Archive for the ‘Opinião’ Category

“Sem a UE estávamos na bancarrota”, diz Mário Soares

quarta-feira, junho 16th, 2010

Mário SoaresO antigo Presidente da República não está pessimista em relação à crise que a Europa atravessa e mantém a esperança de que esta será resolvida e ultrapassada “com bom senso”. Numa intervenção que proferiu na Póvoa de Varzim, durante a conferência comemorativa do centenário da implantação da República, Soares defendeu que “a Europa tem de continuar a ser a referência do melhor, do mais progressista e humanitário” que há.Em relação à situação actual, que acredita ser ultrapassável, Mário Soares, reconheceu existir uma “grande crise financeira, económica, social e civilizacional”, que “nada tem a ver com governos, mas com a situação internacional”. Instado pelo público sobre a especulação que, por vezes, surge em relação ao euro, Mário Soares sublinhou que se não tivéssemos aderido à União Europeia e, consequentemente, à moeda única, “estávamos na bancarrota”.

MRA Alliance/DE

O colapso da Califórnia será um aviso à navegação…

terça-feira, junho 23rd, 2009

“Os nossos bolsos estão vazios. O nosso banco fechou. O nosso crédito evaporou-se”. As palavras foram proferidas recentemente pelo governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger pouco antes de uma dramática reunião do orgão legislativo do estado norte-americano para tentar encontrar uma saída para a falência anunciada…

O problema económico e financeiro do estado da Califórnia ultrapassa-o largamente. O seu PIB é maior que o do Canadá, ou ao de qualquer um de três BRIC -Brasil, Rússia ou Índia. A economia californiana é responsável por cerca de 13% do PIB dos Estados Unidos (USD 1,7 mil biliões). Para além de ser o estado que produz mais riqueza para o bolo nacional, é também o primeiro em população (mais de 33,8 milhões de habitantes), bem como em produção industrial e agropecuária. A mega fábrica de sonhos de Hollywood está situada no terceiro maior estado norte-americano, logo a seguir ao Alasca e ao Texas. As quatro maiores cidades californianas – Los Angeles, São José, San Diego e São Francisco – estão entre as 20 maiores do país. Em 2008, se fosse um estado independente, a Califórnia era a 8.ª maior economia do mundo…

A Califórnia tem um buraco orçamental de 24 mil milhões de dólares (17,3 mil milhões de euros) no exercício que termina em Junho de 2010. O secretário estadual do Tesouro, John Chiang, avisou que os cofres do maior produtor de vinho do país ficarão vazios dentro de seis semanas e classificou a situação como a “pior crise de liquidez desde a Grande Depressão.” Mesmo assim, a administração Obama não se comoveu e, este mês, fez saber que não está disponível para equiparar o “estado dourado” aos bancos de Wall Street e aos fabricantes automóveis GM e Chrysler integrando-o no grupo dos privilegiados com direito a cheques em branco do Tesouro federal…

Schwarzenegger nem sequer dramatizou a situação ao admitir a possibilidade de uma “paralisia total” do estado caso não seja encontrada uma saída para o descalabro financeiro iniciado com a crise hipotecária subprime, o aperto do crédito e a severa recessão que se lhe seguiu…

O cenário imobiliário rivaliza com os usados nos sangrentos filmes protagonizados pelo actor-governador. Os incumprimentos no pagamento das prestações mensais com hipotecas não só crescem como prometem acelerar nos próximos meses. Hoje, no município de Los Angeles 5,2% das hipotecas estão vencidas há mais de 90 dias. Mas noutros a situação é bem mais grave. Em Monterrey e San Bernadino ultrapassam os 8%, em Madeira e San Joaquin 9%, em Riverside e Merced 10%.  O pior é que estão a expirar as moratórias que alguns bancos concederam aos clientes para normalização dos pagamentos. “O número de penhoras no pipeline é brutal (…) e vai começar a manifestar-se dentro em breve”, revelou recentemente um analista entrevistado pela Bloomberg…

O desemprego oficial subiu nos últimos meses para 11,5%, atingindo a taxa mais alta desde a II Guerra Mundial. Nos últimos dois anos, a Califórnia perdeu quase 860 mil empregos. O relatório Anderson Forecast, publicado pela universidade local UCLA, prevê que, mesmo com uma “ligeira melhoria” do ambiente económico, a “taxa média” de desemprego possa ultrapassar os 12% até meados do próximo ano. Como tal “melhoria” parece ser uma miragem, a probabilidade de mais de 15% da população activa ficar sem emprego é real…

Segundo a agência de notações de risco Fitch, a Califórnia detém o pior rating dos 50 estados da União. Falta pouco para que esta e outras agências classifiquem como junk (lixo) os títulos de dívida emitidos pelo governo californiano e que o espectro da insolvência se agrave ainda mais. 

“A crise orçamental da Califórnia pode muito bem detonar uma segunda calamidade financeira que seria muito pior do que tudo aquilo por que passámos nos últimos 18 meses”, escreveu recentemente Kevin Hassett no artigo “Califórnia empurra EUA para abismo do incumprimento da dívida”, publicado no site da Bloomberg. Perante isto, alguns dirão: “- Que exagero!”…

Porém, os números dão-lhe razão. De acordo com os dados da Casa Branca o rácio nacional dívida pública/PIB estimado para 2009 deverá ser de 12,9%. Contas feitas, se a Califórnia registasse um rácio idêntico, o seu buraco orçamental rondaria os 230 mil milhões de dólares. Ou seja 10 vezes mais que o défice actual…

Por esta razão, o iminente colapso californiano é, antes de mais, um aviso à navegação. Depois, apertem os cintos…

MRA Alliance, Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro, Consultor

Opinião: O Fed vai deixar de estar acima da lei?

sexta-feira, junho 12th, 2009

“Helicopter Ben (Bernanke)”O Congresso dos Estados Unidos dá crescentes sinais de que pretende controlar e auditar com mais rigor a actividade do banco central (Fed), e do seu presidente Ben Bernanke, e eventualmente retirar-lhes autoridade caso se prove que exorbitaram poderes ou cometeram ilegalidades antes e depois da eclosão da actual crise financeira. 

Os congressistas Edolphus Towns (Democrata, Nova Iorque) e Darrell Issa (Republicano, Califórnia) anunciaram ontem que vão convocar Bernanke a depôr perante os legisladores do país para esclarecer as pressões que alegadamente terá exercido, juntamente como então secretário do Tesouro Hank Paulson, sobre a administração do Bank of America, para a rápida finalização da compra do banco de investimento Merril Lynch, em 2008.

Outros congressistas seguem na mesma direcção com propósitos bem mais ambiciosos para o actualmente manietado fiscalizador do Fed – Government Accountability Office (GAO).

Uma proposta legislativa apresentada no primeiro trimestre pelo congressista republicano Ron Paul (Republicano, Texas) já conseguiu obter o apoio de 208 co-patrocinadores para que o GAO apresente um relatório de auditoria ao Fed até ao final de 2010.

Se tal acontecer, significa que o banco central dos EUA perdeu o privilégio tácito de estar acima da lei, em vigor no país há mais de meio século. Conforme referimos em Março passado, se for obrigado a revelar as suas contas, e as suas práticas, o resultado poderá ser, no mínimo, surpreendente.

O republicano Spencer Bachus (Alabama), membro da influente Comissão de Serviços Financeiros do Congresso (HFSC, em inglês), também apresentou uma proposta legislativa para limitar os poderes de supervisão do Fed e a sua capacidade para intervir no mercado.

Analistas e comentadores admitem que estará igualmente em perigo a função do Fed como supervisor único dos riscos sistémicos que afectam o sector financeiro estadunidense.  Segundo a agência Bloomberg, o actual presidente da HFSC, Barney Frank, tido como um dos maiores apoiantes das polémicas e controversas decisões de Ben Bernanke, já não estará pelos ajustes, conforme defendera em Novembro.

“Os congressistas finalmente estão a querer esclarecer o âmbito de actuação do Fed”, disse Dino Kos, administrador da empresa Portales Partners e ex-vice-presidente do Fed de Nova Iorque. “Os bancos centrais podem facilmente tomar decisões chave sem aprovação do Congresso.” 

Acusado de arrogância e prepotência, Bernanke recusou-se repetidamente a fornecer dados aos congressistas sobre os protagonistas, as quantias e as modalidades de acesso às bilionárias injecções financeiras estatais.

Porém, face às pressões, no passado dia 10, o Fed acedeu divulgar alguns detalhes das operações. Concretamente forneceu informação sobre o número de bancos que acedeu às facilidades de crédito do banco central bem como sobre a qualidade das garantias apresentadas (ratings de risco).

Ainda assim, a atitude do banco central está a ser interpretada por sectores da sociedade e da media dos EUA como “tardia” e “insuficiente”, face aos montantes estratosféricos usados por Bernanke para salvar as vetustas instituições que detém o controlo accionista do Fed – os bancos de Wall Street. 

Entre as medidas mais controversas estão as compras de activos tóxicos do Citigroup, Bank of America, JP Morgan Chase, Bear Stearns, bem como da seguradora AIG e de outras instituições.

Estimativas conservadoras dizem que o balanço do Fed terá ficado entupido com qualquer coisa como USD 250 mil milhões/bilhões (mm/bi) de activos potencialmente incobráveis. Outros sustentam que USD 500 mm/bi será um montante, para já, mais realista. 

Porém, na realidade, ninguém faz a menor ideia!

MRA Alliance, Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro

Consultor

Opinião: Os dogmas do capitalismo também se abatem

quinta-feira, junho 4th, 2009

A chanceler alemã, Angela Merkel, criticou a influência negativa do Fed e do Banco de Inglaterra no combate à presente crise financeira, sugerindo que a estratégia adoptada pode estar a criar as bases para um novo colapso, com a complacência do Banco Central Europeu.

A situação é tão rara que merece a atenção do Wall Street Journal, habitualmente parco nestas matérias. O influente diário dos meios económicos e financeiros dos Estados Unidos não esconde a surpresa e alguma perplexidade perante tão contundente ataque à elite financeira mundial – os banqueiros centrais.

O WSJ informa que, em declarações proferidas em Berlim, a chefe do governo alemão manifestou “grande cepticismo” sobre os poderes da Reserva Federal (Fed) dos EUA e as manobras do Banco de Inglaterra para influenciarem a política monetária da União Europeia.

“Devemos voltar, em conjunto, aos tempos das políticas independentes dos bancos centrais e a práticas assentes na razão, caso contrário, daqui a dez anos, estaremos exactamente na mesma situação”, disse Melkel. Neste contexto, a chanceler alemã acusou ainda o BCE de se “vergar” às “pressões internacionais” quando anunciou em Abril a sua intenção de adquirir EUR 60 mil milhões/bilhões (mm/bi) em obrigações emitidas por empresas.

“A crítica pública é pouco comum  sobretudo vinda de políticos alemães que raramente criticam aos bancos centrais em público e com dureza”, refere o WSJ. A articulista Joellen Perry mostra-se surpreendida pelo facto de, regra geral, tais críticas serem formuladas por razões opostas – os bancos centrais são acusados de avareza e nunca de excesso de generosidade.

“Não é claro o motivo das observações de Merkel ocorridas durante um discurso previamente estudado”, refere o diário americano, defendendo que o BCE tem seguido uma política bem menos agressiva do que os seus congéneres dos EUA e da Grã-Bretanha.

