Fundos de pensões: Zilhões de problemas e mais uma crise anunciada

Desde 2004 que o provável colapso dos fundos de pensões tem sido glosado por vários analistas e economistas, com destaque para os estudos dos professores Laurence Kotlikoff e Nouriel Rubini. Todos concordam que este será o próximo castelo de cartas a desmoronar-se. Nos próximos meses. Só divergem nos números – entre USD 1,5 e 3 mil biliões/trilhões (mibi/tri). Pensamos ser oportuno actualizar cálculos e previsões.

Irlandeses avisam

Patrick Burke, presidente da Associação Irlandesa de Fundos de Pensões (IAPF, em inglês) alertou, em Dublin, para o colapso de “alguns fundos de pensões privados” se não forem accionadas medidas preventivas “radicais” para “impedir o desastre”. A despeito de já ter recebido as propostas de solução da IAPF, a ministra irlandesa da tutela, Mary Hanafin, em contrapartida, informou o país “desconhecer situações” que sugerissem uma tal realidade. As notícias foram veiculadas pela Radio Telefís Éireann (RTE), o canal público da televisão da Irlanda. A Rubicom Investment Consulting estima que os activos dos fundos irlandeses terão perdido, nos últimos 12 meses, mais de 20%, causando estragos significativos nos activos dos fundos irlandeses…

Escoceses também

O jornal Scotland on Sunday, em Março passado, noticiou que, em conjunto, os bancos tentavam vender USD 200 mil milhões/bilhões (mm/bi) de dívidas contraídas em operações de aquisição de empresas – LBO/Leverage Buy-Out. “Como resultado, acredita-se que algumas empresas de capital de risco vão olhar para os fundos de pensões como fontes alternativas de financiamento”, escreveu o jornal escocês…

Americanos idem, idem…

O jornal electrónico Pensions & Investments, no passado dia 13, publicou um artigo sobre a situação norte-americana, no qual se afirmava: “Existe uma crise financeira que se agiganta e que, potencialmente, é tão grande quanto a actual crise dos mercados financeiros. Esta é a crise dos benefícios não financiados das pensões e dos cuidados de saúde. Este défice de financiamento é visível em planos de reforma e pensões de empresas, sistemas públicos e sindicatos, no programa da ‘Pension Benefit Guaranty Corporation’, bem como nos planos da Segurança Social e do ‘Medicare’.”

… e fazem análises

Um estudo realizado, em Dezembro último, pelo Pew Charitable Trusts revelava que os 50 estados que integram a federação norte-americana “prometeram pagar aos funcionários públicos, nos próximos 30 anos, pelo menos USD 2,73 mil biliões/trilhões (mibi/tri) em pensões, cuidados de saúde e outros benefícios. (…) Os estados pouparam o suficiente para cobrir cerca de 85% dos custos com as pensões no longo prazo e apenas 3% dos fundos necessários para o pagamento dos cuidados de saúde aos reformados e de outros benefícios extra pensões. (…) Assim, os estados já alocaram cerca de USD 2 mibi/tri para cobrir as suas obrigações de longo prazo. No entanto, ainda terão de alocar USD 731 mm/bi – uma estimativa conservadora pois não inclui todas as despesas com professores e com os funcionários do poder local e autárquico.” Registe-se que, no segmento dos benefícios extra pensões, em Maio, a agência de rating Standard & Poor’s revelou que 38 dos 50 estados norte-americanos tinham dívidas que já excediam os níveis de endividamento estaduais. “No total, os estados têm dívidas superiores a USD 400 mm/bi”, noticiou a Reuters.

O autismo aumericano

Não deixa de ser espantoso o facto de os profissionais ainda tentarem tapar o sol com a peneira. Desde Fevereiro de 2007, vivemos na corda bamba do aperto do crédito, da desconfiança generalizada entre todos os agentes dos diversos mercados – mobiliário, imobiliário, dívida, commodities – e num clima agudamente recessivo. A generalidade dos investidores manifesta uma profunda aversão ao risco e desfaz-se, sempre que possível, de todos os activos perigosos, designadamente acções e títulos imobiliários. A reavaliação em baixa do património dos fundos de pensões provocou uma sangria nos respectivos balanços. Perante esta realidade, seria de esperar parcimónia e prudência por parte dos gestores dos fundos, públicos ou privados. É precisamente neste quadro que a ficção assume o controlo da situação. Em meados de Agosto, a agência Bloomberg noticiava: “Os fundos de pensões públicos estão a aumentar as apostas em ‘hedge funds’, de alto risco, e no imobiliário, tentando tapar os défices nos planos de reforma e recuperar do seu pior desempenho nos últimos seis anos.” A tendência é confirmada pela ONG Center on Budget and Policy Priorities e estimulada pela necessidade de 29 estados precisarem, no mínimo, de USD 48 mm/bi para tapar buracos nos orçamentos para 2009. A agência noticiosa estadunidense informou que os os activos de USD 2,45 mibi/tri geridos pelos fundos públicos, em média, encolheram 5,1% até ao final de Junho. “Porém, ao tentarem obter rendimentos mais elevados através da diversificação dos activos, os gestores poderão estar a comprometer dinheiro dos contribuintes, numa altura em que a economia cresce ao ritmo mais lento desde 2001”, sublinhava a Bloomberg

Autistas de outros países, uni-vos!

