Fed e Credibilidade – Dólar, Recessão e Autismo

A decadência do poder de compra do dólar no século XXA Reserva Federal, ou Fed, como é popularmente conhecido o banco emissor americano, divulgou ontem (terça-feira) uma taxa de crescimento económico entre os 1,8% – 2,5% para 2008, uma previsão inferior à de Junho (2,5% – 2,75%). Mas este é apenas um dos indicadores do clima recessivo que paira sobre a economia real estadunidense. O cálculo da inflação, baseado nas despesas de consumo, mas excluindo os alimentos e a energia, passou de 1,75% – 2% para uma banda de flutuação de 1,7% – 1,9%. Face à pressão inflacionista dos preços dos bens de primeira necessidade e do petróleo, com sólidas tendências para se manter bem acima dos USD 100/barril, em 2008, estas previsões são um puro exercício de wishful thinking macroeconómico. Quanto ao desemprego, as previsões do Fed apontam, em 2008, para uma taxa entre os 4,8% e os 4,9%. Em Junho, os macroeconomistas previram que o índice rondaria os 4,75%.

As previsões assinalam igualmente uma alteração na estratégia de comunicação do Fed com o mercado. A partir de agora os prognósticos macroeconómicos terão uma periodicidade trimestral. Antes, a informação sobre a saúde actual e futura da economia americana era fornecida semestralmente.

A leitura é óbvia. Num ambiente de grande instabilidade e volatilidade dos mercados e do dólar prognósticos mais frequentes, desde que seriamente calculados, darão uma visão mais realista do vacilante desempenho macroeconómico do país.

O regulador financeiro e monetário dos Estados Unidos justificou a revisão do crescimento e as correlacionadas variáveis com um “dejá vu” conjunto de razões: colapso do mercado hipotecário «subprime», ou de alto risco; crise generalizada no mercado imobiliário; subida do barril de petróleo.

Tudo isto conjugado, de acordo com as estimativas mais benignas do Nobel da Economia Joseph Stieglitz os prejuízos poderão ascender a 1/2 milhões de biliões (trillions/trilhões) de dólares, nos próximos meses.

Se atendermos à debilidade do dólar, à incapacidade para acalmar e credibilizar o sistema financeiro, atacando de frente os cancros da economia americana – defíces crónicos, políticas fiscais suicidas, níveis históricos de endividamento (público e privado), consumos patológicos, dinheiro artificialmente barato e mercados em auto-gestão – teremos que concluir que a Reserva Federal padece de uma grave doença (autismo), ignora a realidade (recessão/depressão económica à espreita) e desmonstra que perdeu influência, poder e credibilidade. (pvc)

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