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Sudão do Sul escolhe secessão com 99 por cento dos votos

segunda-feira, janeiro 31st, 2011

Sulista sudanês festeja vitória no referendoMilhares de estudantes manifestaram-se em Cartum, exigindo mudanças no regime de Bashir. O Presidente vai respeitar resultado do referendo. A polícia antimotim que vigiava a marcha do “dia nacional de protesto antigoverno” em Cartum, a capital do Sudão, carregou sobre milhares de estudantes que se manifestavam contra o Presidente, Omar al-Bashir, no mesmo dia em que a comissão eleitoral do referendo para a auto-determinação do Sudão do Sul anunciava que 99 por cento dos eleitores daquela região votaram pela secessão do Norte e a autonomia do seu território num novo país.

“Os votos pela separação alcançaram 99,57 por cento”, anunciou ontem Chan Reek Madut, um dos dirigentes da comissão do referendo do Sudão do Sul, realizado entre 9 e 15 de Janeiro. Perante uma multidão que aguardava pela confirmação oficial dos resultados em Juba, a capital do Sul, o mesmo responsável disse que 99 por cento dos 3,7 milhões de eleitores tinha exercido o seu direito de voto, colocando a taxa de participação bastante acima dos 60 por cento necessários para validar o resultado.

No Norte, onde residem cerca de 2 milhões de sudaneses do Sul, só 70 mil pessoas foram às urnas, e 58 por cento manifestaram-se a favor da secessão. Na região sul do Darfur a maioria dos votos foi pela união, com 63 por cento dos eleitores a considerar que o maior país africano deve permanecer intacto. Estes são ainda resultados preliminares, e a votação só será oficialmente certificada no próximo mês. O Sudão do Sul, será um novo país independente já no próximo mês de Julho. “Foi para isto que votámos, para que pudéssemos ser livres no nosso próprio país. Só posso dizer obrigado, um milhão de vezes obrigado”, exclamou Salva Kiir, o líder do Sudão do Sul e vice-presidente do país.

O processo põe um ponto final no conflito entre Norte e Sul que se prolongou por décadas, numa sangrenta guerra civil que matou quase dois milhões de pessoas. O referendo para a autodeterminação do Sudão do Sul foi negociado nos acordos de paz de 2005, sob mediação da ONU. A secessão do Sul representa mais um desafio para o regime islamista de Bashir, que se confronta com uma séria crise de autoridade. O Presidente disse repetidamente que respeitará o resultado do referendo.

A perspectiva da divisão do país originou vários protestos no Norte, mas a manifestação de ontem em Cartum teve outra génese. Inspirados pela revolta popular no vizinho Egipto, os estudantes sudaneses saíram à rua num movimento inesperado de contestação ao Presidente Bashir. “Queremos mudar. Estamos fartos da alta dos preços”, gritaram à porta do palácio presidencial.

“O que se está a passar no Egipto inspirou a juventude”, explicou à AFP Mubarak al-Fadl, um militante do partido Umma que garantiu que “todos os grupos de oposição apoiam a iniciativa dos estudantes”. “Todos nós queremos mostrar a nossa cólera pela gestão do Sudão, tendo em conta o cenário de partição do país que torna muito incerto o futuro do Norte”, referiu.

MRA Alliance/Público

Referendo: Sul do Sudão quer ser independente e separar-se do Norte

domingo, janeiro 16th, 2011

Verificou-se uma elevada taxa de participação no referendo sobre a independência do Sul do Sudão iniciado no passado domingo e que ontem chegou ao fim. No último dia do escrutínio, mais de 80 por cento dos eleitores tinham votado e pressente-se que o sentido de voto é esmagadoramente maioritário entre os sudaneses do Sul. Chamados a decidir sobre a manutenção da unidade com o Norte, que historicamente os marginalizou e reprimiu, ou a independência, os sulistas sudaneses querem ser independentes. Os resultados finais de votação que deve determinar a divisão do maior país africano devem ser conhecidos no início de Fevereiro.

Os dados da comissão referendária, que qualificou o processo de “pacífico”, indicavam que até anteontem tinham votado 3,25 milhões dos mais de 3,9 milhões de inscritos, uma participação que ultrapassava os 80 por cento – bem acima dos 60 por cento necessários para validar o referendo. “É um excelente resultado, à luz de todas as normas internacionais. Vi outras eleições neste país e posso dizer que este escrutínio foi o mais pacífico, o mais organizado e o mais tranquilo”, disse o presidente da comissão, Mohamed Ibrahim Khalil, numa conferência de imprensa na capital do Sul, Juba.

Uma hora antes do encerramento das urnas, segundo a AFP, um bispo da igreja episcopal de Juba, Paul Yugusuk, soprou a “última trombeta”, uma espécie de vuvuzela cor-de-laranja, coberta por uma bandeira do Sul do Sudão, região semi-autónoma desde 2005. “É um sinal para mostrar que não é apenas o fim do voto, mas o fim da escravatura, da opressão e o começo da nossa liberdade”, declarou.

A convicção geral é de que a opção independentista triunfará, pelo que a única dúvida parece ser a dimensão da vitória da secessão. Nas eleições de Abril do ano passado, os ex-rebeldes sulistas, que durante mais de duas décadas combateram o Governo de Cartum, obtiveram 93 por cento. Ainda que até lá possam ser conhecidos alguns dados preliminares, os resultados definitivos só deverão ser conhecidos no início de Fevereiro.

Apesar do clima geral de tranquilidade, o referendo fica também marcado por actos de violência que provocaram a morte de, pelo menos, 55 pessoas, entre nortistas e sulistas.

O referendo e a perspectiva de independência estão a atrair muitos sulistas que viviam no Norte, predominantemente árabe e islâmico, à sua região de origem, mais vincadamente africana e maioritariamente cristã e animista.

O chefe de operações humanitárias das Nações Unidas no Sudão, Georg Charpentier, disse ontem à imprensa que cerca de 180 mil pessoas voltaram já ao Sul e que, até ao fim do ano, o número pode ultrapassar o meio milhão. “Esperamos pelo menos 500.000 a 600.000 pessoas”, afirmou, citado pela AFP.

MRA Alliance/Público