China: Crise mundial afecta competitividade mas nova revolução industrial já está em marcha

Hu JingtaoA recessão ou o arrefecimento das economias industrializadas e ricas está a assustar boa parte dos industriais chineses. O colapso dos mercados imobiliários, iniciado nos EUA, em 2007, mas que promete afectar uma boa parte de países ricos e emergentes, para além de ter dado o sinal de partida para um dramático e repentino “aperto global” do crédito, com as consequências conhecidas no sistema financeiro global, não demorou muito tempo a fazer-se sentir nos negócios dos fabricantes chineses. O consumo de produtos relacionados com artigos domésticos – dos móveis, aos pavimentos, revestimentos, artigos de cozinha, mobiliário, têxteis-lar, etc. – estão a provocar falências em série nos elos mais fracos da capacidade industrial instalada chinesa, as pequenas e médias empresas.

Com uma taxa de inflação (6%) que representa o dobro das estimativas oficiais, resultado dos galopantes preços das energias fósseis e das matérias-primas base para as indústrias transformadoras, uma nova legislação laboral que, desde o princípio do ano, encareceu a mão-de-obra local, e o fim dos incentivos estatais às exportações, os agentes económicos chineses têm razões para estar assustados. Dada a dimensão do país, o seu enorme mercado doméstico e a mão de ferro da equipa económica que assessora o presidente Hu Jintao, não será o fim do mundo. Porém, é mais um aviso para o estafado, mas pouco ouvido, argumento relativo aos “limites do crescimento”. Mais tarde, ou mais cedo, tudo o que cresce, estabiliza. Nos casos mais agudos «encolhe»…

A desgovernada queda do dólar provocou a apreciação do yuan. Os segmentos tradicionais da indústria chinesa, com menor valor acrescentado e cuja competitividade assentava em baixíssimos salários, já levou milhares de PME’s à falência, designadamente nos sectores do vestuário, calçado e brinquedos de baixa qualidade, por operarem com margens próximas do zero.

Na região do Rio das Pérolas as fisionomias dos empresários oscilam entre o “sorriso amarelo” e o desespero. No sector das lâmpadas grande parte das empresas já só opera com cerca de 50% da capacidade instalada. Os mais pessimistas prognosticam que metade das fábricas de lâmpadas da China, maioritariamente instaladas em Cantão, serão forçadas a encerrar em 2008/2009. O mesmo está a suceder no sector dos calçados, roupas, brinquedos, móveis. “Passamos 20 anos construindo a nossa indústria – do zero até sermos uma das maiores do mundo”, desabafou Philipe Cheng, presidente de um cluster privado de 17 indústrias, que forneceu até agora cerca de metade da produção mundial de capacetes para o motociclismo e o ciclismo. “Pouco a pouco estamos a morrer”, disse. O tempo das margens altas (8%) já lá vai. Hoje aproximam-se perigosamente do zero.

A Federação das Indústrias de Hong Kong prevê que, em 2008, cerca de um décimo das quase 70 mil fábricas controladas por empresários daquela ex-colónia britânica, abrirá falência. A Associação Asiática dos Industriais de Calçado revelou no mês passado que fecharam as portas cerca de 200 fábricas de calçado, ou suas fornecedoras, em Dongguan, uma cidade modelo da nova superpotência asiática, com nível zero de poluição. Desde 1981, a economia cresceu ao ritmo de 22% ao ano. A população passou de 100 mil para 7,5 milhões de habitantes…

O mesmo fenómeno de desindustrialização da China nas áreas de mão-de-obra intensiva irá acelerar-se nos próximos 3-5 anos com a contracção do crescimento mundial e substanciais quebras no consumo por parte das economias mais desenvolvidas ou emergentes. A desindustrialização de alguns sectores é inevitável.

