subir.

Paradoxalmente, os excedentes do açúcar brasileiro mantiveram os preços baixos, mesmo após o desvio de milhares de toneladas para a crescente produção de etanol, cuja principal matéria-prima é a cana-de-açúcar. Este facto não deixa de ser um desconforto para países como a França, Venezuela e Cuba, que combatem a competitividade do etanol brasileiro. Dizem que este biocombustível é a maior ameaça à segurança alimentar mundial. O argumento é tanto mais curioso quanto, como todos sabem, os preços do milho quadriplicaram nos últimos dois anos pois o etanol americano retirou milhões de toneladas do grão amarelo da cadeia alimentar para a cadeia energética. Enfim, curiosidades…

Leave a Reply