Ainda assim, o WSJ adianta que os comentários de Angela Merkel estão em linha com a visão de Axel Weber, o presidente do banco central da Alemanha e um dos 22 membros do conselho de governadores do BCE. Weber tem-se destacado pelas críticas a políticas monetárias fiscalmente pouco rigorosas e fomentadoras de inflação. Weber também criticou publicamente a anunciada intervenção do BCE na compra de obrigações empresariais e alertou para o perigo de ser geradora de novas bolhas especulativas. 

Apesar do tom brando e complacente, a articulista do WSJ reconhece que as políticas do Fed também enfrentam a crescente oposição de largos sectores da própria sociedade norte-americana, durante décadas formatada para nada questionar e pensar pouco.

Pelos vistos, o verniz que desde há séculos encobriu a prática de “cunhar” moeda, deixando-a no segredo dos salões dos poderes políticos e financeiros, começa a revelar algumas fissuras. Era inevitável.

Lá, como cá, a torre de marfim dos governadores dos bancos centrais tem os dias contados. Poderá demorar ainda uma geração ou duas. Mas vai acontecer.

Depois da incompetência revelada para gerirem adequadamente o risco, começa a ser demasiado evidente que os bancos privados – os verdadeiros donos do banco central dos EUA – apenas estão interessados em salvar a pele e o dinheiro perdido em investimentos ruinosos emitindo a factura ao eterno pagante – o contribuinte. 

Por enquanto, as intervenções de Merkel e Weber fazem parte da minoria.

Um e outro defendem o sistema capitalista. Com regras e uma dimensão social.

Um e outro discordam daqueles que alteram as regras a meio do jogo para, se for necessário, o ganharem na secretaria.

Infelizmente, a política coitus interruptus congrega largamente as opiniões dos actuais reguladores (leia-se manipuladores). 

Porém, como tudo o que é contranatural, um dia, acaba. 

MRA Alliance

Pedro Varanda de Castro

Consultor

EUA: Bancos falseiam contas e mercados acreditam…

sexta-feira, abril 17th, 2009

Os últimos dias foram marcados por notícias agradavelmente surpreendementes para a maioria dos bancos americanos apelidados de “zombies” – em situação de falência técnica ou lá próximo – com destaque para Goldman Sachs, JP Morgan Chase, Wells Fargo e Citigroup, entre outros.

Achámos estranho. Conhecendo a verdadeira situação dos maiores bancos estadunidenses suspeitámos que os números foram “criativamente” metidos nos balanços trimestrais. Esta semana, investigámos e chegámos às seguintes conclusões:

  • O organismo norte-americano que regula as práticas contabilísticas – Financial Accounting Standards Board (FASB) – alterou recentemente as regras do jogo permitindo às instituições financeiras a avaliação dos activos em carteira segundo critérios próprios e não de acordo com o seu valor de mercado;
  • Desta forma, os bancos podem contabilizar todos os activos tóxicos pelo preço que, na opinião dos seus auditores, irão valer quando o mercado financeiro estabilizar. As hipotecas subprime, por exemplo, não foram contabilizadas pelo seu actual valor real mas antes de acordo as perspectivas de reapreciação futura;
  • Na prática, os bancos estão legalmente autorizados a declararem os lucros que entenderem bastando-lhes usar os novos métodos de reclassificação dos  activos e anulando os prejuízos ditados pelo mercado real;
  • As práticas da “contabilidade criativa” passaram a ser estimuladas pelos próprios reguladores que, desta forma, deram carta branca aos banqueiros para inflacionar lucros e esconder prejuízos;
  • Dois casos – Wells Fargo e Goldman Sachs – ilustram os efeitos perversos da manipulação financeira na dinâmica da bolsa e no comportamento dos investidores. Este mês, o primeiro registou lucros recorde e as acções valorizaram 20% em apenas um dia. O segundo também anunciou lucros espectaculares e, logo a seguir, vendeu USD 5 mil milhões/bilhões de acções no mercado secundário;
  • O desempenho do Wells Fargo ficou a dever-se ao milagre operado pela bizarra figura “Level 3”, aplicada aos lucros. Esta ferramenta de branqueamento das contas permitiu-lhe fazer a necessária cosmética à problemática carteira de créditos hipotecários atribuindo-lhe o valor que mais lhe convém mas que nada tem a ver com a realidade do mercado;
  • O Goldman, por seu turno, não esteve com meias medidas – avançou o ano fiscal um mês (até Março) e atirou Dezembro para o caixote do lixo das contas. Na gíria financeira, Dezembro/2008 passou a ser conhecido como o “mês orfão” . A desvergonha é tal que, a partir de agora, os bancos americanos decidem quantos meses tem um ano – 11, 10 ou o que mais lhes convier;

Posto isto, resta-nos concluir que o capitalismo americano virou um circo onde o mercado é o palhaço e os contribuintes o bombo da festa.

MRA Alliance

Pedro Varanda de Castro, Consultor

P.S.: Sobre o calamitoso estado do sistema financeiro dos EUA ler o artigo do economista Nouriel Roubini, escrito há pouco mais de um mês.

Notícia e perguntas sobre este-país-à-beira-estupidez-plantado

domingo, abril 12th, 2009

A notícia (Lusa): 

Uns chegam ao hospital com fome e falta de higiene, outros entram com ténis de marca, mas mal alimentados. São meninos com carências alimentares originadas pela crise que o Amadora-Sintra começou a identificar há um ano e meio.

A situação foi relatada à Lusa pela assistente social do Serviço de Pediatria do Hospital Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra), Madalena Barros, que associa o problema à debilitada situação económica de muitas famílias.

Também o director-geral da Saúde, Francisco George, admite que já existem “casos pontuais” de crianças com fome devido à crise, mas “ainda não constituem um problema de dimensão preocupante”.

Para a assistente social do Amadora-Sintra, os casos até agora registados podem dividir-se em dois tipos diferentes: “Existem meninos que dão entrada no Hospital Fernando Fonseca com fome e em más condições de higiene e de vestuário e outros que chegam bem arranjados, mas mal alimentados”.

Traçando o perfil destas últimas famílias, Madalena Barros disse que são sobretudo famílias monoparentais que “gerem um bocadinho mal o orçamento que têm” e não querem ser “diferentes dos outros”.

São mães com “a escolaridade obrigatória ou nem isso” que se preocupam mais com “a imagem do que com os cuidados básicos”.

“Andar com uns ténis rotos ou umas calças usadas estigmatiza-os como pessoas carenciadas”, elucidou Madalena Barros, acrescentando que muitos destes casos são de crianças entre os quatro e os seis anos.

Estas famílias “valorizam muito o aspecto, mas deixam cair as coisas importantes e fundamentais”, como a alimentação, a saúde e a educação, o que “compromete o bem-estar das crianças”, sublinhou.

A abordagem do hospital nestas situações é “sempre estratégica no sentido de capacitar a família e nunca de a confrontar com estas fragilidades”.

“É fundamental estabelecer uma relação de confiança com estas famílias para as cativar a vir ao hospital”, justificou Madalena Barros, acrescentando que, normalmente, estes casos são referenciados ao centro de saúde ou a associações que fazem apoio domiciliário para assegurar que não falhem as consultas.

Para Manuel Coutinho, psicólogo do Instituto de Apoio à Criança (IAC), trata-se de uma situação de “negligência”.

“Há muitas famílias que vivem num teatro de aparências e compram o que não precisam com o dinheiro que não têm”. Uma situação que se agrava com a crise e que “compromete bastante” as pessoas que têm rendimentos mais baixos, sustentou à Lusa.

Manuel Coutinho considera que, “podendo haver escolha na forma como se distribui o salário pelas prioridades da família, a última coisa que deve ser afectada são os bens essenciais”.

“Acredito que muitas crianças estejam mal nutridas, o que significa que isso pode vir a tornar-se, mais tarde, num problema na saúde”, sublinhou, acrescentando que há também casos de pais que alimentam os filhos com comida bastante calórica para lhes saciar a fome, em vez de lhes dar uma alimentação equilibrada.

A socióloga Vanessa Cunha, que desde 1997 se dedica à investigação do lugar dos filhos nas famílias portuguesas, disse desconhecer esta realidade, mas afirmou que poderão ser casos de “pobreza mascarada”.

Lembrou que as crianças pressionam os pais para lhes comprarem objectos e roupas de marca para não serem postos de lado pelos colegas e, como os “pais estão pouco disponíveis para os filhos no dia-a-dia, tendem a compensá-los materialmente”.

“Se calhar essas crianças não estão a ser devidamente alimentadas pelas mesmas razões. Ou seja, os pais também cedem na alimentação que eles querem”, sublinhou, lembrando que esta situação dá origem a erros alimentares que conduzem a situações de obesidade, mas também podem conduzir a situações de carências.”

A notícia distribuída pela Lusa foi assinada por HN. Sobre ela, permito-me verter as seguintes questões e fazer uma citação.

As perguntas

  • Quantas crianças mal-nutridas e esformeadas precisam ser “alojadas” em um cemitério para, nas estatísticas do director-geral de Saúde, Francisco George, passarem a ser “um problema de dimensão preocupante”?
  • Que sociedade é esta onde se gasta o que não se tem – “gerem um bocadinho mal o orçamento” – porque não querem ser “diferentes dos outros”?; Alguém lhes ensinou que comprar um bem a crédito é ser escravo do credor? Quem lhes mostrou que ser “diferente” é melhor do que ser “igual”? 
  •  “São mães com “a escolaridade obrigatória ou nem isso” que se preocupam mais com “a imagem do que com os cuidados básicos” (…) Estas famílias “valorizam muito o aspecto, mas deixam cair as coisas importantes e fundamentais”, como a alimentação, a saúde e a educação.” Nos níveis superiores de escolaridade o fenómeno é inexistente? Ou será apenas “não preocupante”?
  • “É fundamental estabelecer uma relação de confiança com estas famílias para as cativar a vir ao hospital.” Não será melhor explicar-lhes que o seu comportamento é imoral, criminoso e, por isso, indesculpável?
  • “A socióloga Vanessa Cunha (…) disse desconhecer esta realidade, mas afirmou que poderão ser casos de “pobreza mascarada”. Não será isto um caso de absoluta incapacidade da socióloga para decifrar os ruídos sociais?

A citação

“Há apenas duas coisas infinitas no mundo. Uma é o Universo. A outra, é a estupidez.”

Albert Einstein

MRA Alliance

Pedro Varanda de Castro, Consultor

Opinião: Montanha do G20 pariu uma ratazana falaciosa

sexta-feira, abril 3rd, 2009

Obama, Berlusconi e Medvedev durante a cimeiraNa passada quarta-feira, 24 horas antes do início formal da cimeira dos 20 maiores países industrializados e emergentes do mundo (G20), arriscámos a previsão de que a montanha iria parir um rato. Enganámo-nos. Pariu uma ratazana de falácias para enganar os incautos, num cenário idílico de unidades e consensos inexistentes, com números enganadores.

