Incidente naval irano-americano de Ormuz foi invenção do Pentágono

Cronologia da mentira político-militar americana:

  1. WASHINGTON, 7 Jan 2008, 12h20 – UOL/AFPCinco embarcações iranianas realizaram na noite de sábado manobras hostis diante de três navios de guerra da Marinha americana em águas internacionais do estreito de Ormuz – uma rota estratégica para o petróleo do Golfo – informou a rede de televisão americana CNN.
  2. WASHINGTON, 07/01/2008, 12h42 UOL/Reuters (…) Confirmando uma notícia da rede de TV CNN, elas [fontes do Pentágono] também contaram que um capitão norte-americano estava em vias de dar uma ordem de fogo seguindo-se às ameaças. Mas a ordem acabou não sendo dada quando os barcos iranianos se afastaram dos navios dos EUA. (Por Andrew Gray)
  3. WASHINGTON, 07/01/2008 – 13h21 – UOL/AFP O governo americano vai “enfrentar a conduta iraniana” se representar ameaça aos Estados Unidos ou aos aliados, anunciou nesta segunda-feira o departamento de Estado depois de um incidente entre embarcações de ambos os países no estreito de Ormuz.
  4. WASHINGTON – 07/01/2008 – 13h44 – UOL/Reuters – Barcos da Guarda Revolucionária Iraniana provocaram três navios da Marinha norte-americana no estreito de Ormuz, um incidente potencialmente hostil em uma importante rota de petróleo, disse um porta-voz do Pentágono nesta segunda-feira. O porta-voz Bryan Whitman confirmou o incidente ocorrido no fim de semana durante uma entrevista nesta segunda-feira. Segundo ele, as ações do Irão foram “descuidadas, negligentes e potencialmente hostis”. A Casa Branca também se manifestou sobre o assunto, alertando o Irão para que não realize ações desta natureza no futuro. “Pedimos aos iranianos que se abstenham de tais ações desafiadoras, que poderiam levar a um incidente perigoso no futuro”, afirmou o porta-voz da Casa Branca Gordon Johndroe.
  5. TEERÃO, 7 Jan 2008 – 14h56 – UOL/AFP O ministério das Relações Exteriores iraniano minimizou nesta segunda-feira o incidente entre forças navais dos Estados Unidos e iranianas no estreito de Ormuz, qualificando-o de “comum”, segundo a agência de notícias Irna. “É uma questão comum que pode acontecer de tempos em tempos entre as duas partes”, disse o porta-voz do ministério, Mohammad Ali Hosseini, citado pela agência.
  6. JERUSALÉM, 08/01/2008 – 07h45 – UOL/AFPA secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, advertiu o Irão que deve cessar as provocações, em uma entrevista ao jornal israelense Jerusalem Post, numa referência sobre as manobras iranianas no estreito de Ormuz. “O Irão deve deixar de realizar tais provocações (…) Os Estados Unidos defenderão seus interesses e seus aliados”, declarou Rice ao jornal. Segundo a secretária de Estado, a república islâmica é “a maior ameaça no Oriente Médio”.
  7. Folha Online/AP – 08/01/200818h52O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, acusou nesta terça-feira o Irão de provocação (…) no estreito de Ormuz, mas admitiu que desconhece as motivações de Teerão. “É uma situação perigosa”, afirmou Bush em coletiva de imprensa na Casa Branca. “Eles não deviam ter feito isso, simples. (…) Não sei no que pensavam, mas te digo o que pensei. Pensei que foi um ato provocativo.” (…) O presidente disse ainda que o relatório recente da inteligência americana sobre o Irão, que afirma que Teerão interrompeu seu programa de armas nucleares em 2003, mandou um “sinal confuso” à comunidade internacional sobre as políticas dos EUA. “O Irão era uma ameaça. O Irão é uma ameaça. E o Irão irá continuar a ser uma ameaça se permitirem que eles aprendam como enriquecer o urânio”, afirmou. O incidente ocorre na véspera da partida de Bush na noite desta terça-feira com destino ao Oriente Médio, para uma viagem de três dias. Bush deve discutir sobre a postura dos EUA em relação a Teerão com aliados árabes que também se preocupam com o desejo de Teerão por mais poder na região.”
  8. WASHINGTON 08/01/2008 – 22h39 AFP – O Pentágono divulgou nesta terça-feira um vídeo que parece confirmar sua denúncia de que lanchas iranianas teriam cercado navios de guerra americanos no estreito de Ormuz, ameaçando-os. Segundo o Pentágono, o vídeo foi feito no navio “USS Hopper”. A gravação mostra lanchas militares aproximando-se das embarcações americanas em alta velocidade e dando voltas em torno do “USS Hopper”, do “USS Port Royal” e do “USS Ingraham”. Além disso, uma gravação de áudio registrou uma voz em inglês dizendo “Vou até vocês… vão explodir em poucos minutos”, enquanto outras vozes da ponte de comando do “USS Hopper” advertiam para que as lanchas se afastassem.”