Vários economistas [Blanchard, Rodrik, e Yin] estudaram o fenómeno da transição económica em países ex-comunistas ou em estados reformistas com um sistema «capitalomunista», como a China. Nos respectivos modelos, a eficiência das reformas do mercado é medida pela dimensão do emergente sector privado. A crise surge quando as reformas, insuficientes ou deficientes, não criam as necessárias dinâmicas para que os privados tenham massa crítica para absorver grandes quantidades de mão-de-obra excedentária forçadas a abandonar as empresas estatais. O desemprego que daí resulta afecta indirecta mas negativamente o factor tributário na criação de novos empregos pelo sector privado, gerando desequilíbrios que afectam o desempenho das respectivas economias.As autoridades chinesas aparentam, por enquanto, estar tranquilas dando sinais ao mercado de que têm a situação sob controlo. Talvez, por ter definido no último congresso do Partido Comunista, no início do ano, a prossecução de políticas industriais que respeitem normas internacionais – em matéria de poluição, equilíbrio ecológico, aquecimento global e preservação dos ecosistemas – e se alinhem pelas normas da qualidade, da melhoria contínua e da inovação tecnológica, Pequim está a deixar “morrer o que está podre” e a deixar nascer os clusters da sua nova revolução industrial – passar de uma economia de mão de obra intensiva, para um modelo de desenvolvimento assente em capital e conhecimento intensivos. Os segmentos em fase já madura (indústria automóvel, tecnologias de informação e comunicações) irão gradualmente contribuir menos para o PIB chinês do que as “novas indústrias” – nanotecnologia, biotecnologia, novas linguagens e sistemas de informação/ comunicação.

O mercado interno, que nos últimos 10 anos ganhou mais 400 milhões de consumidores com uma taxa de poupança 30 vezes superior à dos seus homólogos americanos e europeus, é a solução que está em curso, desde meados do ano passado. Noutras províncias do norte, de Xangai a Shandong, já é visível um movimento de retracção do investimento estrangeiro e encerramento de joint-ventures entre grupos chineses, japoneses e sul-coreanos, sobretudo no sector primário (produção e transformação com fraco valor acrescentado).

A Câmara de Comércio e Indústria dos EUA, em Xangai, num estudo publicado em 2007, apontava o Vietname, Cambodja, Laos e outros candidatos a “novos tigres asiáticos” como os maiores beneficiários do Investimento Directo Estrangeiro (IDE) em segmentos de mão-de-obra intensiva.

A apreciação do yuan face ao dólar, e a um conjunto de outras divisas, funcionará como acelerador da redistribuição internacional do trabalho e do consequente abandono do mercado chinês como plataforma ideal e competitiva de produção de bens de consumo.

Está em marcha acelerada, mas gradual, o processo de pagamento de dividendos da China Inc. aos seus accionistas – os 800 milhões de trabalhadores activos – como forma de redistribuir mais adequadamente a riqueza criada pelo país nos últimos 30 anos. O processo de internacionalização das empresas chinesas, com investimentos gigantescos em África, na América Latina, no Médio Oriente e na Eurásia irá igualmente aprofundar-se e desempenhar a função de corrector de alguns desequlíbrios actuais.

Somália, Angola, Vietname são alguns exemplos. Irão, Síria e algumas repúblicas ex-soviéticas, vão pelo mesmo caminho. Nalguns destes países o custo médio trabalhador/ dia é cerca de metade do custo de um operário não qualificado na China. Naqueles onde a estabilidade política está mais consolidada, os planeadores chineses projectam a exportação de “fábricas em 2.ª mão” para abastecer os mercados locais e vizinhos. A rapidez com que Pequim está a desenvolver uma plataforma portuária logística em Cabo Verde, é um sinal da orientação das políticas chinesas no contexto da globalização, da segurança energética e da criação de um alargado e multipolar conjunto de parceiros, devidamente agrupados face à sua importância estratégica (geopolítica, geoeconómica ou político-militar).

As relações com os EUA e a União Europeia serão geridas neste contexto de caos criativo. Com fundos soberanos que gerem milhões de biliões (trilhões) de dólares, Pequim, apesar das pressões internas, ainda tem margem de manobra para, influenciar decisivamente os jogos do poder global nas próximas décadas. Isto se realizar as reformas certas, em qualidade e quantidade, no tempo certo.

MRA, Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro

Consultor

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