O comunicado final da cúpula das maiores economias do mundo, no essencial, quanto às novas conquistas elogiadas por Gordon Brown, Barack Obama, Nicolas Sarkozy e Angela Merkel, corroboradas com mais ou menos pudor por líderes dos países emergentes, diz o seguinte:

  • “Os acordos celebrados hoje visam triplicar os recursos do FMI para USD 750 mil milhões/bilhões (mm/bi), apoiar uma nova alocação de USD 250 mm/bi em Direitos Especiais de Saque [SDR, e inglês], bem como empréstimos adicionais de, pelo menos, USD 100 mm/bi pelos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento [MDB em inglês], assegurar USD 250 mm/bi em apoios a operações de apoio ao comércio e usar recursos adicionais, via venda de ouro pelo FMI, para conceder apoios financeiros aos países mais pobres, constituindo um programa adicional de USD 1.100 biliões [USD 1,1 trilhão] de apoio ao crescimento, emprego e à restauração do crédito na economia mundial”;
  • “Estamos a realizar uma expansão fiscal concertada e sem precedentes, que irá proteger ou criar milhões de empregos (…), que vai atingir USD 5.000 biliões/trilhões até ao final do próximo ano,  aumentar a produção em 4% e acelerar a transição para uma economia verde”;
  • “(…) Os nossos bancos centrais vão manter políticas expansionistas, durante o tempo que fôr necessário, e usar todos os instrumentos de política monetária possíveis, incluindo não convencionais, em consonância com a estabilidade dos preços”;
  • “Estamos empenhados em realizar todas as acções exigidas para restaurar o fluxo normal de crédito através do sistema financeiro e assegurar a solidez de instituições sistemicamente importantes, excutando as políticas em sintonia com o quadro acordado pelo G20 para restauração dos empréstimos e reparação do sector financeiro”;
  • “No mês passado, o FMI estimou que o crescimento global, em termos reais, deverá ser retomado e crescerá acima dos 2%, até ao final de 2010. Confiamos que as acções acordadas hoje (…) irão acelerar o retorno às tendências de crescimento”;

Na declaração que integra o comunicado final, os líderes do G20 publicaram uma declaração intitulada “Reforçando o Sistema Financeiro” na qual são enumerados outros consensos a que chegaram:

  • Criação de uma comissão – Financial Stability Board (FSB) – que passa a agregar o anterior Financial Stability Forum (FSF), os 20 Estados-membros do G20, a União Europeia e a Espanha; 
  • À FSB ficou cometida a tarefa de, em cooperação com o FMI, fornecer alertas de riscos financeiros ou macroeconómicos e as medidas correctivas;
  • Reformulação dos sistemas regulatórios; 
  • Alargamento da regulação e a supervisão aos fundos de cobertura de riscos (hedge funds);
  • Novas regras sobre prémios e bónus a pagar pelas instituições financeiras aos quadros executivos, assentes em resultados, qualidade do desempenho e sustentabilidade dos esquemas retributivos; 
  • “Prevenir” a excessiva alavancagem e exposição ao risco e exigir melhores rácios de capitais próprios aos agentes do sistema; 
  • Combater “jurisdições não cooperantes”, incluindo paraísos fiscais. (…) Terminou a era do segredo bancário.”
  • Adoptar novos padrões de “alta qualidade” contabilística;
  • Alargar a regulação e fiscalização das agências de notação de risco de crédito – Credit Rating Agencies – impondo-lhes a adopção de boas práticas para “prevenir conflitos de interesses inaceitáveis.” 

Descontando o facto de o texto ser omisso quanto à questão nuclear da crise – o que fazer com os bilionários activos tóxicos – é espantosa a manipulação dos números para entorpecimento da opinião pública. A retórica, vaga e dúplice,  faria corar de vergonha o inventor do canivete suíço. Senão vejamos: 

  • O montante de USD 5.000 biliões/trilhões é enganador pois, comparativamente a 2007, já inclui as novas dívidas públicas contraídas pelos governos desde 2008 até 2010; 
  • Os anunciados USD 1.100 biliões (1,1 trilhão) são constituídos por diferentes parcelas já anteriormente publicitados; 
  • Em Novembro e Março passados,  o Japão e a União Europeia anunciaram ter disponibilizado respectivamente USD 100 mm/bi e USD 101 mm/bi para  satisfazer as necessidades de capitalização de fundos próprios do FMI;
  • A China, no dia da cimeira, terá anunciado a sua disponibilidade para contribuir com mais USD 40 mm/bi, mas Pequim não confirmou nem desmentiu tal intenção;
  • Outros membros destacados – da Arábia Saudita, à Rússia, passando pela Índia, Brasil e EUA – quedaram-se por um ensurdecedor silêncio;
  • O referido comunicado final remete para Abril, data da reunião da Primavera do FMI, a questão de reforço dos fundos a alocar ao organismo multilateral pelos restantes países do G20;
  • Os USD 250 mm/bi em SDR´s – a unidade monetária do FMI resultante de um cabaz de quatro divisas (dólar, libra, euro e iéne) – resultará da criação artificial de moeda. O processo, tecnicamente descrito pelos alquimistas financeiros como  quantitative easing mais não é do que criar dinheiro electrónico sem qualquer valor fiduciário. A diferença entre este dinheiro e as notas do Monopólio é nenhuma; 
  • A parte de leão deste papel (44%) poderá ser consumida pelos países do G7 – EUA, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Japão e Canadá – em detrimento restantes 179 membros da organização, por força dos direitos de voto estatutariamente consagrados;
  • A Alemanha, que publicamente classificou a cimeira como “um sucesso”, não apenas foi incapaz de impor a sua vontade de impedir a “fabricação” de SDR’s e como falhou na imposição de regras mais apertadas para fiscalizar a utilização dos fundos do FMI pelos países beneficiários;
  • A fiabilidade dos números e cálculos fornecidos por Gordon Brown foram questionados por um vasto grupo de jornalistas e de analistas que consideram que o primeiro-ministro inglês é useiro e vezeiro em inflacionar contas politicamente convenientes;
  • De resto, o próprio comunicado atirou para os parágrafos finais a confissão de que, relativamente ao financiamento de operações de comércio internacional, do novo “dinheiro” que sairá magicamente dos terminais de computadores do FMI (USD 250 mm/bi) apenas entre 1,5% a 2% será destinado àquele fim;
  • O documento esclarece que o montante global anunciado não é mais do que uma manifestação de intenções sobre a aplicação daqueles recursos, durante os próximos dois anos;

Contas feitas, como referiu o insuspeito Financial Times, “em vez de USD 1.100 biliões, os novos compromissos ficam aquém de USD 100 mm/bi e a maior parte deles já estavam garantidos antes da cimeira do G20”.

O futuro próximo dirá o que realmente foi conseguido na cimeira de Londres em matéria de reformas e de estímulos à economia mundial.

Para já, não passou o teste do detector de mentiras.

MRA Alliance

Pedro Varanda de Castro, Consultor

Opinião: Reservas de ouro, segredos do Fed e feudalismo financeiro

domingo, março 29th, 2009

A questão de quanto ouro está guardado nos cofres de Fort Knox, e a quem pertence, alimenta polémicas em meios políticos e financeiros dos Estados Unidos, desde há muitos anos, mas sem repercussão assinalável nos chamados media de referência.

Hoje, a uma semana da cimeira do G20 sobre o futuro do sistema financeiro global, o diário londrino Times resolveu dar à estampa um artigo, sob o título “Haverá algum ouro guardado em Fort Knox, o cofre mais seguro do mundo?”.

Mais vale tarde, do que nunca, mesmo que o articulista não vá tão fundo quanto o assunto merece e a severidade da presente crise do modelo financeiro mundial aconselha.

Por outro lado, também seria interessante saber por que razão um dos jornais mais emblemáticos do conglomerado mediático do globalista Rupert Murdoch resolveu agora dar cobertura aos paladinos das teses monetárias que, imperialmente, durante anos, censurou, substimou e desacreditou.

O que o Times diz

No artigo, é dada nova expressão a velhas dúvidas dos críticos norte-americanos sobre as desvantagens do abandono do padrão-ouro e a sustentabilidade do actual sistema monetário do país. Ele assenta em papel-moeda cuja garantia de reembolso, em termos de contra-valor, é apenas outro papel – dólar – e a palavra do governo de Washington.

Neste quesito, a ombridade da Presidência dos Estados Unidos ficou seriamente danificada quando, em 1971, Richard Nixon anunciou ao mundo que “temporariamente”, o país iria suspender os pagamentos em ouro aos detentores de dólares.

A medida, que rapidamente passou a definitiva, liquidou o acordo de 1944, selado em Bretton Woods pelas 44 nações aliadas contra a Alemanha e o Japão. Foi ele que serviu de base à criação do actual sistema monetário internacional.

Com aquela decisão, unilateralmente, banqueiros e políticos norte-americanos impediram que outros países preocupados com o endividamento público estadunidense seguissem o exemplo da França e da Suíça e exigissem que as suas reservas em dólares também fossem reembolsadas em ouro, ao preço pré-acordado de 35 dólares a onça.

O artigo do Times explicita mais razões para os antigos e actuais temores:    

  • “Proeminentes investidores e pelo menos um congressista estadunidense” estão preocupados sobre a quantidade e a titularidade dos depósitos de ouro guardados na caixa-forte do Kentucky;
  • A preocupação assenta na circunstância de as autoridades nunca terem permitido uma auditoria independente para averiguar se as barras lá acumuladas, conforme diz o Tesouro, valem realmente 137 mil milhões/bilhões (mm/bi) de dólares;
  • Os receios aumentaram após o colapso e a nacionalização de várias instituições financeiras do país.
  • Será que o ouro foi usado para financiar a orgia especulativa de Wall Street? Será que ele “ainda é propriedade exclusiva” dos EUA?
  • Na boca de Ron Paul – congressista republicano do Texas que integra a corrente “libertária” do Partido Republicano, afecta à escola do pensamento económico austríaco – é colocada uma frase que repete desde os anos 70: “Já passaram muitas décadas desde que o ouro de Forte Knox foi devida e independentemente auditado e contabilizado. (…) O povo americano tem o direito a saber a verdade”;
  • Paul, com uma vintena de co-signatários, lançou uma petição naquele sentido;
  • Por seu turno, a organização GATA – Gold Anti-Trust Action – resolveu  contratar um escritório de advogados para, em Abril, exigir ao presidente Obama que cumpra a promessa de “uma abertura sem precedentes” e termine com o secretismo sobre a propriedade do ouro americano e as operações de compra e venda do metal precioso, realizadas desde 1971;
  • Investidores e especuladores especialistas no metal amerelo, repetidamente, têm acusado o governo e as autoridades monetárias de inundarem o mercado com ouro de Fort Knox para manterem artificialmente alta a cotação do dólar e baixo o preço da commodity, alegadamente através de swaps com outros bancos centrais;
  • O Times confirma que nenhum auditor independente tem acesso aos cofres onde está depositado o ouro dos Estados Unidos, “embora supervisem o processo”;
  • Segundo o diário londrino, a correspondente americana da nossa Casa da Moeda – US Mint – garante no seu site que os 147,3 milhões de onças em Fort Knox “são guardados como um activo dos EUA”, sem fornecer mais pormenores;
     

A crise financeira global, o pró-activismo russo e chinês favorável ao fim do dólar como reserva monetária mundial e as práticas do Fed de fabricar dinheiro a partir do nada, integram o explosivo cocktail que será servido ao delegados presentes na reunião do G20, na próxima semana, em Londres.

