China lidera ataque ao dólar como reserva monetária global

Sinais para concretizar a substituição do dólar como reserva monetária global avolumaram-se nos últimos três meses. Todavia, nas últimas semanas, constata-se que a China tomou a dianteira no processo de destronar a divisa norte-americana do seu pedestal e desafiar os jurássicos poderes e interesses estabelecidos.

A agressividade dos chineses poderá mesmo surpreender o prémio Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, presidente do painel de especialistas da ONU sobre a reforma monetária. Na véspera da última cimeira do G20, em Londres, o professor da Universidade de Columbia, disse aquela situação poderia ser uma realidade “dentro de um ano” através de mecanismos cambiais do FMI. Mas a China parece ter outra solução em mente.

O que estão a fazer os chineses?

O discurso oficial sustenta que o país está a desenvolver sistemas e processos para anular os efeitos das crises conjugadas de crédito e cambial que tanto afectaram as exportações chinesas em 2008. Não sendo mentira, trata-se apenas de meia verdade. Senão vejamos:

  • A China assinou um swap cambial com a Argentina no montante de 70 mil milhões/bilhões (mm/bi) de yuan para pagamento das importações chinesas. A carne e cereais argentinos passam a ser pagos pelos chineses com a sua divisa e não mais com dólares;

  • Acordos similares, no valor global 650 mm/bi de yuan (USD 95 mm/bi) foram também assinados nos últimos meses com a Malásia, Coreia do Sul, Hong Kong, Bielorússia e Indonésia;

  • Pequim já autorizou que cinco dos seus maiores centros de comércio externo – Xangai, Guangzhou, Shenzhen, Dongguan e Zhuhai – passassem a usar o yuan em todas as operações de exportação e importação;

 Vários significados, uma leitura

A China está a abandonar o dólar como instrumento de troca e, inevitavelmente, a reduzir a exposição das suas reservas monetárias à volatilidade e à inevitável desvalorização do bilhete verde.

Ao facilitar aos países seus clientes e fornecedores a acumulação de reservas em yuan, Pequim mata dois coelhos de uma cajadada.

Por um lado, restabelece a emissão de cartas de crédito nas trocas comerciais, para desconto bancário. Assim, consegue combater um dos mais sérios problemas gerados pelo aperto global do crédito que quase paralizou o movimento internacional de bens e de serviços.

Por outro, está a construir as bases necessárias para colocar o yuan como concorrente do dólar, e de outras divisas ou instrumentos cambiais, na disputa pelo papel de reserva monetária mundial.

A principal mensagem da China tem um grupo específico de destinatários: os banqueiros centrais do planeta.

Hu Jintao e os seus pares mostram que duvidam da bondade das decisões do G20 relativamente à emissão pelo FMI de USD 250 mm/bi de Direitos Especiais de Saque (SDR, em inglês) como primeiro passo para a criação de um sistema monetário global onde aqueles instrumentos substituiriam o dólar como reserva monetária de referência. SDR é o cabaz de divisas dos países ricos do G7 – euro, iéne, libra e dólar – gerido pelo FMI. Esta foi a solução proposta pelo painel de especialistas da ONU, presidido por Stieglitz, apresentada no final de Março, para a reforma global do sistema.

Os chineses, tal como os russos e outros países emergentes, têm razões para desconfiar da imparcialidade do FMI e da vontade dos sete – EUA, Japão, Alemanha, Inglaterra, Canadá, França e Itália – para aceitarem a partilha do poder financeiro global.

Como o próprio Stieglitz reconhece, os chineses têm razão. O presente sistema obriga os países pobres e em desenvolvimento a emprestarem milhares de biliões de dólares aos EUA a taxas de juro nulas, ou quase. O economista americano foi mesmo sincero: “Na prática, trata-se de uma transferência líquida de ajuda externa para os EUA.”

Como é hábito, os chineses jogam em todos os tabuleiros. A sua qualidade de fortes candidatos ao primeiro lugar da economia mundial justifica os meios.

Afinal de contas, eles apenas tentam ganhar no campo aquilo que os outros já só ganham na secretaria.

 

MRA Alliance

Pedro Varanda de Castro, Consultor

Leave a Reply