Fator “Tunísia” ameaça poder de Mubarak no Egipto e estabilidade no mundo árabe

Hosni Mubarak“Mubarak, o teu avião já está à espera”, é a frase usada por manifestantes egípcios que reclamam a destituição do ditador Hosni Mubarak, após a fuga do ditador tunisino Ben Ali, que voou precipitadamente para o exílio na Arábia Saudita. As manifestações começaram por reunir algumas dezenas de pessoas, mas rapidamente foram encaradas como a ponta visível de um iceberg.

Não existe no Egipto, com a sua dura repressão policial, um hábito arreigado de manifestações de rua e era inevitável que tudo começasse por acções minoritárias. Mas o destemor dos manifestantes chamou a atenção, encarando a polícia e reclamando de Hosni Mubarak que siga o exemplo do seu confrade tunisino e parta, como ele, para o exílio, indica seguramente um clima político em mutação acelerada.

Com as eleições presidenciais à vista, já marcadas para Outubro deste ano, permanece a dúvida sobre uma possível recandidatura de Mubarak, hoje com 82 anos de idade e três décadas de poder despótico – mais, portanto, do que os de Ben Ali. Em alternativa, especula-se sobre uma outra possibilidade, que seria a de Mubarak impor o seu filho Gamal, para ser plebiscitado nessa mesma eleição. Com eleições habitualmente fraudulentas e com um parlamento fantoche, o Egipto conta, por outro lado, com uma oposição extra-parlamentar relativamente forte – a da Irmandade Muçulmana, agora tonificada pelo exemplo tunisino.

Outros elos fracos no mundo árabe são Marrocos, a Argélia, a Jordânia, a Líbia e o Jemen. Na Argélia, há cerca de uma semana, voltou a registar-se uma “revolta do pão”, com um saldo de cinco mortos e de 800 feridos. Apesar das receitas do gás e do petróleo, e apesar do encerramento da etapa de guerra civil que lhe custou mais de 100.000 mortos, o país permanece em situação altamente volátil, com revoltas localizadas praticamente todas as semanas, segundo Isabelle Werenfels, da Fundação Ciência e Política, citada pelo diário online Der Spiegel.

A monarquia marroquina fez um esforço para apresentar uma imagem modernizada em relação aos tempos de Hassan II, e para empolar o significado dos partidos de oposição que efectivamente têm existência legal. Mas nem assim conseguiu dissimular a brutalidade da repressão contra o povo do Sahara Ocidental e, por outro lado, a deprimente realidade social marroquina, com taxas de desemprego na ordem dos 30 por cento.

Também a monarquia jordana procura dar de si uma imagem modernizada e tolerante, mas continua a viver de crise em crise, ora por motivo de revoltas sociais contra os aumentos de preços, ora por motivo de derrapagens do sistema repressivo. Amã foi uma das capitais árabes em que se olhou com maior ansiedade para a derrocada da ditadura tunisina.

Grande nervosismo manifestou também o ditador líbio Muhamar al-Khadaffi, que confessou sentir-se “dolorosamente atingido” pelas notícias chegadas da Tunísia. Outros países, como o Jemen ou a Síria, parecem fragilizados por ameaças de secessão ou por fracturas de carácter étnico.

Curiosamente, o regime que parece mais confiante no seu futuro, e por isso mesmo se deu ao luxo de acolher o fugitivo ditador Ben Ali, é o da Arábia Saudita – uma monarquia absolutista, desprovida do menor arremedo de instituição parlamentar ou de observância de direitos humanos, mas a nadar no mais seguro dos elementos líquidos, o dos petrodólares.

MRA Alliance/RTP

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