O que o Times não diz

  • O banco central dos Estados Unidos – Reserva Federal (Fed) – é uma entidade privada cujos capitais são controlados pelos bancos que comandam o opaco mundo da alta finança global, a partir de Wall Street e da City de Londres;
  • Cinco presidentes americanos ou foram assassinados ou sofreram atentados por se terem oposto ao modelo de um banco central dominado por bancos privados;
  • O controlo accionista do Fed é um dos segredos mais bem guardados do país;
  • O Sistema da Reserva Federal, na prática, é um cartel de bancos privados a quem os políticos do país deram, em 1913, o monopólio exclusivo da criação de moeda e, por via disso, da gestão dos fluxos monetários;
  • Em troca desta e de outras benesses, a classe política norte-americana recebeu a promessa dos banqueiros de terem acesso permanente aos recursos monetários necessários para alimentar a máquina do Estado e satisfazer os ímpetos despesistas dos partidos no poder;
  • Para além da cobrança de juros, os banqueiros viram aprovada a lei que criou o Imposto sobre o Rendimento e, desde então, os cheques dos contribuintes americanos são endossados ao Fed e não à Fazenda Nacional (Tesouro);
  • Desde a sua fundação, nenhum cargo executivo do Fed – incluindo os que formalmente são propostos pelo Presidente dos EUA – foi ocupado por alguém sem o beneplácito das dinastias financeiras Rothschild, Morgan e Rockefeller;
  • O Sistema da Reserva Federal, criado para “dar estabilidade” à moeda e à economia gerou duas grandes depressões (1929 e 2007) e várias recessões severas;
  • Entre 1913 e 2008, o valor do dólar registou uma desvalorização de 98%;
  • O sistema é gerador de um imposto invisível – inflação – que deliberadamente é apresentado como resultante da subida dos preços quando, na realidade, é provocado pela depreciação da moeda;
  • O dinheiro é criado a partir da dívida gerada pelo governo junto do banco central e não da riqueza produzida na economia real pelas empresas e pelos particulares;
  • Por cada milhão de dólares de crédito concedido pelo banco central ao governo nove milhões são concedidos aos outros agentes económicos e apenas um milhão é mantido como reserva;
  • O sistema é uma infinita espiral de dívida – pública e privada. 

Estas são, entre outras, as razões pelas quais estamos a assistir, em câmara lenta, ao colapso do sistema financeiro global.

O sistema é uma pirâmide, tipo Dona Branca ou Madoff, mas inventada e gerida por banqueiros com o alto patrocínio dos políticos e dos governos.

A filosofia que lhe está subjacente é o feudalismo financeiro. Nele, velhos senhores exploram novos servos – os que contraíram empréstimos para comprar casa, carro, electrodomésticos – e não sabem viver sem dinheiro de plástico – bem como os empresários que querem financiar os seus negócios.

As cenas dos próximos capítulos são “dejá vu”.

MRA Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro, Consultor

Sistema financeiro global está ferido de morte

quinta-feira, março 26th, 2009

A precária situação da banca americana e a realidade do mercado monetário REPO (recompra de activos financeiros) são bombas-relógio que podem, mais depressa do que muitos pensam, fazer implodir o sistema financeiro global.

Citibank, Bank of America, HSBC (USA), Wells Fargo e JP Morgan Chase poderão sofrer perdas bilionárias nos próximos meses e desestabilizar o sistema financeiro global segundo dados recolhidos nos respectivos relatórios e contas de 2008.

 Em conjunto, até 31 de Dezembro, os riscos de prejuízos líquidos com instrumentos derivativos de crédito aumentaram em USD 587 mil milhões/bilhões (mm/bi), um crescimento de 49% nos últimos 90 dias de 2008.

O cenário da exposição actual e futura daqueles bancos aos famigerados Credit Default Swaps (CDS) – seguros de crédito para protecção de riscos de incumprimento financeiro – contratados pelos clientes daquelas cinco insituições, envolvidos em operações especulativas, dá razão aos analistas mais sensatos e realistas: 

  • JP Morgan Chase: Risco Actual (RA), USD 241,2 mm/bi; Risco Futuro (RF), USD 299 mm/bi – Reservas actuais: USD 144 mm/bi;
  • Citibank: RA, USD 140,3 mm/bi; RF, USD 161,2 mm/bi; Reservas actuais: USD 108 mm/bi;
  • Bank of America: RA, USD 80,4 mm/bi; RF, USD 137,6 mm/bi; Reservas actuais: USD 122,4 mm/bi;
  • HSBC Bank USA: RA, USD 62 mm/bi; RF, USD 33 mm/bi; Reservas actuais: USD 20 mm/bi; Como banco estrangeiro, o HSBC não recebeu qualquer apoio financeiro do Tesouro dos EUA;
  • Wells Fargo: RA, USD 64 mm/bi; RF, USD 45 mm/bi; Reservas actuais: USD 109 mm/bi; A recente compra do banco Wachovia pelo Walls Fargo, poderá aumentar substancialmente os riscos futuros.

Os potenciais riscos combinados de USD 587 mm/bi excedem largamente as reservas em capital para situações de stress financeiro agudo – USD 497 mm/bi.

Acresce que, para além dos riscos com CDS’s, a exposição dos cinco bancos a outros derivados de crédito – câmbios, taxas de juros, etc. – ultrapassa 1,2 mil biliões de dólares, situando-se bem acima da fatídica fasquia dos trillions. Mil biliões de dólares – one trillion – equivalem actualmente a 7% do PIB dos EUA.

O professor da Economia, Laurence Seidman, da Universidade de Delaware (Newark) fez uma conta interessante. O equivalente ao produto norte-americano – 14 trillion – daria 540 voltas ao Equador se fosse transformado em notas de 100 dólares coladas umas às outras…

Se tivermos em conta que as injecções estatais de capital no Citibank e no Bank of America ascendem respectivamente a USD 50 e 45 mm/bi,  sem esquecer mais USD 100 mm/bi para garantias a empréstimos – facilmente se conclui que, sem ajudas públicas adicionais, em 2009, os principais bancos norte-americanos sofrem sérios riscos de insolvência.

Especialistas concordam

Os cinco bancos referidos detêm 95% do mercado de derivativos dos Estados Unidos. Perante esta realidade, qual a opinião dos especialistas? Acreditam na sua sobrevivência?

  • “Não acredito em nenhum dos números apresentados pelos bancos”; David Wyss, economista-chefe da agência de rating Standard & Poor’s;
  • “Os riscos dos big banks são tão grandes que os transformaram numa espécie de  condenados a caminho da cela da morte”; Gary Kopff, presidente da Everest Management, empresa especializada em acções judiciais contra a banca;
  • “A única solução é rebentar com o mercado dos derivativos – CDS’s, swaps e produtos estruturados – e começar tudo de novo”, Myron Scholes, Prémio Nobel das Ciência Económicas (1997), co-autor do modelo Black-Scholes para cálculo dos preços dos derivativos;
  • “[Os derivativos] tornaram praticamente impossível aos investidores a compreensão e a análise dos balanços dos bancos. (…) Quando leio os relatórios e contas das companhias envolvidas em derivados chego à conclusão de que não sei nada sobre a situação real das respectivas carteiras. É aí que tomo logo uma aspirina.”; Warren Buffett, presidente da holding Berkshire Hathaway, conhecido como o “Oráculo de Omah”, um dos mais respeitados investidores e especuladores dos EUA; Em 2003, em carta aos accionistas, Buffett apelidou os derivativos de “armas financeiras de destruição maciça”;
  • “Há quatro meses, os 10 maiores bancos dos EUA tinham uma capitalização bolsista de USD 722,73 mm/bi. Esta semana, este número encolheu 2/3 para USD 237,83 mm/bi. Em apenas quatro meses, os banqueiros roubaram aos accionistas USD 484,9 mm/bi, ao mesmo tempo que roubavam outros USD 250 mm/bi aos contribuintes e ao Tesouro, em fundos de emergência”; Joseph L. Galloway, McClatchy Newspapers, 28-01-2009;
  • “A distorção dos preços dos complexos derivativos de crédito (…) causou prejuízos a grandes instituições financeiras e colocou algumas, como a AIG, à beira do colapso. A proliferação de tais derivativos expôs aquelas instituições a perdas indirectas caso alguma das partes vá à falência.”; Aline van Duyn, Financial Times, 07-03-2009;
  • “Penso que o mercado CDS está actualmente em fase de completo e acelerado deslocamento. Também assumo que os vendedores de CDS’s fizeram a agulha para a venda a descoberto de activos (acções, futuros e fundos transccionados em bolsa [ETF’s]) numa tentativa desesperada para se protegerem de prejuízos crescentes. Isto colocou pressão adicional em mercados contaminados. Por outro lado, a situação é altamente prejudicial quando as acções detidas pelos nossos maiores credores, e pelas instituições financeiras, estão todas atadas a uma verdadeira espiral da morte. Estas dinâmicas, seguramente, vão provocar uma nova onda de desalavancagem financeira a nível global.”; Dawn Kopecki, Bloomberg,  05-03-2009.

REPO: A ameaça invisível

As metástases do tumor maligno que corrói o sistema financeiro global têm origem no mercado REPO norte-americano, regulado pelo banco central dos Estados Unidos – Reserva Federal (Fed) – que assume uma função nuclear no sistema de crédito global.

Nele, uma escassa vintena de bancos privados executa operações de protecção de riscos e de alavancagem financeira.Os movimentos geram a informação necessária ao Fed para fazer funcionar os instrumentos usados na sua política monetária.

Para se entender como funciona, socorremo-nos de um documento publicado pelo Banco Internacional de Pagamentos (BIS, em inglês). Os mecanismos mais importantes são os seguintes:

  • Neste mercado, os títulos de dívida são transaccionados contra numerário, sendo a respectiva recompra contratualmente estabelecida;
  • Títulos ou dinheiro funcionam como garantia para cada um dos mutuários;Entre as modalidades mais utilizadas contam-se os contratos standard, os acordos de venda ou de recompra e os empréstimos obrigacionistas;
  • Todos visam a aquisição de capital ou de títulos, consoante as necessidades operacionais dos bancos;
  • Os contratos REPO podem ser usados para alavancar negócios, financiar investimentos com maturidades mais dilatadas ou para protecção de riscos financeiros;
  • A forte natureza de curto prazo  das garantias implica uma estreita ligação aos mercados obrigacionistas, interbancários e monetários e exponencia a utilização de produtos financeiros derivados e estruturados;
  • Teoricamente, os contratos REPO têm um risco baixo e são instrumentos eficazes para a gestão da liquidez e do risco financeiro por parte dos bancos centrais;

A presente crise liquidou a tese do “baixo risco”. De facto, na sequência dos excessos e da orgia especulativa que caracterizou a gestão bancária na última década, o mercado REPO é tão vulnerável quanto os outros aos diversos tipos de risco – crédito, operacional e liquidez – e à volatilidade que lhes é inerente.

A depreciação dos títulos implica automaticamente a desvalorização das garantias. Esta situação obriga os bancos a vender activos ou garantias com penalizações ou com descontos.

O problema agrava-se nas operações de  alavancagem financeira. A deficiente fiscalização e supervisão da qualidade das garantias, sobretudo nos últimos dois anos, escancarou as falhas do sistema.