O guião da tragicomédia estadunidense é reproduzido à letra nos vários palcos financeiros espalhados pelo mundo. Tal como na crise subprime, é nos principais mercados dos países desenvolvidos que a bolha das pensões toma proporções assustadoras.

Canadá – Os fundos canadianos perderam 8,6% no terceiro semestre do ano, a maior queda desde 1998, ano da célebre implosão do hedge fund Long-Term Capital Management, provocado pelo calote russo. Os dados foram coligidos pelo Royal Bank of Canada/Dexia Investor Services. Nos primeiros 9 meses do ano as perdas acumuladas ascendem a 10%, segundo o estudo…

Grã-Bretanha – A Lane Clarke & Peacock, empresa especializada no segmento, forneceu pistas para avaliar o desastre britânico. Os fundos de pensões do país passaram de um activo conjunto de USD 20 mm/bi, em 2007, para um passivo superior a USD 70 mm/bi, no final do primeiro semestre de 2008. Em Julho, o então moribundo Lehman Brothers publicou dados segundo os quais a solvência (rácio activos/passivos) dos fundos de pensões britânicos recuou 13% nos primeiros seis meses do ano. A Deloitte & Touche LLP, em 24 de Julho, informava que as companhias listadas no índice FTSE 100 poderão registar, em 2009, um aumento dos défices nos fundos de pensões da ordem dos USD 158 mm/bi…

Holanda – No passado dia 11, o periódico Financieele Dagblad noticiou que metade dos fundos de pensões do país registam rácios de financiamento abaixo do nível recomendado (105%). Caso aquele valor caia para os 100%, ou menos, os fundos deixam de poder cumprir as suas obrigações. O jornal lançou o alarme de que um dos maiores fundos do país e do mundo (ABP), que gere investimentos para a reforma dos funcionários públicos, já está abaixo dos 105%. O ABP, que gere activos totais de USD 226,5 mm/bi, perdeu mais de USD 50,6 mm/bi em aplicações nos mercados accionistas globais, só em 2008. O banco central da Holanda viu-se obrigado a escrever aos gestores de 600 fundos de pensões advertindo-os para não correrem riscos excessivos, na tentativa de equilibrarem os balanços, incitando-os antes a preparar planos de contingência para aplicar em situações de stress financeiro…

Japão – A recente falência da centenária companhia de seguros Yamato Life Insurance, ocorrida este mês, foi a notícia que nenhum gestor de fundos de pensões queria ouvir. Eles sabem que a mesma sorte lhes pode bater à porta. O clima de pânico que se abateu sobre a bolsa nipónica na semana passada – com prejuízos superiores a USD 670 mm/bi – deve ter provocado elevadas perdas nos activos dos fundos de pensões japoneses…

Estes são alguns dos países identificados como “mais ameaçados” pela “bolha pensionista”. O boletim confidencial de informação económica LEAP 2020 dramatiza a situação, profetizando que “pelo final de 2008, esta crise assumirá o papel dominante na presente crise financeira global” antecipando que “também provocará uma crise social” nos cinco países citados, mas que não terá consequências significativas no resto do mundo.

Não estamos tão certos disso. As carteiras de investimentos de fundos de pensões dos países nórdicos, bem como dos estados mais populosos do mundo, não estão imunes ao contágio e à turbulência que se avizinham. Basta atentar na situação do Brasil onde as pensões são desproporcionadas face ao relativo pequeno número de idosos comparativamente à população mais jovem. Dados do Banco Mundial, indicam que os subsídios para a cobertura dos défices dos regimes públicos das pensões, a nível federal e estadual, passaram de 4.6% do PIB (1998) para 5.6%(2003/2004). Embora as autoridades brasileiras continuem a sustentar que o grau de exposição dos fundos de pensões brasileiros à crise subprime é reduzido, o certo é que boa parte das aplicações é feita na Bovespa cujo índice caiu mais de 20%, nos últimos três meses. Na vizinha Argentina, com a recessão global a aumentar os riscos de um novo incumprimento da dívida soberana, ontem, o diário Clarín colocou os gestores financeiros à beira de um ataque de nervos ao anunciar planos do governo para colocar os fundos de pensões argentinos sob custódia estatal…

Fundos de pensões? Zilhões de problemas. Detectados e analisados. Nos quatro cantos do planeta. Mas, como sempre, atirados para as calendas. Até quando? E Portugal?

MRA Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro, Consultor

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