Cimeira UE-África: Mugabe diz que vem; Brown diz que não; Sócrates lamenta mas garante a realização

José Eduardo dos Santos cumprimenta MunungagwaJosé Eduardo dos Santos, recebeu uma mensagem de Robert Mugabe, garantindo a sua participação pessoal, em representação do Zimbabué, na cimeira União Europeia-África, em Lisboa, no próximo mês de Dezembro, noticiou hoje a Angop.

A mensagem do presidente zimbabueano ao seu homólogo de Angola foi entregue pelo ministro para a Habitação Rural do Zimbabué, Emmerson Munangagwa, no final de uma audiência, em Luanda (12/10/2007). Munangagwa disse à imprensa, após a reunião, que “a missiva espelha aspectos ligados à situação vigente” naquele país da África Austral.

A Angop precisa que o ministro informou José Eduardo dos Santos sobre “os progressos já alcançados, no diálogo entre o Governo e as principais formações da oposição a fim de se debelar a actual crise política no Zimbabwe”.

Gordon BrownA situação política interna na ex-colónia britânica e o “regime cruel e ditatorial de Mugabe contra o seu povo” têm sido os argumentos aduzidos pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, para boicotar, pessoal e institucionalmente, a cimeira euro-africana, uma das principais iniciativas diplomáticas da actual presidência rotativa do Conselho Europeu, exercida por Portugal, entre Julho e Dezembro de 2007. O primeiro-ministro José Sócrates destacou, em diversas ocasiões que “esta é uma oportunidade política” que “não deve ser desperdiçada” tendo em vista o relançamento do “diálogo político ao mais alto nível” entre as instituições políticas mais representativas dos dois continentes – a UE e a União Africana (UA).

Em Setembro, Sócrates considerou essencial a realização da cimeira enfatizando que “todos os blocos políticos falam com África, menos a Europa”. “Esta situação – acrescentou – não pode continuar, porque a Europa está a perder esse terreno e também não pode continuar, porque África precisa dessa cooperação com a Europa, e deseja-a.”

Na passada segunda-feira (09/10), numa conferência de imprensa, em Londres, o chefe do governo de Sua Majestade Isabel II mostrou-se irredutível: “Eu não irei e nenhum ministro irá”. Pela primeira vez o sucessor de Tony Blair foi explícito na exclusão do seu governo da cúpula euro-africana.

Sócrates (Brown em 2.º plano)Neste jogo táctico, cheio de nuances diplomáticas e protocolares, Sócrates sublinhou: “Gostaria que Gordon Brown estivesse presente, mas compreendo os seus motivos políticos. No entanto, essas razões políticas não impedirão a realização da cimeira. (…) Gordon Brown já me fez saber que o seu Governo apoia esta cimeira. É um dos homens europeus que mais se envolveram nesta relação com África.”

Também o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, em declarações proferidas esta semana em Lisboa, reafirmou que estará presente, com a explicação de que “não seria justo” ausentar-se devido a questões relacionadas com “um regime político” ou com “um ditador em particular”.

O comissário europeu para a Ajuda e o Desenvolvimento, Louis Michel, defendeu uma posição idêntica: “Pensamos que as relações entre dois continentes não podem ficar reféns exclusivamente por causa de um problema específico.”

Alcinda AbreuA posição dos estados africanos é de apoio generalizado à cimeira recusando a exclusão de qualquer dos países membros da União Africana (UA). À televisão pública de Moçambique, a ministra dos Negócios EStrangeiros, Alcinda Abreu disse que “os Estados-membros [da UA] estão prontos para a cimeira de Lisboa, mas recusam quaisquer pré-condições”. “As duas organizações [UE e UA] não podem ficar reféns de um país”, defendeu a ministra moçambicana.

O diário britânico “The Telegraph” classificou a atitude de Gordon Brown como uma “hábil manobra política” que pode revelar-se “terrivelmente desastrosa” e “deitar por terra a cuidadosamente estudada postura” do chefe do governo britânico.

O jornal, embora admita que o líder trabalhista se saiu airosamente de uma situação idêntica, com a ditadura de Myanamar, por ocasião da cimeira asiática ASEAN, advertiu:

Robert Mugabe“O que funcionou bem na ASEAN não deve ser assumido como algo que se poderá repetir com a União Africana. (…) O Sr. Mugabe é visto em várias zonas de África como um independentista que enfrenta o Ocidente. Na cimeira da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC, em inglês), em Lusaca [em Agosto] ele [Mugabe] foi estrondosamente apoiado.” (pvc)

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