O então presidente do Fed de Nova Iorque e actual secretário do Tesouro, Tim Geithner, em 2008, deu a mão à palmatória:

“A estrutura do sistema financeiro mudou radicalmente, durante o boom, com o crescimento dramático da quota de activos exteriores ao sistema bancário tradicional. O sistema financeiro não-bancário [ex.: hedge funds] cresceu muito, sobretudo nos mercados monetários e financeiros. Este sistema paralelo financiou muitos activos nos mercados REPO, numa base de curtíssimo prazo, que envolviam transacções entre dois ou três mutuários. Com a expansão do volume daqueles mercados, a variedade dos activos financiados passou a incluir também títulos menos líquidos. (…) A dimensão dos activos relativamente ilíquidos e de elevado risco, financiados através de garantias de curto prazo, transformaram alguns veículos e instituições do sistema financeiro paralelo  em alvos vulneráveis às clássicas corridas aos depósitos, os quais não dispõem das protecções oferecidas pelo sistema bancário tradicional para redução daqueles riscos.”

O diagnóstico de Geithner assume outra importância quando constatamos que o Fed facilita este tipo de transacção a apenas 20 bancos – os chamados “dealers primários” – cujo nível de alavancagem chega a atingir rácios cinquenta a cem vezes superiores aos seus capitais próprios. Por esta razão a sua dependência das operações REPO é gigantesca e as necessidades de capital directamente proporcionais.

Os principais fornecedores dos recursos que alimentam este mercado são fundos monetários, grandes conglomerados industriais, governos locais e federais bem como bancos centrais de países estrangeiros.

Fed intoxicado

Até ao início do milénio, os Títulos do Tesouro dos EUA eram considerados tão bons como dinheiro fresco. Desde 2005, os alquimistas financeiros encarregaram-se de atulhar o sistema com uma parafernália de derivativos – CDO’s, MABS’s, CDS’s, ABS’s e dezenas de outros – hoje tristemente celebrizados sob a designação de “activos tóxicos”.

Este lixo financeiro está a apodrecer os balanços da banca comercial e já começou a inquinar o sistema nervoso central dos EUA – o Fed – e a contaminar o resto do mundo.

O problema tornou-se evidente com o colapso do mercado CDO – Collateralized Debt Obligation – na sequência da implosão do segmento hipotecário de alto risco ou  subprime. A descredibilização das notações fez o resto.

Quando se verificou que os ratings AAA eram pura ficção, o apetite pelo risco diminuiu radicalmente. Em escassos meses o mercado secou, os compradores desapareceram e os vendedores ficaram com as carteiras entupidas com papéis sem valor.

No final de 2008, o economista Gary Gorton – professor da Universidade de Yale e membro do National Bureau of Economic Research (NBER) – diagnosticou os tumores malignos que afectam o sistema, oriundos do segmento REPO.

“A crise do crédito – notou Gorton – foi estimulada pelo choque nos fundamentais. Os preços do imobiliário deixaram de subir e, em consequência, gerou uma crise de confiança nos mercados. O mercado norte-americano de acordos de recompra, estimado em USD 12 mil biliões – maior do que o total dos activos do sistema bancário dos EUA (USD 10 mil biliões), em particular, agudizou a ausência de liquidez durante a crise devido aos receios de incumprimento contratual [counterparty default]. Nas carteiras dos fornecedores de crédito acumularam-se indesejados activos ilíquidos, levando-os a acreditar que não poderiam ser vendidos. O resultado foi a subida dos depósitos iniciais, facto que provocou um movimento massivo de desalavancagem.”

Segundo Gorton, a exacerbação do stresse no mercado REPO é visível no segmento dos títulos da dívida pública americana. Os incumprimentos na devolução de títulos sob empréstimo aos respectivos proprietários “baterem recordes”. O sino tocou a rebate e aos agentes do mercado começaram a ficar nervosos e hipersensíveis…

O advogado malaio, especialista em finanças públicas, Matthias Chang, antigo secretário político do ex-primeiro-ministro da Malásia, Mahathir bin Mohamad, pegou no tema e escreveu um um oportuno artigo sobre a falência do banco central dos EUA (Federal Reserve, Fed) e o papel que o mercado REPO desempenha no processo.

“Tem havido – escreveu Chang – uma relação incestuosa entre o sistema bancário tradicional e sistema bancário paralelo. O elo que os une é o mercado REPO. De facto, este é o elo mais fraco de todo o sistema financeiro. (…) O congestionamento do mercado REPO é a base da minha tese de que, para além da terrível realidade financeira, ele é o principal factor que contribui para a bancarrota da Reserva Federal”.

O especialista malaio recorre a uma curiosa analogia para explicar a importância da função deste mercado na estabilidade do sistema financeiro:

“Imagine uma corda com três centímetros de diâmetro. A corda é composta por uma série de fios, mais finos, digamos que com 0,3 centímetros de diâmetro cada um. Todos unidos eles asseguram a robustez da corda. Agora imagine que os fios externos se partiram e resta apenas o fio central a suportar toda a tensão. Mais tarde ou mais cedo também vai rebentar e tudo aquilo que suporta vai cair desamparado. O fio central é o mercado REPO.”

Claro que o problema se agrava quando o próprio Fed se dispôs a comprar activos tóxicos para “limpar” os balanços dos bancos e “ilibar” o crime de especulação cometido por irresponsáveis banqueiros privados, conforme alertámos em Outubro. Um mês depois, o próprio secretário do Tesouro, “Hank” Paulson, reconheceu o disparate.

Ainda assim, isso não impediu que os activos ilíquidos aumentassem perigosamente nas contas do banco central dos EUA.

Boa parte do resultado da demência de banqueiros privados é agora passivo público, debitado a futuras gerações de contribuintes por acção dos banqueiros privados que ocupam cargos estatais.

Consequências dolorosas

Conforme notou recentemente Felix Zulauf, na revista Barron’s, “se o passivo do Fed tivesse de ser coberto por ouro cada onça custaria mais de 6.000 dólares. Não voltaremos ao padrão ouro mas os mercados nunca mais vão acreditar nos bancos centrais.”

Durante o biénio 2009-2010, as consequências das intervenções do Fed serão as seguintes, com repercussões dramáticas na Zona Euro e no resto do mundo:

  • Massivo endividamento público, com um défice orçamental que galgará a astronósmica fasquia de USD 2 mil biliões/trilhões;
  • Explosão dos custos do crédito;
  • Regresso das pressões inflacionistas;
  • A combinação juros elevados/inflação alta anulará efeitos práticos dos programas de emergência financeiros e penalizará a economia real;
  • Crises cambiais, com o dólar e o euro no pelotão da frente.

A manipulação dos mercados, operada concertadamente pelos banqueiros centrais do G7 e seu aliados, vai continuar.

Em 2008, os resultados foram-lhes favoráveis. Porém, a contagem decrescente para o acerto de contas já começou.

Mais tarde ou mais cedo, o lixo varrido para debaixo do tapete vai aparecer em toda a sua plenitude.

O cheiro será desagradável.

(Parte I – Fim)

MRA Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro, Consultor 

EUA: Dinheiro não chega para tapar buracos

terça-feira, março 17th, 2009

Os conglomerados hipotecários Freddie Mac e Fannie Mae estão prestes a tornar-se o próximo poço sem fundo do Tesouro dos Estados Unidos depois de, na semana passada, terem anunciado respectivamente perdas de USD 50 e 58,7 mil milhões/ biliões (mm/bi), durante o exercício de 2008. 

Se este ano a crise financeira se agravar, como tudo indica, aqueles valores poderão triplicar – senão mesmo quadruplicar – devido à forte descapitalização que afecta sobretudo a Freddie Mac, a mais pequena das irmãs gémeas do crédito hipotecário norte-americano.  

Em conjunto com a seguradora AIG, as duas terão escassas hipóteses de evitar a nacionalização total. Em Setembro, foram ambas intervencionadas pelo Estado que assumiu o controlo de 80% do capital. O valor dos restantes 20%, ainda nas mãos de accionistas privados, foi dizimado nos últimos 12 meses.  A Freddie Mac desvalorizou  97,31% e a Fannie Mae 97,44%.

Em 2008, a gestão Freddie foi ruinosa com perdas de USD 13 mm/bi em seguros hipotecários. Em derivativos de crédito e de taxas de juro, os prejuízos foram respectivamente de USD 16 e 15 mm/bi. A estes somam-se mais mil milhões (um bilhão) em obrigações sobre empréstimos de curto prazo contratados pelo falido banco de investimento Lehman Brothers e USD 99 milhões/mês para a manutenção das 30.000 habitações que tem em carteira. 

Ao cenário catastrófico é necessário adicionar mais uma série de outras realidades que a contabilidade criativa não conseguirá esconder durante muito mais tempo: 1) menos USD 65 mm/bi quando os activos em carteira forem transaccionados a preços de mercado; 2) menos USD 38 mm/bi de incontornáveis amortizações nas contas de 2009 relacionadas com a carteira de investimentos; menos USD 48 mm/bi em incidentes de crédito relativos a empréstimos ou garantias.

A administração Obama, para além de novas injecções bilionárias para impedir a falência da Freddie Mac, deverá contar com a perda de USD 15,4 mm/bi em impostos vencidos e ainda não liquidados.

Desde meados da semana passada, a bolsa de Nova Iorque protagonizou uma recuperação do índice Dow Jones que, após ter resvalado abaixo dos 7.000 pontos, voltou a cotar-se hoje acima dos 7.400 pontos. Mas deverá ser sol de pouca dura.

Quando forem divulgados os resultados do primeiro trimestre, sobretudo empresas dos sectores financeiro, imobiliário, construção, distribuição e indústria transformadora, na primeira semana de Abril, é bem provável que o Dow volte a cair.

Face aos desastrosos fundamentais da economia norte-americana, nos próximos meses, as dinâmicas deflacionistas deverão atirar o termómetro bolsista novaiorquino para a faixa dos 6.000-6.500 pontos. Até final do ano poderá cair mais 1.000 a 1.500 pontos.

Se tal acontecer, não haverá dinheiro que vede os gigantescos buracos da economia americana.

Os efeitos na Europa serão de idêntica dimensão, ou até maiores, e igualmente devastadores.

MRA Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro, Consultor

Opinião: Armagedão económico e financeiro em câmara lenta

domingo, fevereiro 22nd, 2009

A semana que agora termina foi marcada por um conjunto de factos e acontecimentos que apontam para a completa falência do actual modelo capitalista em que vivemos. A banca enfrenta graves problemas de solvência. Os banqueiros centrais e os políticos estão a conduzir o planeta para uma catástrofe com as dimensões bíblicas do Armagedão. Tudo isto com uma incrível ligeireza.

O primeiro presidente afro-americano da América, Barack Obama, ficará na história como o mais gastador e, provavelmente, como um dos menos responsáveis.

Um mês depois de ter tomado posse, Obama assinou a lei que irá injectar na economia americana USD 787 mil milhões/bilhões (mm/bi) através de um chamado “pacote de estímulo económico”. Antes havia anunciado o programa de combate às penhoras imobiliárias, no montante de USD 275 mm/bi. 

Não contente com isto, o seu governo, através do Secretário do Tesouro, Timothy Geithner, anunciou um novo programa de salvamento do sistema bancário no montante de USD 3 mil biliões/trilhões.

