“Declaração de Riad” encerra cimeira da OPEP com petrodólar em crise aguda

Foto da Família OPEP em Riade - Chávez e Ahmadinejad destacam-se pela afectividade

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) encerrou ontem, em Riad, a III Cimeira de Chefes de Estado e Governo com a aprovação de uma estratégia política conjunta de longo prazo. No entanto foram claras as divergências entre os membros “moderados” e os “não alinhados/adversários” dos Estados Unidos, e dos seus aliados político-militares. Numa única coisa todos concordaram. Acabou o petróleo barato. Para que atinja os preços históricos após o segundo “choque petrolífero” (1979-198o), corrigido o efeito inflação, o crude deve subir, nos próximos meses, mais uns dólares por barril.

O cartel petrolífero, após a entrada de Angola, no início de 2007, passou a contar, a partir de ontem, com 13 membros, na sequência da readmissão do Equador, após o seu afastamento, em 1992. Com estes e novos membros em fila de espera, o valor do crude a galgar para mais de USD 100,00/barril, a OPEP apresentou-se ao mundo fortalecida, apesar das evidentes fracturas estratégicas entre os 13 países.

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, no discurso inaugural, no sábado, pediu a transformação da OPEP numa arma político-económica a ser usada sempre que quaisquer países-membros sejam ameaçados ou agredidos pelos “poderosos do mundo”. Com a ameaça, diplomaticamente recusada pelos países árabes do Golfo Pérsico, liderados pela Arábia Saudita, de os preços do crude poderem chegar aos USD 150/200 por barril se “os Estados Unidos invadirem ou atacarem o Irão”, o conclave dos hidrocarbonetos ainda procurou gerar os consensos possíveis.

Numa primeira reacção às agressivas propostas de Chávez, o monarca saudita Abdullah bin Abdul Aziz, não escondeu o seu desagrado com a sugestão e moderou os ímpetos do líder da “Revolução Bolivariana” recusando liminarmente que o cartel transforme o petróleo numa “arma de destruição.” Coube a Abdalla el-Badri, secretário-geral, o papel de refocar o debate nas futuras orientações estratégicas da organização. Os países exportadores de crude estão prontos para investir no aumento da respectiva capacidade de produção desde que, os países consumidores, executem políticas “fiáveis e transparentes” que permitam aumentar a oferta para prevenir eventuais desequilíbrios com a procura.

A OPEP controla cerca de 42% da produção mundial de petróleo. Com a inclusão de países como a Rússia, voltaria a recuperar o poder e a influência perdidos desde os anos 90. Porém, o texto da “Declaração de Riad” não conseguiu esconder as profundas divergências geopolíticas e económico-financeiras entre os cinco moderados – Arábia Saudita, Emiratos Árabes Unidos, Koweit, Qatar e Iraque (militarmente ocupado pelos exércitos americano e britânico) – e os oito não alinhados ou hostis ao eixo anglo-americano e ocidental – Argélia, Angola, Equador, Indonésia, Irão, Líbia, Nigéria e Venezuela.

O ministro de Energia argelino, Chakib Khelil, citado pela agência espanhola EFE, enfatizou que a “Declaração de Riade” procura definir “a estratégia a longo prazo da organização” para estabilizar o mercado. “Esta é a primeira vez que uma declaração deste tipo, estabelece orientações claras para os ministros no futuro. Ou seja, a estabilidade do preço e do mercado são os assuntos mais importantes para nós”, destacou Khelil.

A erosão do valor do dólar e o seu efeito no mecanismo monetário global assente nos petrodólares – reservas monetárias dos países exportadores reféns do valor da greenback – foi o pomo da discórdia entre moderados e não alinhados. Enquanto os aliados dos EUA no Golfo não desejam, por enquanto, publicamente, dar um sinal aos mercados que vão abandonar o dólar, os independentes, liderados por Caracas e Teerão, têm uma estratégia oposta.

Mahmoud Ahmadinejad foi claro. “Eles [EUA] compram o nosso petróleo e, em troca, dão-nos bocados de papel sem nenhum valor. (…) “ Todos sabemos que o dólar americano não tem qualquer valor económico.” Na conferência de imprensa final, Hugo Chávez, voltou ao ataque. “Eu acho que (o dólar) vai continuar a cair. (…) A queda do dólar não é a queda do dólar, é a queda do império americano. É preciso que todos se preparem para isso”, sublinhou.

As contas dos adversários do dólar são assentes em factos difíceis de desmentir. Comparativamente a uma cesta cambial que contém as divisas mais estáveis e valorizadas do mundo, desde Janeiro, o valor do dólar caíu 16%, mas face ao euro desvalorizou-se 44% desde 2000, data da II Cimeira da OPEP, em Caracas, na Venezuela. Fontes governamentais iranianas citadas pelas agências internacionais, presentes em Riade, esclareceram que, este ano, o preço médio do barril de petróleo é de USD 63,00/barril. No mesmo período, em 2006, era de USD 61,00. Cotado em euros, em 2007, o preço do crude é mais baixo de que no ano passado. Em termos nocionais (valor teórico) os preços do petróleo iraniano são cotados em euros mas, na prática, Teerão recebe o respectivo contravalor em dólares, nas transacções comerciais.

 

Outra aparente alteração de estratégia do cartel, liderada pela Arábia Saudita, prende-se com a questão do combate ao aquecimento global e à diminuição de emissões de CO2 provocadas pelas energias fósseis. O rei Abdullah anunciou a crição de um fundo saudita, com uma capitalização inicial de 300 milhões de dólares para aquele fim. O ministro saudita do Petróleo, Ali Naimi, informou que o seu país vai investir “fortemente” na investigação e desenvolvimento de novas tecnologias para a captura e sequestro de carbono, a fim de reduzir o impacto negativo da poluição provocada pelo petróleo e seus derivados.

 

Tacticamente, o tema foi omitido na declaração final mas transpirou para o exterior que, numa reunião realizada na sexta-feira, o príncipe Saud Al-Faisal, chefe da diplomacia saudita, terá advertido para os perigos do “colapso” do dólar nos mercados mundiais, caso fosse explicitamente citado na declaração final.

 

Em vésperas de um inverno que os metereologistas prevêem “severo”, a possibilidade de a OPEP aumentar a oferta de crude para baixar os preços, como pediram os Estados Unidos e a Agência Internacional de Energia (AIE), para já, foi afastada. O tema será discutido na 145ª conferência ministerial da organização, no dia 5 de Dezembro, em Abu Dhabi. O petrodólar, pela sua delicadeza, está igualmente na agenda. Para ser tratado com pinças. É conveniente não esquecer que a maior parte dos activos e reservas sauditas estão “dolarizados”…

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