Dívida: Sexta-feira negra para Trichet e para a Grécia

Os juros dos títulos dos “periféricos” subiram durante a hora e meia de conferência de imprensa do presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, com o risco de incumprimento da Grécia a subir vertiginosamente. A demissão, também hoje, do banqueiro alemão Jürgen Stark, que representa a Alemanha na comissão executiva do BCE , por discordar da retoma da compra de dívida soberana pela autoridade monetária europeia, ajudou a agravar as expectativas dos especuladores sobre a crise das dívidas dos estados da Zona Euro. [Já em Abril, em entrevista ao Público, Stark era fortemente crítico relativamente ao resgate dos periféricos, incluindo Portugal.]
As yields dos títulos do Tesouro dos cinco “periféricos”  (Grécia, Portugal, Irlanda, Itália e Espanha) subiram, apesar de Trichet ter reafirmado, bastante enervado, que prosseguirá o seu programa de intervenção no mercado secundário, mesmo contra as acusações de alguns países que está a transformar o BCE num “banco de lixo tóxico”.

Os títulos do tesouro grego a 2 anos viram as yields subirem para 55,02% e as obrigações do Tesouro português com a mesma maturidade aumentaram para 14,57%. O mesmo comportamento altista observou-se nos titulos irlandeses a 2 anos que subiram para 9,48%.

Também o movimento nas yields das obrigações espanholas (OE) e dos títulos do Tesouro italiano (BTP) a 10 anos foi no mesmo sentido – o da alta. Os juros das OE estavam em 5% à hora de almoço e subiram para 5,03% durante a conferência de imprensa. No caso dos BTP o mesmo movimento -5,25% à hora de almoço para 5,29% durante a conferência.

Os valores de fecho não alteraram o sentido altista. Os juros dos títulos gregos a 2 anos acabaram por ficar em 55,06%; os juros das OT com aquele prazo subiram para 14,6%; e os juros das OE a 10 anos subiram para 5,04%. Diminuiram ligeiramente os juros dos titulos irlandeses a 2 anos, que desceram para 9,46%, e os dos BTP que cairam para 5,27%; variações em baixa sem grande significado.

Mais grave ainda o disparo no risco de incumprimento (default) da Grécia que, entre o almoço e o fim da conferência de imprensa, saltou de 89,36% para 91,57%. O custo dos credit default swaps (cds, seguros financeiros contra o risco de default) subiu de 3897,45 pontos base para 4721,95 pontos base – mais de 800 pontos base em escassas horas. Segundo a Markit, este recorde no custo dos cds associou-se a uma quebra da liquidez. As ofertas a estes níveis são “mais ou menos inexistentes”, refere a Markit.

O efeito altista sentiu-se, também, no caso português (cujo risco passou de 58,35% para 59,16%), no irlandês (que subiu de 49,95% para 50,41%) e no italiano (que subiu de 30,41% para 30,8%). Escapou a Espanha, cuja probabilidade se manteve inalterada.

Revelando um sentimento global de mal-estar, o próprio indicador para os swaps em relação a 15 dívidas soberanas da Europa Ocidental continuou a agravar-se hoje. As decisões do BCE e as palavras de Trichet não alteraram esse sentimento. Pelo contrário, o ITraxx SoVX Western Europe, o referido indicador da Markit, subiu hoje para 322,5 pontos base, próximo do máximo de 327 pontos base, observado a 6 de setembro.

Apesar dos elogios à Irlanda, uma vez mais, das referências a que os governos italiano e espanhol ouviram as “mensagens” do BCE, e da resposta direta a Christine Lagarde, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional – de que não há problemas de liquidez na banca europeia, que essa questão é “um falso problema” que está a ser “dramatizado por alguns – há duas palavras-chave no discurso de Jean-Claude Trichet: risco aumentou na cena económica mundial e permanece um enorme grau de incerteza.

O presidente do BCE sublinhou que a apreciação do conselho de governadores sobre a situação económica internacional modificou-se desde 4 de agosto – os riscos agravaram-se. “Os aspectos negativos” acentuaram-se. O cenário base do BCE, por isso, foi revisto em baixa para este ano e para o próximo. Para 2011, a previsão é de um crescimento entre 1,4% e 1,8%. Mas para 2012, o intervalo de variação é “colossal” – entre 0,4% e 2,2%.

Há a possibilidade de “uma correção desordenada dos desequilíbrios globais”, disse Trichet, a dado passo, na introdução à conferência de imprensa. Contudo, o presidente do BCE referiu, diversas vezes, que “a alta incerteza é a principal mensagem”, pelo que a equipa dirigente do banco central se manterá “alerta” analisando a situação concreta em cada momento.

Até ao fecho de hoje dos mercados da dívida ver-se-á o efeito final desta conferência de imprensa no sentimento dos investidores – se pesam a chamada de atenção para o risco e a incerteza ou as palavras desdramatizadoras sobre a liquidez bancária e o andamento dos “periféricos”.

MRA Alliance/Expresso

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