Tudo somado, o Estado norte-americano criou mais uma dívida de USD 4062 biliões – 4,062 trilhões – no acanhado espaço de 30 dias…

Para termos uma ideia da dimensão das responsabilidades assumidas pela administração Obama, basta pensarmos que se tivéssemos nascido há dois mil anos atrás ainda teríamos de recuar 2053 anos para conseguir poupar a “módica” quantia de mil milhões de dólares por ano.

Quatro mil e sessenta e dois anos – 2053 AC + 2009 DC – ao ritmo anual de mil milhões, foram reduzidos a apenas trinta dias pelos alquimistas financeiros do establishment norte-americano!

A magnitude e o ritmo do endividamento norte-americano, bem como dos 27 países da União Europeia, irão fazer da Grande Depressão um acontecimento menor na história do capitalismo.

Nos próximos meses, vamos continuar a assistir à desarticulação e desmembramento do sistema.

Para já, em câmara lenta…

MRA Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro, Consultor

Opinião: A demência política e a irresponsabilidade financeira norte-americana

quinta-feira, novembro 27th, 2008

O governo dos Estados Unidos voltou a abrir os cordões à bolsa ao anunciar mais um plano de relançamento económico, no montante de USD 800 mil milhões/bilhões (EUR 600 mm/bi), para estimular o consumo e reanimar o mercado imobiliário.

Em conjunto, todas as ajudas governamentais concedidas ao sector financeiro estadunidense, desde Janeiro, já somam USD 7,2 mil biliões – mais de metade do PIB do país.

Recorde-se que, , no dia 3 de Outubro, o primeiro programa específico de emergência aprovado pelo Congresso – Trubled Asset Relief Program (TARF) – fora dotado com um décimo daquela verba (USD 700 mm/bi)

O fundo de emergência, inicialmente concebido para a compra de activos tóxicos, foi sendo sucessivamente alterado e direccionado para outros fins, como a recapitalização das instituições financeiras. Os ziguezagues do secretário do Tesouro, Henry Paulson, são interpretados pela maioria dos analistas como um claro sinal do desnorte do governo dos EUA face à gravidade da situação das empresas e do sistema financeiro norte-americano.

O novo plano anunciado pelo secretário Paulson, visa agora, directamente, o sector que está na origem da grave crise financeira que se alastrou ao mundo inteiro: o mercado imobiliário. Em conferência de imprensa, Paulson justificou a medida afirmando que “milhões de americanos não conseguem encontrar financiamento acessível para as necessidades básicas de crédito. As taxas dos cartões de crédito estão a subir, o que torna as compras do dia-a-dia mais difíceis para as famílias.”

O exorbitante nível de endividamento do Tesouro coloca as finanças públicas no limite da capacidade para conseguir pagar atempadamente o serviço da dívida. Alguns analistas admitem mesmo a possibilidade de os Estados Unidos poderem entrar em ruptura financeira, em meados de 2009.

Em círculos financeiros americanos e europeus há mesmo quem especule com a possibilidade de um incumprimento que, a acontecer, significaria o fim do sistema financeiro mundial, criado após a II Guerra Mundial, e o aprofundar da actual crise sistémica.

O nível de endividamento público norte-americano aproxima-se perigosamente do valor global do PIB – cerca de USD 14 mil biliões. A acção do banco central dos EUA (Fed) de inundar os mercados com oceanos de liquidez, através da emissão de Títulos do Tesouro, está a provocar reacções contraditórias nos mercados. Porém, o seu ritmo e dimensão prenunciam, a prazo, uma forte desvalorização do dólar, a subida em flecha das taxas de juros e a ameaça de hiperinflação.

Após oito anos no poder, a administração republicana Bush/Cheney deixa ao 44.º presidente, o democrata Barack Obama, que tomará posse no dia 20 de Janeiro, um país arruinado, e uma elite irresponsável, que atirou o planeta para uma catástrofe política, económica e social, de consequências imprevisíveis.

MRA Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro

P.S.: Desde 2007, temos expressado as nossas opiniões sobre este assunto. Em Setembro e Outubro, voltámos à carga em três artigos. 1 2 3

Plano Paulson: Lei irrealista, missão impossível

terça-feira, outubro 7th, 2008

Henry Paulson - China - 2007Os legisladores americanos produziram uma versão corrigida do Plano Paulson. A lei tem todos os ingredientes para falhar nos objectivos, enganar eleitores e contribuintes e enriquecer agentes financeiros. Parte destes, pertenceu ao núcleo duro dos causadores da maior crise financeira depois da Grande Depressão. Para tentar evitar uma recessão, em casa e no resto do mundo, os congressistas deram a Henry Paulson o secretário das Finanças, amplos poderes para criar o maior fundo soberano do planeta – USD 700 mil milhões/bilhões (mm/bi). Nada acontecerá de substancial até daqui a seis semanas. Depois de 4 de Novembro, dia da eleição do substituto do presidente Bush, os futuros gestores de activos do novo fundo deverão começar a sua missão – comprar o crédito mal parado, e toda a sorte de incobráveis, que afecta os balanços das instituições financeiras para ressuscitar mercados em coma ou anémicos. Uma análise rápida permite detectar várias contradições e iniquidades. A ficção financeira supera largamente a realidade político-económica. Vejamos porquê.

A Lei – O texto legislativo pretende que os novos Midas façam aquilo que o mercado se recusou a fazer – dar um valor concreto aos títulos de dívida que entopem os balanços dos bancos, mas que ninguém quer comprar. O legislador estipula que o governo deve criar “mecanismos adequados” que evitem “conflitos de interesses” nas decisões sobre os activos a comprar e respectivas transacções. O Congresso deu ao secretário Paulson o poder para seleccionar os gestores e as empresas (privadas) a quem será outorgada a tarefa de criar este mercado artificial. A idéia assenta na criação de um aterro sanitário para lixo tóxico a partir do qual, “logo que a estabilidade regresse aos mercados”, poderão voltar a ser comercializados “pelo seu justo valor” os “activos stressados”. O texto elenca um vasto conjunto de intenções: “proteger os interesses dos contribuintes”, “ajudar as famílias a evitar acções de despejo”, impedir o “colapso dos mercados” e reactivar “mercados paralisados”. As regras do jogo serão ditadas pelo Sr. Paulson e respectivos lugares-tenentes.

O Modelo de Gestão – Embora ainda não seja conhecido, as várias fontes da imprensa norte-americana que consultámos indicam que o escopo central do conceito assentará no princípio do “outsourcing”. O governo escolherá, em condições e regimes a definir, uma dúzia de empresas privadas especializadas na gestão de activos. A elas caberá a tarefa de gerir as várias tranches do fundos. A primeira fase do programa envolve USD 250 mm/bi. As empresas seleccionadas receberão comissões de 1% sobre os activos transsaccionados. Os volumes serão apreciáveis e poderão variar segundo as leis do mercado. As empresas BlackRock, PIMCO, Legg Mason e MKP Capital Management, são “fortes candidatos“, segundo o Washington Post.

O Modelo de Negócio – Os leilões deverão ser a plataforma escolhida. Em função dos produtos envolvidos serão feitas as adaptações para operacionalizar os negócios. O preço final é determinado em função da procura. Teoricamente, quanto maior o número de instituições potencialmente compradoras, mais alto será o valor final dos activos à venda. As dinâmicas serão perversas e contraditórias. A compra a preços baixos será interpretada como protecção dos interesses dos contribuintes; Esta estratégia obrigará os bancos à contabilização de prejuízos substanciais contariando um dos objectivos do programa – criar os mecanismos para que a banca se capitalize; Se, pelo contrário, o preço a pagar pelo “lixo tóxico” for próximo do fair value – valor justo – estimado pelos contabilistas da banca, os recursos públicos a desembolsar pelo Estado – dinheiro dos contribuintes – servirão para premiar a especulação e a incompetência dos banqueiros na gestão do risco. A fixação do preço será o indicador chave para determinar quem o comprador (Estado) vai beneficiar: os vendedores (bancos, fundos, etc.) ou os pagantes finais (contribuintes). Nesta dinâmica será interessante analisar a intervenção dos hedge funds cuja postura especulativa tenderá a contrariar os interesses dos bancos, forçando a baixa dos preços de compra para ganhar na margem de venda dos “activos tóxicos”.

Os Conflitos de Interesses – Os gestores escolhidos pelo Sr. Paulson ditarão quem vai ganhar ou perder neste processo de reavaliação dos activos. As pressões dos diversos interesses em presença serão gigantescas. Entre as muitas dúvidas e interrogações é obrigatório referir uma: como é possível conciliar interesses públicos com interesses privados? Um gestor privado de activos – cuja obrigação é a de maximizar os proveitos para os seus clientes – será o melhor agente para operacionalizar a venda activos contaminados ao Estado para, posteriormente, este os revender com lucro, não se sabe quando, nem a quem? A idéia é peregrina. “Comprar gato por lebre, para revender faisão? Cadê o gato?” – pergunta o carioca… A margem para manipulação dos preços é enorme. O poder de decisão estará nas mãos dos operadores privados. Começam a sentir-se reacções dos investidores interessados nos leilões. Segundo eles, as empresas de gestão de activos têm a faca e o quijo na mão para favorecer os interesses dos seus accionistas e clientes. Neste quadro, referem as ligações da Pimco à seguradora alemã Allianz e da BlackRock ao Merrill Lynch. O mercado aguarda com expectativa a publicação pelo Tesouro estadunidense do código de conduta, da política de gestão dos conflitos de interesses e do plano de remunerações.

A Equipa – Henry Paulson escolheu um conjunto de antigos quadros da Goldman Sachs, o ex-banco de investimento a que presidiu antes de assumir o actual cargo: Edward Forst, gestor de topo da Goldman e vice-presidente da Universidade de Harvard, Kendrick R. Wilson III, antigo presidente das instituições financeiras controladas pelo Goldman bem como o ex-director financeiro adjunto, Dan Jester. A equipa inclui também meia dúzia de altos quadros do Departamento do TesouroKevin Fromer, Kenneth Carfine, Peter McCarthy, Phillip Swagel, Neel Kashkari e David Nason. Conhecidas as boas ligações do Sr. Paulson à classe dirigente de Pequim, a China, através do seu bilionário fundo soberano China Investment Corporation (CIC), poderá ser um dos investidores privilegiados.