  9. Teerão, 09/01/2008 – 10h28 – UOL/EFEO Irão acusou nesta quarta-feira os Estados Unidos de “fabricar” o vídeo divulgado pelo Pentágono sobre o incidente no Estreito de Ormuz entre lanchas iranianas e navios militares americanos, o que aumentou a tensão entre os dois países. “As imagens são antigas. Combinaram a voz com imagens do arquivo”, disse uma “fonte responsável” pelo corpo dos Guardiães da Revolução, ou “Pasdaran” em persa, citadas pela rede de televisão iraniana “Alalam”.”
  10. Paris, 09/01/2008 – 12h11 – UOL/EFEA França qualificou hoje de “perigoso” o incidente entre navios americanos e embarcações iranianas (…) “O comportamento dos iranianos foi muito perigoso, peço contenção”, afirmou o ministro de Exteriores francês, Bernard Kouchner.”
  11. TEERÃO – 10/01/2008 – 11h25 – AFP – A televisão iraniana divulgou imagens do incidente (…) nas quais se vê um marinheiro iraniano pedindo que os americanos se identifiquem. Esta difusão responde ao vídeo e à gravação de áudio que o Pentágono divulgou e que uma fonte militar iraniana classificou de “truque”. (…) As imagens, feitas a partir de uma das cinco lanchas rápidas, mostram como uma deles aborda os navios americanos. Depois se vê um marinheiro iraniano que se comunica com um dos navios, o Port Royal CG-73, e pede sua identificação várias vezes. O navio americano se identifica todas as vezes, mas quando é perguntado seu destino e velocidade, responde que está navegando em águas internacionais. (…) O perigoso face a face (…) “quase desencadeou uma troca de tiros entre nossas forças e as forças iranianas”, afirmou o conselheiro para Segurança Nacional do presidente George W. Bush, Stephen Hadley. Esta é uma advertência para eles: devem prestar muita atenção porque, se isso acontecer novamente, deverão sofrer as conseqüências de um incidente como esse”, disse Hadley.”
  12. DUBAI, 10/01/2008 – 17h50 – UOL/AFP – “Um porta-voz da V Frota americana, baseada no Bahrein, afirmou à AFP que é “impossível saber” se a recente ameaça proferida contra navios americanos no estreito de Ormuz, (…) foi emitida, de facto, por lanchas iranianas. “Não existe nenhuma forma de verificar de onde vieram” essas ameaças emitidas por rádio, declarou por telefone o tenente John Gay. As ameaças “podem ter sido enviadas da costa, ou de outro barco no setor”, acrescentou.”
  13. WASHINGTON, 11/01/2008 22h47 – AFP – O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, almirante Michael Mullen, advertiu o Irão para que não interprete equivocadamente sua contenção no incidente (…) “Não estamos ansiosos para entrar em combate (…), mas não devem confundir contenção com falta de determinação, e os comandantes desses navios se defenderão”, garantiu o chefe do Estado-Maior.
  14. Manama/Barein – 13/01/2008 – 13h52 – UOL/EFE“A Marinha dos Estados Unidos temia que as lanchas iranianas (…) quisessem cometer um ataque suicida, disse hoje a Casa Branca. A porta-voz presidencial Dana Perino defendeu as decisões tomadas pelas forças militares do país. (…) “Tudo o que os militares se lembravam era do que ocorreu no passado, como com o USS Cole”, disse Perino no quartel-general da Quinta Frota dos Estados Unidos, situado em Manama.
  15. WASHINGTON – 14/01/2008 – 19h23 – UOL/Reuters “Um trote (piada)transmitido por rádio pode ter dado origem ao incidente (…) segundo uma publicação especializada em assuntos da Marinha norte-americana. Oficiais navais dos EUA disseram ao semanário Navy Times que a mensagem de rádio que deu origem ao incidente foi transmitida por um certo “Filipino Monkey”, cujos trotes são ouvidos há anos na área. “Filipino Monkey” (“Macaco Filipino”) é famoso no Golfo Pérsico por ouvir a frequência de rádio usada pelos barcos e intervir com insultos, segundo o Navy Times. A Marinha não se manifestou sobre a notícia.
  16. Washington, 14/01/2008 – 21h46 – UOL/EFEOs Estados Unidos estão investigando a origem da mensagem ameaçadora que foi transmitida por um equipamento de rádio durante o incidente (…) para determinar se esta esteve relacionada ao fato ou foi uma piada.”

