EUA: Dinheiro não chega para tapar buracos

Os conglomerados hipotecários Freddie Mac e Fannie Mae estão prestes a tornar-se o próximo poço sem fundo do Tesouro dos Estados Unidos depois de, na semana passada, terem anunciado respectivamente perdas de USD 50 e 58,7 mil milhões/ biliões (mm/bi), durante o exercício de 2008. 

Se este ano a crise financeira se agravar, como tudo indica, aqueles valores poderão triplicar – senão mesmo quadruplicar – devido à forte descapitalização que afecta sobretudo a Freddie Mac, a mais pequena das irmãs gémeas do crédito hipotecário norte-americano.  

Em conjunto com a seguradora AIG, as duas terão escassas hipóteses de evitar a nacionalização total. Em Setembro, foram ambas intervencionadas pelo Estado que assumiu o controlo de 80% do capital. O valor dos restantes 20%, ainda nas mãos de accionistas privados, foi dizimado nos últimos 12 meses.  A Freddie Mac desvalorizou  97,31% e a Fannie Mae 97,44%.

Em 2008, a gestão Freddie foi ruinosa com perdas de USD 13 mm/bi em seguros hipotecários. Em derivativos de crédito e de taxas de juro, os prejuízos foram respectivamente de USD 16 e 15 mm/bi. A estes somam-se mais mil milhões (um bilhão) em obrigações sobre empréstimos de curto prazo contratados pelo falido banco de investimento Lehman Brothers e USD 99 milhões/mês para a manutenção das 30.000 habitações que tem em carteira. 

Ao cenário catastrófico é necessário adicionar mais uma série de outras realidades que a contabilidade criativa não conseguirá esconder durante muito mais tempo: 1) menos USD 65 mm/bi quando os activos em carteira forem transaccionados a preços de mercado; 2) menos USD 38 mm/bi de incontornáveis amortizações nas contas de 2009 relacionadas com a carteira de investimentos; menos USD 48 mm/bi em incidentes de crédito relativos a empréstimos ou garantias.

A administração Obama, para além de novas injecções bilionárias para impedir a falência da Freddie Mac, deverá contar com a perda de USD 15,4 mm/bi em impostos vencidos e ainda não liquidados.

Desde meados da semana passada, a bolsa de Nova Iorque protagonizou uma recuperação do índice Dow Jones que, após ter resvalado abaixo dos 7.000 pontos, voltou a cotar-se hoje acima dos 7.400 pontos. Mas deverá ser sol de pouca dura.

Quando forem divulgados os resultados do primeiro trimestre, sobretudo empresas dos sectores financeiro, imobiliário, construção, distribuição e indústria transformadora, na primeira semana de Abril, é bem provável que o Dow volte a cair.

Face aos desastrosos fundamentais da economia norte-americana, nos próximos meses, as dinâmicas deflacionistas deverão atirar o termómetro bolsista novaiorquino para a faixa dos 6.000-6.500 pontos. Até final do ano poderá cair mais 1.000 a 1.500 pontos.

Se tal acontecer, não haverá dinheiro que vede os gigantescos buracos da economia americana.

Os efeitos na Europa serão de idêntica dimensão, ou até maiores, e igualmente devastadores.

MRA Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro, Consultor

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