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Pedro Varanda de Castro, Consultor

Opinião: A quadratura do círculo da Sra. Merkel

segunda-feira, outubro 6th, 2008

Os mercados de capitais estão sob pressão. Hoje, na berlinda, estará o alemão. As ondas de choque vão propagar-se a nível planetário com impactos negativos nos cinco continentes. A operação de salvamento do conglomerado financeiro germânico HRE/ Hypo Real Estate tem que ver com a confiança no sistema, a sua capacidade para absorver riscos e evitar rupturas nos segmentos do mercado de dívida. Na Alemanha, um deles – Pfandbriefemarkt – está avaliado por várias instituições em EUR 900 mil milhões/bilhões (mm/bi). Este mercado transacciona títulos de dívida caucionados. Centenas de bancos e seguradoras participam nele através de múltiplas operações de refinanciamento. Governantes e banqueiros sustentam que a falência do grupo HRE é susceptível de desencadear turbulências desestabilizadoras. Só aquela instituição é responsável por quase 15% daquele segmento, um dos mais volumosos a nível mundial. Durante décadas o Pfandbriefemarkt foi considerado seguro e moderadamente especulativo. O Estado alemão, as federações e as autarquias, para além das empresas e outras instituições, emitem garantias sobre operações financeiras recorrendo a estes instrumentos derivativos de dívida. Até agora foram usados pelos investidores como uma aplicação à prova de bala. No final do período de maturidade de cada título, desde a 2.ª Guerra, não foi registado um incumprimento. Para o mercado era uma aplicação segura. Esta confiança está agora em risco. Boa parte dos títulos hipotecários emitidos pelo Hypo Real Estate foram usados em «securitizações» de alto risco, importadas e reexportadas em modelos anglo-americanos de produtos estruturados – CDO’s, ABS’s, MBS’s, SIV, Jumbo, etc.). A orgia subprime lançou uma núvem de suspeição sobre a sua segurança e sustentabilidade. A intervenção do governo alemão e da indústria financeira na salvação do moribundo HRE, tem que ver com isto. O governo de Berlim considera estratégico não deixar secar um mercado eficaz, que vale quase um milhão de biliões – um trilhão – de euros. Mais. A Sra. Merkel garantiu a segurança dos depósitos através da emissão de uma garantia federal no valor de EUR 568 mm/bi. A intervenção estatal é feita através de títulos e não de dinheiro fresco. Se adicionarmos àquele valor, 49% dos EUR 50 mm/bi concedidos para evitar a falência do HRE, temos que o Estado alemão, durante um fim-de-semana, passou a ser responsável por dívidas superiores às cobertas pelo Plano Paulson norte-americano. Mais concretamente, Berlim assumiu o risco de cobrir o equivalente a USD 804 827 milhões (EUR 593 mm/bi). Em 2009, é provável que encargos do mesmo tipo sobrecarreguem ainda mais o já stressado orçamento alemão. Ninguém sabe ao certo. Os prognósticos são reservados.

Certo é que, o caso Hypo Real Estate equivale apenas a um problema, protagonizado por uma instituição. Como vai ser quando outros operadores, de dimensão idêntica, forem atingidos? O governo da Sra. Merkel vai emitir mais garantias? E quando for necessário o dinheiro para liquidar as dívidas? Vai emitir mais dívida pública? Mas, não existe um Pacto de Estabilidade e Crescimento que limita a capacidade de endividamento dos Estados membros da UE? Ou será que os políticos alemães vão adoptar a modalidade norte-americana de “pedir” ao banco central que ponha as rotativas a trabalhar a todo o gás para emitir mais papel-moeda?

Como se trata da divisa comum aos Estados da Zona Euro, estas são questões que justificam a reacção de pânico de muitos depositantes que, este fim-de-semana, sacaram tudo o que podiam das suas contas. O movimento só parará quando regressar a confiança nas instituições. A crise de confiança institucional é a quadratura do círculo. Nela tropeça a chanceler federal, Angela Merkel. Se cair, vamos todos atrás.

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Pedro Varanda de Castro

Opinião: A vitória do capitalismo social sobre o capitalismo liberal

quinta-feira, outubro 2nd, 2008

Há 48 anos o terramoto de Valdivia, no Chile (22-05-1960) foi o mais violento registado até agora, com uma intensidade de 9,5 na escala de Richter. Os seus efeitos propagaram-se ao Havai, Japão, Filipinas, Nova Zelândia, Austrália e Alasca. A segunda fase da crise sistémica global terá um efeito igualmente devastador. Com uma diferença. Todos os mercados financeiros do planeta, do mais pobre ao mais solvente, serão afectados. Em Janeiro, falámos das causas.

No dia em que o Congresso dos Estados Unidos americano aprovou a nacionalização das dívidas da banca privada é importante assinalar que a medida marca um novo ciclo político e ideológico. No essencial, é idêntico ao que marcou as diferenças entre socialismo científico, socialismo democrático e capitalismo liberal, no final do século XIX. Os momentos que vivemos representam a derrota do capitalismo liberal face ao modelo social capitalista – socialismo em liberdade – nas versões nórdica e da Europa central. Já acontecera nos anos 30, durante a Grande Depressão. O New Deal foi a solução. O dinheiro dos impostos voltou a ser usado para desfazer os abusos do sector financeiro. Nos anos 90, a crise financeira nórdica demonstrou, de novo, o falhanço do modelo capitalista liberal. Ontem como hoje, as metástases são idênticas. Desde há 20 anos, os liberais anglo-saxónicos denigrem as soluções nórdicas. Dizem estar “infectadas pelo vírus do socialismo”. Agora usam medidas socialmente injustas para “defender” e “acautelar os interesses” dos contribuintes americanos. A desonestidade intelectual é directamente proporcional ao zilionário programa de salvação dos bancos. Para já, resta o sucesso do socialismo na solução da crise nórdica. Os sinais que subjazem à crise sistémica, independentemente da provável reacção positiva dos mercados nas próximas semanas, indicam que não há razões para optimismo. Antes pelo contrário.

No imediato, o Plano Paulson salvará os banqueiros e financeiros com melhores contactos no establishment estatal. O dinheiro dos contribuintes, por muito que seja, nunca chegará para saldar a totalidade das dívidas geradas pela ganância dos banqueiros e gestores. Isto é tão válido para os Estados Unidos, quanto para o resto do mundo. Só subsistirão as empresas que respeitaram as melhores práticas prudenciais. Pelo menos até 2010, continuaremos a assistir ao colapso de empresas do sector, independentemente da sua dimensão e nacionalidade, provocado por incompetência na gestão dos riscos de crédito. No passado dia 23, publicámos uma curta notícia, sobre o perigo de ruptura que impende sobre 2500 bancos norte-americanos. Se extrapolarmos a situação aos mercados de grande e média dimensão poderemos estimar que, nos próximos anos, em média, cerca de um terço das instituições desaparecerão do mercado, a nível global. Em alguns casos, como na Alemanha, o processo de concentração bancária pode liquidar 40% dos actuais agentes financeiros. As nacionalizações transferem propriedade. Não transferem conhecimento nem competências. A qualidade da gestão dos bens públicos, na esmagadora maioria dos países, é medíocre. Da comunista China à América capitalista, passando pela Malásia, Rússia, Brasil, Venezuela, México, Arábia Saudita, Índia. A lista, que integra Portugal, apenas é benévola relativamente a um escasso número de pequenas economias (Noruega, Finlândia, Dinamarca, Suécia, Suíça, Singapura).

A intervenção do Estado americano dificilmente garantirá o fim da crise. Pode até acentuar o pior da actual. Basta fazer contas. Hoje o Congresso americano subscreveu compromissos financeiros no valor de USD 700 mm/bi. Na semana anterior aprovou o orçamento mais despesista na história do país (USD 634 mm/bi). Porém, é bom não esquecer que, antes, já havia garantido o pagamento de USD 25 mm/bi para salvar o banco Bear Stearns, USD 200 mm/bi para salvar as hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, USD 85 mm/bi para impedir o colapso da seguradora AIG. Se adicionarmos a estes, os montantes com injecções de liquidez no sistema pelo Fed, aproximamo-nos dos USD 2 mil biliões/trilhões (mibi/tri) de responsabilidades que afectarão os fundamentais da economia norte-americana. Um dos problemas é que este dinheiro não está disponível nas contas do Tesouro americano. Para financiar a despesa é necessário contrair dívidas sob a forma de Títulos do Tesouro, agravando ainda mais as contas públicas. Estas medidas são catalizadores da depreciação do dólar e da inflação. O lixo tóxico não muda de qualidade com o Plano Paulson. As dívidas continuam a ser de alto risco. A liquidez do mercado evaporou-se. Os incumprimentos vão continuar. Os bancos vão acumular mais prejuízos e um bom número deles vai desaparecer. O crédito vai continuar escasso e tendencialmente caro. Durante muito tempo. O apetite pelo risco é coisa do passado. Os banqueiros que o digam. O défice para 2009 é gigantesco. O Congresso vai ter que aumentar o tecto da dívida pública para USD 11,3 milhões de biliões/bilhões (mibi/tri). A expansão da massa monetária vai depreciar o valor dos títulos da dívida e provocar a subida dos juros. É visível a contracção da economia americana. O impacto nos mercados de capitais e da dívida é inevitável. Dinheiro mais caro, prémios de seguro mais elevados, queda nos resultados das empresas, crescimento negativo e mais desemprego são as consequências. Esta é a realidade da economia ió-ió – engorda e emagrece em função do dinheiro disponibilizado. Porém, tal dinheiro é artificialmente fabricado. Para além de superar a taxa real de criação de riqueza não tem contravalor físico. Este ciclo vicioso já provocou a insolvência de países. Mas também provocou guerras.

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Pedro Varanda de Castro, Consultor

Solvência da seguradora AIG ditará a fase imediata da crise sistémica

quarta-feira, setembro 17th, 2008

A sobrevivência do conglomerado segurador AIG/American International Group ditará a sorte dos mercados globais nos próximos dias. Na sessão bolsista de terça-feira, as acções voltaram a cair (-34%) e colocaram a taxa de desvalorização desde Janeiro, acima dos 90%. Ontem a AIG deixou de ser a seguradora americana com a maior capitalização bolsista do mercado. A AIG emprega 116 mil pessoas – quatro vezes mais do que o falido banco Lehman Brothers. Se sobreviver à crise, os investidores aguardarão pelas próximas vítimas e por novos sinais do sector financeiro e da economia real.

A AIG já contratou o escritório de advogados Weil, Gotshal & Manges, o mesmo que está a tratar do caso Lehman, para assessorar a empresa caso seja obrigada a declarar falência nas próximas horas. O pedido judicial de protecção de credores, ao abrigo do Capítulo 11 da Lei de Falências dos Estado Unidos (EUA), será inevitável caso falhem as negociações em curso com o governo americano, o Fed e os sindicatos bancários. Em cima da mesa está o pedido de uma linha de crédito de emergência no valor de USD 75 mil milhões/bilhões (mm/bi). A dúvida neste momento é se as autoridades americanas aceitam repartir o risco com o sindicato financeiro privado.

Caso tal aconteça, só os detentores de apólices emitidas pela AIG poderão esperar alguma protecção. A generalidade dos investidores sairá praticamente de mãos vazias. Na realidade, a insolvência da AIG é uma espada de Dâmocles suspensa sobre o sistema financeiro global. A empresa emitiu apólices para a cobertura dos riscos de USD 441 mm/bi em derivativos de créditos hipotecários – MABS/Mortgage Asset Backed Securities. A larga maioria integra as carteiras de investimento de boa parte dos bancos do planeta.

