EUA: Razões para o fracasso do plano de salvação financeira

Em Abril passado, publicámos uma notícia sobre a próxima hecatombe – o rebentamento da bolha CDS/Credit Default Swaps. Este instrumento, uma apólice de seguro para protecção de riscos financeiros, tem um peso muito maior do que as hipotecas de alto risco e derivativos correlatos. O seu impacto atinge sectores estratégicos e nucleares do sistema. Por esta razão, inevitavelmente, terá consequências mais devastadoras a nível global. A depreciação do dólar, a retracção das bolsas e a forte apreciação do ouro, provavelmente, serão consequências imediatas face ao agravamento da dívida pública e dos fundamentais da economia americana. As medidas propostas pelo Tesouro dos Estados Unidos em vez de ajudarem a resolver problemas, a prazo e de forma sustentável, são meros paliativos. Na melhor das hipóteses funcionarão durante poucas semanas, ou meses. Na pior, e mais provável, durarão duas mãos cheias de dias, mas vazias de resultados. Em jeito de antecipação sobre o futuro próximo, alinhamos dois factos que jogam contra a tentativa de matar o leão com a fisga.

1. CDS/Credit Default Swaps: A nacionalização da seguradora AIG resultou da sua incomportável exposição ao mercado CDS. A AIG vendeu USD 441 mil milhões/bilhões desta modalidade de seguros de crédito. O valor é 760% superior às coberturas relacionadas com hipotecas de alto risco (subprime) – USD 58 mm/bi. O afundanço da AIG é um pré-aviso para as empresas de seguros e resseguros que pisaram o risco das regras prudenciais. As agências de rating, responsáveis por esta trapalhada e objecto de crescentes processos judiciais, não são fiáveis nas notações que atribuem. Ainda assim, a Standard & Poor’s recentemente penalizou algumas seguradoras baixando (moderadamente) os respectivos ratings. A tendência foi confirmada pela Mood’s Ratings. O caso AIG prenuncia dias negros para as seguradoras e resseguradoras mais temerárias. Largos segmentos da economia real – produção e consumo de bens e serviços – serão afectados. Em dimensão, os segmentos contaminados são obscenos. O cancro subprime, em fase adiantada de desenvolvimento, representa USD 855 mm/bi. Prestes a rebentar, segue-se a bolha hipotecária Alt-A (risco médio) que ascende a USD 1 mil biliões/1 trilhão (mibi/tri). Quando olhamos para o mercado CDS percebemos a gravidade e o tamanho do problema. Este segmento dos derivativos de crédito, de per si, envolve contratos que, em 2008, totalizam USD 62 mibi/tri. Em 1996, rondava os USD 180 mm/bi… O falido Lehman Brothers, assente em alavancas financeiras 30 vezes superiores aos seus activos, estava no grupo das 10 principais instituições que garantiram riscos de crédito. Sandy Chen, do banco de investimento britânico Panmure Gordon, estima em USD 350 mm/bi as “apólices” CDS garantidas pelo Lehman. Se lhes adicionarmos a carteira dos derivativos ABS/Asset Backed Securities, não é difícil concluir que, nos dias que se aproximam, a falência Lehman provocará stresse agudo nos mercados. A pressão para a venda de activos pelos administradores da falência Lehman Brothers irá provocar uma queda de preços com impacto nos mercados da dívida e de capitais. Diversos analistas estimam entre USD 150 e 300 mm/bi os prejuízos (só no sector bancário). Os principais atingidos deverão ser os bancos Morgan Stanley, Goldman Sachs, JPMorgan Chase, Deutsche Bank e ABN Amro. Dá para imaginar a dimensão dos prejuízos gerados pelos Credit Default Swaps e o seu impacto nos balanços das seguradoras e resseguradoras, até ao final do ano, e em 2009? E se lhe adicionarmos o facto de mais de 95% destes mercados funcionarem segundo a lei da selva – sem qualquer tipo de controlo por parte dos reguladores?

2. Vendas a descoberto: Esta técnica permite a um especulador vender títulos sem os deter, na expectativa de os adquirir, depois, a preços baixos, ganhando com a flutuação das cotações. A modalidade – conhecida como short selling – desde que usada dentro das regras e com parcimónia, é uma ferramenta reguladora do mercado usada pelos principais agentes – bancos, corretoras, fundos (sobretudo “hedge”) e empresas de arbitragem. O dinâmico processo de “destapar” e “tapar” posições nos diversos mercados permite mecanismos de cobertura de riscos, induz equilíbrio e reduz a volatilidade das cotações. A decisão da SEC/Securities and Exchange Comission de proibir operações de short selling sobre 799 títulos financeiros é susceptível de matar aquilo que se pretende curar. Na prática, de acordo com os paladinos da técnica, ainda que temporária, a decisão da SEC pode desencadear um contra movimento que atingirá sectores colaterais à banca e imediatamente expostos à crise – fábricas de equipamentos de construção, automóveis, centros comerciais etc. – que irão sofrer os impactos conjugados da recessão económica, da quebra do consumo e da subida das taxas de juro. Tem ainda uma outra consequência perversa: afecta directamente o mercado regulado das opções. Este, sem vendas a descoberto, sofrerá uma hemorragia de consequências imprevisíveis. Problemas de liquidez, agravamento da manipulação e prémios mais caros nas opções de venda (put option) serão as consequências imediatas. De facto, os riscos de o mercado morrer da cura são reais. “As autoridades reguladoras advertiram publicamente que a venda especulativa de acções a descoberto, através da circulação de rumores, será severamente punida. Porém, também declararam (…) que, sendo ‘a normal venda a descoberto uma parte essencial do mercado aberto de títulos’ a proibição de tais vendas ‘pode provocar a destruição do mercado’ sendo por isso, em qualquer caso, ‘um preço demasiado alto para eliminar os poucos que abusam desta prática legítima.'” A citação não pode ser mais actual. Todavia não foi escrita agora. Foi publicada, sob o título original “Short Selling”, na edição de 18 de Outubro de 1930, do New York Times (assinatura).

MRA Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro, Consultor

P.S.: A Moody’s estima que, em 2008, a taxa global de incumprimento de “junk bonds” aumentará para 7,4% contra 2,7% em 2007. Jan Hatzius, da Goldman Sachs, estima que uma desvalorização de mais 10% nos preços dos imóveis, nos EUA, aumentará os prejuízos da banca, no segmento hipotecário, para USD 636 mm/bi, provocará uma contracção de USD 2 mibi/tri na concessão de crédito e cortará 1,8% na taxa de crescimento do PIB estadunidense. A edição online da revista britânica Economist também prevê que a redução da liquidez no mercado global se situe nos USD 2 mibi/tri de dólares. pvc

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