Doha atira OMC ao tapete e faz estremecer a globalização

A Organização Mundial do Comércio (OMC) – após o fracasso de ontem de um acordo entre países ricos e pobres para encerrar a Ronda de Doha e avançar na liberalização global do comércio – sai com menos poder e influência devendo remeter-se nos próximos anos a um período de hibernação. A cara superestrutura do comércio mundial vai limitar-se à arbitragem de conflitos enquanto se aguarda a eleição de um novo governo nos Estados Unidos (EUA) e os desenvolvimentos no seio da União Europeia (EU) – eleições para o Parlamento Europeu (Junho/2009) e um novo mandato da Comissão Europeia (Outubro/2009). Até lá assistiremos a movimentações dos 154 países membros da OMC para a celebração de acordos no plano bilateral já que, no âmbito multilateral, predominam o autismo e o proteccionismo. “Devemos preparar-nos para o ataque dos que vão declarar que isto é o fim da OMC. Tal posição é um absurdo. A OMC é o árbitro do sistema comercial baseado em regras e vai continuar a ser o local para futuras negociações, amplas ou específicas”, sublinhou num comunicado a Associação Nacional das Indústrias dos EUA, aparentemente confortada. Pascal Lamy, director-geral da OMC, prometeu não desistir e disse que vários ministros lhe pediram para retomar em breve as negociações. Porém, admitiu ser preciso deixar assentar a poeira, mantendo entretanto activos os mecanismos de consulta com os países membros. Celso Amorim, o chefe da diplomacia brasileira, estimou em “três a quatro anos” o tempo necessário para reiniciar o diálogo. O comissário europeu do Comércio, Peter Mandelson, actualmente, considera insanáveis os diferendos entre países ricos e pobres sobre a abertura dos mercados agrícolas, dos bens industriais e dos serviços. Os países em desenvolvimento defenderam um mecanismo especial de salvaguardas para pequenos agricultores contra surtos de importações. A intransigência dos EUA e da Europa para a manutenção dos subsídos agrícolas agrava o desentendimento. Mendelson, um britânico defensor da reforma da Política Agrícola Comum (PAC) e do desmantelamento progressivo do proteccionismo, considerou que o resultado de Genebra foi “um revés significativo para todo o sistema comercial internacional. Todos saríamos ganhadores com um acordo. Sem ele, todos perdemos”. Por seu turno, Lamy lamentou não se ter conseguido avançar no sentido de uma política global contra o proteccionismo. “A minha esperança é que, devido à elasticidade do sistema, ele possa resistir à estrada esburacada que temos pela frente”, afirmou. Os litígios sobre o comércio de carnes, bananas e algodão continuarão a alimentar a pressão dos países em desenvolvimento, enquanto a exigência para o desarmamento fiscal e alfandegário para os bens industriais e serviços será o cavalo de batalha dos países industrializados. Resta à OMC o papel de árbitro. Em declarações à agência Reuters, David Woods, da empresa de consultadoria World Trade Agenda e ex-porta-voz do Gatt/Acordo Geral de Tarifas e Comércio, antecessora da OMC, considerou que o falhanço de Doha “é uma oportunidade perdida”. Porém, adiantou, “a OMC vai continuar a servir para resolver disputas [área] onde a sua integridade está intacta.” MRA Dep. Data Mining

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