No dia 15/01/2008, Gareth Porter, um reputado professor universitário, historiador e analista de questões relacionadas com as políticas de Segurança Nacional executadas por diversas administrações norte-americanas, publicou um extenso e esclarecedor artigo sobre os bastidores desta alegada “grave provocação” iniciada pelos “diabólicos” governantes do Irão.

A manipulação desta vez não resultou. De novo, o objectivo visou enganar a opinião pública americana e mundial, inventando um grave incidente político, diplomático e militar que servisse de pretexto para arregimentar aliados dispostos a aprovar, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, mais um pacote de sanções contra o Irão – por alegada violação das resoluções da ONU no âmbito do seu programa nuclear rotulado de “ameaçador” e “perigoso” para a segurança da “comunidade internacional.

Se o golpe fosse bem sucedido, o passo seguinte seria um ataque militar aéreo às centrais nucleares do Irão, levado a cabo pela Força Aérea de Israel. Eventualmente, não estava (está?) descartada o envolvimento directo das esquadrilhas de caças estacionadas nas bases americanas do Golfo Pérsico ou nos diversos porta-aviões ianques que por ali policiam, diariamente, as rotas dos petroleiros que abastecem de crude os países banhados pelos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico.

Com a devida vénia, passamos a reproduzir o texto original de Gareth Porter publicado pela agência Inter Press Service, cujo conteúdo foi largamente reproduzido por meios de comunicação do Médio e Extremo Oriente mas, praticamente ignorado pelos chamados media de referência ocidentais.

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WASHINGTON, 15/01/2007 – IPS – Senior Pentagon officials, evidently reflecting a broader administration policy decision, used an off-the-record Pentagon briefing to turn the Jan. 6 U.S.-Iranian incident in the Strait of Hormuz into a sensational story demonstrating Iran’s military aggressiveness, a reconstruction of the events following the incident shows.

The initial press stories on the incident, all of which can be traced to a briefing by deputy assistant secretary of defence for public affairs in charge of media operations Bryan Whitman, contained similar information that has since been repudiated by the Navy itself.

Then the Navy disseminated a short video into which was spliced the audio of a phone call warning that U.S. warships would “explode” in “a few seconds”. Although it was ostensibly a Navy production, IPS has learned that the ultimate decision on its content was made by top officials of the Defence Department.

The encounter between five small and apparently unarmed speedboats, each carrying a crew of two to four men, and the three U.S. warships occurred very early on Saturday Jan. 6, Washington time. But no information was released to the public about the incident for more than 24 hours, indicating that it was not viewed initially as being very urgent.

The reason for that absence of public information on the incident for more than a full day is that it was not that different from many others in the Gulf over more than a decade. A Pentagon consultant who asked not to be identified told IPS that he had spoken with officers who had experienced similar encounters with small Iranian boats throughout the 1990s, and that such incidents are “just not a major threat to the U.S. Navy by any stretch of the imagination”.

Just two weeks earlier, on Dec. 19, the USS Whidbey Island, an amphibious warship, had fired warning shots after a small Iranian boat allegedly approached it at high speed. But that incident had gone without public notice.

With the reports from 5th Fleet commander Vice-Adm. Kevin Cosgriff in hand early that morning, top Pentagon officials had all day Sunday, Jan. 6, to discuss what to do about the encounter in the Strait of Hormuz. The result was a decision to play it up as a major incident.

The decision came just as President George W. Bush was about to leave on a Middle East trip aimed in part at rallying Arab states to join the United States in an anti-Iran coalition.

That decision in Washington was followed by a news release by the commander of the 5th Fleet on the incident at about 4:00 a.m. Washington time Jan. 7. It was the first time the 5th Fleet had ever issued a news release on an incident with small Iranian boats.

The release reported that the Iranian “small boats” had “maneuvered aggressively in close proximity of [sic] the Hopper [the lead ship of the three-ship convoy].” But it did not suggest that the Iranian boats had threatened the boats or that it had nearly resulted in firing on the Iranian boats.

