G20 chumba imposto sobre transacções financeiras

Cimeira do G20 em SeoulA cimeira de ministros e de banqueiros centrais, que terminou sábado na Coreia do Sul, revelou um xadrez muito complexo dos temas que dividem o grupo de 20 países actualmente com maior peso geopolítico. As coligações são ad hoc em muitos assuntos, mas a força da China, Brasil, Índia e até do Canadá e Coreia do Sul é evidente.

O clima escaldante que se viveu na cimeira derivou do contexto específico em que reuniu o G20 em Busan: as contingências da própria semana falam por si. A crise da dívida soberana na Europa “alargou-se” a vários países do Leste, com o incidente mais gravoso na Hungria. Uma má “tradução” de declarações oficiais incendiou os investidores do mercado de credit default swaps sobre a dívida (empurrando a Hungria para dentro do TOP 10 mundial de maior risco de default) e provocou um mini-crash nas bolsas europeias e em Wall Street.

Para além do discurso politicamente correcto do comunicado final saído da cimeira de ministros de Finanças e Economia e de banqueiros centrais do G20 (grupo de 20 países actualmente com maior peso geopolítico no mundo), reunidos sexta-feira e sábado em Busan, na Coreia do Sul, o ambiente foi de discussões “muito quentes”, como referiu aos media Shin Je-Yoon, vice-ministro das Finanças para os assuntos internacionais do país anfitrião.

Um dos temas que gerou expectativa foi o da iniciativa americana e alemã de um imposto sobre transacções financeiras que alimentasse um fundo para futuros resgates em caso de crise financeira.

O que está em jogo neste tema fracturante é que uma parte do globo – que não se considera responsável pela crise financeira e que hoje está a começar a dar cartas na geopolítica – não pretende penalizar os seus sistemas financeiros locais que estão em plena ofensiva global, aproveitando as vulnerabilidades dos eixos financeiros de Nova Iorque, Londres e Frankfurt.

Os relatos sobre esta discussão são contraditórios, consoante o ponto geográfico do mundo que os emite. Na Ásia dá-se o assunto desta taxa como encerrado, como não tendo sido incluído na agenda da próxima cimeira de alto nível em Toronto, no Canadá, a 26 e 27 de Junho. Outros, na Europa e nos EUA, afirmam que o tema regressará, pois é um ponto de honra, sobretudo do secretário do Tesouro, Thimothy Geithner, e colocam esperanças no relatório que o Fundo Monetário Internacional deverá apresentar em Toronto.

Outro tema fracturante foi a questão da consolidação orçamental, suscitada pelo alastrar da crise da dívida soberana na União Europeia. Aqui as “coligações” de interesses são curiosamente distintas.

Americanos, franceses e Banco Central Europeu (BCE) repetem em uníssono que a Europa deu os passos adequados e alertam que a consolidação orçamental não pode ser cega nem exagerada, aumentando o risco de uma recaída na recessão. Por seu lado, os alemães e os asiáticos – ao que parece apoiados por “uma corrente maioritária” no G20, confessou, desapontada, a ministra francesa da Economia, Christine Lagarde, insistem que a consolidação orçamental é a prioridade número um e o Brasil e a China teriam mesmo expressado sérias dúvidas sobre a gestão do problema na Europa.

O presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, garantiu, no final, falando para os mercados financeiros que reabrem na segunda-feira, que teria havido um entendimento “muito bom” sobre o problema. O comunicado final bate palmas, logo no segundo ponto, à acção da União Europeia, do BCE e do FMI na questão.

As alianças ad hoc voltam a mudar quando chegamos ao tema da dinamização do comércio internacional e da procura mundial. O secretário do Tesouro americano defendeu que os principais exportadores mundiais de bens com superávites nas suas balanças comerciais (onde se encontram a China, líder mundial da exportação em 2009, Alemanha e Japão) deverão favorecer a importação, facilitando a exportação por parte dos deficitários, e abandonar as suas políticas mercantilistas. 

Sobre o tema de fundo da regulação bancária e do sistema financeiro “sombra”, a cimeira de Busan chutou, de novo, o problema para os próximos encontros. Novas regras para exigir transparência às agências de notação, à actuação dos hedge funds e ao uso dos derivados continuam em estudo.

Também para a cimeira do G20 em 11 e 12 de Novembro, em Seul, se espera que a Comissão Basel sobre Supervisão Bancária apresente as novas normas com que terão de se coser os bancos, no sentido de restringir o vício da excessiva alavancagem associada às vagas de financeirização e às crises financeiras graves que provocou desde os anos 80.

Um ponto político parece impor-se: o da urgência de reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI). À margem da cimeira, Coreia do Sul e Brasil assinaram um entendimento sobre a modificação da correlação de forças no FMI (que afectará sobretudo a “representação” dos países europeus).

O G20 é formado pelos membros do G8 (Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia) mais África do Sul, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, China, Coreia do Sul, Índia, Indonésia, México e Turquia, aos quais se juntam a União Europeia  e o Banco Central Europeu bem como representantes do FMI e do Banco Mundial.

MRA Alliance/Expresso

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