On the contrary, the release made the U.S. warships handling of the incident sound almost routine. “Following standard procedures,” the release said, “Hopper issued warnings, attempted to establish communications with the small boats and conducted evasive maneuvering.”

The release did not refer to a U.S. ship being close to firing on the Iranian boats, or to a call threatening that U.S. ships would “explode in a few minutes”, as later stories would report, or to the dropping of objects into the path of a U.S. ship as a potential danger.

That press release was ignored by the news media, however, because later that Monday morning, the Pentagon provided correspondents with a very different account of the episode.

At 9 a.m., Barbara Starr of CNN reported that “military officials” had told her that the Iranian boats had not only carried out “threatening maneuvers”, but had transmitted a message by radio that “I am coming at you” and “you will explode”. She reported the dramatic news that the commander of one boat was “in the process of giving the order to shoot when they moved away”.

CBS News broadcast a similar story, adding the detail that the Iranian boats “dropped boxes that could have been filled with explosives into the water”. Other news outlets carried almost identical accounts of the incident.

The source of this spate of stories can now be identified as Bryan Whitman, the top Pentagon official in charge of media relations, who gave a press briefing for Pentagon correspondents that morning. Although Whitman did offer a few remarks on the record, most of the Whitman briefing was off the record, meaning that he could not be cited as the source.

In an apparent slip-up, however, an Associated Press story that morning cited Whitman as the source for the statement that U.S. ships were about to fire when the Iranian boats turned and moved away — a part of the story that other correspondents had attributed to an unnamed Pentagon official.

On Jan. 9, the U.S. Navy released excerpts of a video of the incident in which a strange voice — one that was clearly very different from the voice of the Iranian officer who calls the U.S. ship in the Iranian video — appears to threaten the U.S. warships.

A separate audio recording of that voice, which came across the VHS channel open to anyone with access to it, was spliced into a video on which the voice apparently could not be heard. That was a political decision, and Lt. Col. Mark Ballesteros of the Pentagon’s Public Affairs Office told IPS the decision on what to include in the video was “a collaborative effort of leadership here, the Central Command and Navy leadership in the field.”

“Leadership here”, of course, refers to the secretary of defence and other top policymakers at the department. An official in the U.S. Navy Office of Information in Washington, who asked not to be identified because of the sensitivity of the issue, said that decision was made in the office of the secretary of defence.

That decision involved a high risk of getting caught in an obvious attempt to mislead. As an official at 5th Fleet headquarters in Bahrain told IPS, it is common knowledge among officers there that hecklers — often referred to as “Filipino Monkey” — frequently intervene on the VHF ship-to-ship channel to make threats or rude comments.

One of the popular threats made by such hecklers, according to British journalist Lewis Page, who had transited the Strait with the Royal Navy is, “Look out, I am going to hit [collide with] you.”

By Jan. 11, Pentagon spokesman Geoff Morrell was already disavowing the story that Whitman had been instrumental in creating only four days earlier. “No one in the military has said that the transmission emanated from those boats,” said Morrell.

The other elements of the story given to Pentagon correspondents were also discredited. The commanding officer of the guided missile cruiser Port Royal, Capt. David Adler, dismissed the Pentagon’s story that he had felt threatened by the dropping of white boxes in the water. Meeting with reporters on Monday, Adler said, “I saw them float by. They didn’t look threatening to me.”

The naval commanders seemed most determined, however, to scotch the idea that they had been close to firing on the Iranians. Vice-Adm. Kevin Cosgriff, the commander of the 5th Fleet, denied the story in a press briefing on Jan. 7. A week later, Comdr. Jeffery James, commander of the destroyer Hopper, told reporters that the Iranians had moved away “before we got to the point where we needed to open fire”.

The decision to treat the Jan. 6 incident as evidence of an Iranian threat reveals a chasm between the interests of political officials in Washington and Navy officials in the Gulf. Asked whether the Navy’s reporting of the episode was distorted by Pentagon officials, Cmdr Robertson of 5th Fleet Public Affairs would not comment directly. But she said, “There is a different perspective over there.”

(END/2008)

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A sacramental pergunta aqui fica:

Porque razão a generalidade dos media ocidentais, incluindo os de língua portuguesa, continuam até este momento a ignorar esta esclarecedora e bem documentada notícia?

MRA, Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro

Consultor

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