Lorraine Tan, directora da agência de rating Standard & Poor’s, em Singapura, afirmou que a bancarrota da AIG “terá um impacto muito maior, do que a do Lehman, Bear [Stearns], Wachovia [Corp.] ou WaMu nos Estados Unidos. A AIG é muito maior. A sua carteira de clientes a nível global tem uma dimensão significativa”, afirmou Tan à agência Reuters. Ontem, o presidente do conselho de administração da AIG, Kenneth Lewis, entrevistado pelo canal de televisão americano CNBC, informou que o colapso da seguradora afectará “quase todos” os grandes conglomerados financeiros que operam em Wall Street. O governador de Nova Iorque, David Paterson, afirmou à mesma cadeia televisiva que a AIG tem “um dia” para sair da crise. A administração Peterson, a quem cabe parte da regulação da actividade da seguradora, não escondeu que a declaração de falência será “uma catástrofe para os mercados.” O stress foi evidente nas bolsas americanas e europeias. O custo do dinheiro que os bancos emprestam uns aos outros – overnight – subiu 10% na sessão de terça-feira, 500% acima da taxa imposta pelo Fed (2%). Neste quadro, as bolsas globais continuarão o processo de reajuste em baixa aguardando resultados das empresas cotadas e novos sinais sobre o desempenho da economia americana e europeia. O dinheiro tendencialmente vai continuar caro e cada vez mais escasso. O crescimento económico oscilará entre a estagnação e a recessão. Isto, independentemente da muito provável luz verde a um plano de salvação da AIG aprovado pelo governo americano e pelo Fed com recurso, mais uma vez, ao dinheiro dos contribuintes. Precedentes não faltam.

MRA Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro, Consultor

Os reguladores suicidas e os perigos do botox financeiro

terça-feira, setembro 16th, 2008

Como seria de esperar, a “segunda-feira negra” voltou a Wall Street, após a capitulação do banco Lehman Brothers e da corretora Merrill Lynch. O Nasdaq recuou 3,6%, o SP 500 4,7%, e o Dow Jones 4,42% – uma quebra de 504,4 pontos com aterragem forçada nos 10 900 pontos. A pior sessão desde 11 de Setembro de 2001. Ninguém sabe onde o Dow irá parar – 9 000; 8 000; 7 000 – mas a queda será acentuada. Desde meados de 2006, entraram em processo de falência/protecção de credores 283 instituições financeiras, só nos Estados Unidos. Destas, apenas três conseguiram voltar o mercado, após dolorosos processos de reestruturação e de emagrecimento. Contrariamente ao que os números poderão sugerir, a crise hipotecária estadunidense não terminou. Muito pelo contrário. Este mês, entrou noutra fase, mais aguda mas, por estranho que pareça, previsível. Os sinais dos governos, bancos centrais, reguladores, mega bancos e demais decisores, são arrepiantes. Todos, sem excepção, continuam a varrer o lixo para debaixo do tapete. A bolha do sistema financeiro mundial está em marcha. Até quando?

Pressionados pela acção conjunta dos bancos centrais dos Estados Unidos (Fed), Inglaterra (BOE) e da Zona Euro (BCE), 10 pesos-pesados da alta finança criaram um fundo de emergência – USD 70 mil milhões/bilhões (mm/bi) – para suster a avalanche de insolvências no sector. A pool integra J. P. Morgan, Goldman Sachs, Bank of America, Citigroup, Merrill Lynch, Morgan Stanley (EUA), Barclays (Grã-Bretanha), Deutsche Bank (Alemanha), Credit Suisse e UBS (Suíça). O fundo destina-se primeiramente a ajudar os participantes, alguns já em dificuldades, a fazer frente às ameaças que se anunciam. Merryl Lynch e Citigroup estão fortemente expostos à crise subprime, tal como as corretoras Morgan Stanley e Goldman Sachs. Será que o capital arregimentado à pressa chega para impedir o tsunami?

As soluções propostas pelas superestruturas do poder financeiro global estão inquinadas. Os bancos centrais voltaram a imprimir notas e a inundar os mercados com liquidez fictícia. Pior. Passaram a aceitar créditos de má qualidade como garantia de empréstimos a instituições doentes e descapitalizadas, com os balanços entupidos de activos sobreavaliados e não amortizados. Os bancos centrais adoptaram uma estratégia suicida ao abandonarem as regras prudenciais vigentes. Os banqueiros privados seguem o modelo. Entre eles, o mais temerário é o Bank of America (BofA). Após ter “salvo” a falida Countrywide, em Julho, o BofA comprou agora todo o lixo tóxico da carteira Merrill Lynch por USD 50 mm/bi (EUR 35 mm/bi). O BofA terá arcaboiço para aguentar os embates que se avizinham?

Em apenas um ano, o sector financeiro amortizou globalmente prejuízos da ordem dos USD 600 mm/bi resultantes de créditos de alto risco. Estimativas conservadoras calculam o valor global do buraco hipotecário em USD 2 mil biliões/trilhões (mibi/tri).

A crise, por ser sistémica, promete agudizar-se nos próximos 2/3 anos e contaminar ainda mais outros segmentos críticos do mercado da dívida – derivativos, crédito ao consumo, seguros de crédito, entre outros. Na primeira linha das preocupações está o importante segmento ABS – Asset Backed Securities uma das causas da implosão do Lehman Brothers. Este mercado secou gradualmente, desde 2007. Não se encontram compradores facilmente dado que o apetite dos investidores pelo risco sofreu uma quebra dramática. À medida que as semanas passam, as instituições são forçadas a reavaliar os activos problemáticos e diariamente desvalorizados. Os prejuízos prometem galgar para níveis estratosféricos face ao risco de o mercado ser inundado pelo “lixo tóxico” que enche as carteiras de investimento do Lehman Brothers e de outras instituições, em particular dos hedge funds. Pressionados pelo vencimento das dívidas de má qualidade, os gestores da falência Lehman Brothers vão inundar os mercados com USD 600 mm/bi de títulos a preços de liquidação. A pressão da venda vai desencadear uma reacção em cadeia – queda de preços, agravamento dos prejuízos contabilizados, desvalorização das acções e dos índices bolsistas – e agravará o clima recessivo. A situação é dificilmente reversível face à estrutura virtual da economia global. Todavia, é perceptível analisando o rácio PIB Mundial/ Liquidez Global em função dos instrumentos financeiros disponíveis, quantificados com recurso aos dados do Banco Internacional de Pagamentos (BIS, em inglês), referentes a Dezembro de 2007:

PIB Mundial

Instrumentos Liquidez Global
802% Derivativos 75%
142% Dívida securitizada 13%
122% M3 11%
10% Numerário 1%

Os derivativos de crédito excedem em 8 vezes o PIB Mundial e correspondem a 3/4 da liquidez global. O agregado da massa monetária em circulação (depósitos bancários à ordem, a prazo, acções, obrigações e outros activos em papel) é pouco mais do dobro do PIB mundial e representa escassos 11% da liquidez global. Os derivativos de crédito ou “produtos estruturados” oferecem uma míriade de instrumentos alegadamente “disseminadores do risco”. Eles são os tumores malignos que afectam a saúde do sistema financeiro global. O seu falacioso “risco zero” transformou o mercado num gigantesco casino onde, até 2007, ninguém prestava contas a ninguém. Grandes investidores públicos e privados – governos, autarquias, fundos de pensões, fundos soberanos, hedge funds, seguradoras, bancos, etc. – entraram no opaco mercado. Quando a bolha hipotecária explodiu os bancos centrais deram-lhe injecções financeiras de botox. Nos mercados de capitais e da dívida as operações de cosmética, a prazo, estão condenadas ao fracasso.

MRA, Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro, Consultor

P.S.: Estes são alguns dos ângulos possíveis de análise. Mas há mais. Em breve, voltaremos ao assunto.

A Igreja, a economia e a face não olímpica da China

quinta-feira, setembro 11th, 2008

O índice da Bolsa de Xangai caíu dos 6 mil para os 2 mil pontos entre Outubro/ 2007 e Setembro/2008, num mercado onde operam cerca de 100 milhões de investidores. Fontes independentes e governamentais estimam que, no primeiro semestre de 2008, faliram entre 65 a 70 mil PME’s chinesas e foram eliminados mais de 20 milhões de empregos. A conjuntura macroeconómica é desfavorável para os planeadores e para o Partido Comunista da República Popular da China. O encarecimento das matérias-primas base – petróleo e cereais designadamente – gerou pressões inflacionistas em toda a cadeia produtiva e consumiu uma parte importante da riqueza produzida. A desaceleração da economia mundial, a quebra das exportações, a crise financeira , o aperto global do crédito, a subida das taxas de juro, a apreciação do yuan face ao dólar, o aumento dos custos laborais e o excesso de capacidade produtiva ociosa prejudicaram o desempenho das empresas no primeiro semestre. Isto prenuncia maus resultados (reais) até ao final de 2008. Os efeitos das bolhas chinesas – crédito, imobiliária e bolsista – começam agora a manifestar-se . Recentemente, o New York Times explicou por que razão o Banco do Povo da China precisa reforçar a estrutura do seu capital. Os modestos USD 3,2 mil milhões/bilhões (mm/bi) são insuficientes para o regulador monetário de uma economia que quer ser globalmente competitiva. O problema é monetário mas, acima de tudo, é político. Os banqueiros centrais chineses defendem um yuan forte mas os políticos preferem um sector exportador competitivo, logo, uma moeda mais fraca. Um banco central mais dócil satisfaz melhor os seus interesses de curto prazo. As necessidades de capitalização do banco emissor chinês favorecem a estratégia dos responsáveis do poder central e adiam a resolução dos problemas estruturais. Desde 2001, o Banco da China expôs-se à dívida americana com o propósito de defender a procura do maior mercado consumidor de bens chineses. Entre títulos do tesouro e hipotecários, a China investiu mil milhões de biliões – um trilião – de dólares das suas reservas no mercado financeiro dos EUA. A paridade dólar/yuan ajudou a arrombar ainda mais a contabilidade chinesa. O excesso de exposição aos riscos da dívida dos EUA agravou as perspectivas económicas e financeiras do Império do Meio. Entre uma moeda forte e activos altamente voláteis, os monetaristas chineses colocaram-se num beco sem saída e reduziram a sua margem de manobra. “No último ano, a China gastou cerca de 1/8 do total das exportações em títulos estrangeiros. (…) Funcionários chineses querem suster a apreciação do ‘yuan’ e, simultaneamente, continuar a comprar títulos de dívida americanos, para apoiar o dólar. (…) A China investiu fortemente em títulos do tesouro americanos e títulos hipotecários garantidos pela Fannie Mae e pela Freddie Mac, os gigantes apoiados pelo governo dos EUA”, escreveu o NYT. Por seu turno, a imprensa católica ataca sistematicamente o capitalismo estatal de Pequim. “A recessão nos Estados Unidos, a estagnação na Europa e o negativo crescimento no Japão são sinais de uma recessão económica , que pode ser pior que a de 1929. Na época de Mao, milhões de pessoas morreram de fome. Hoje muitos ‘morrem’ de bancarrota”, escreveu o boletim electrónico asianews, próximo do Vaticano. Os meios de negócios e a Igreja Católica pretendem mostrar a face não olímpica do “comunicapitalismo” chinês e atacar as políticas reformistas iniciadas por Deng Xiaoping, no final do século passado. Os burocratas de Pequim têm sido pouco eficientes na desmontagem das críticas. MRA Dep. Data Mining

Fannie Mae/Freddie Mac: Implosão segue dentro de momentos

segunda-feira, setembro 8th, 2008

A administração Bush transmitiu ontem mais um capítulo da novela “Lucros para Alguns, Riscos para Todos” ao aprovar a encoberta nacionalização de metade do mercado hipotecário dos EUA, com o Tesouro a assumir o controlo das mega corporações Fannie Mae e Freddie Mac. As empresas titulares e/ou fiadoras de títulos hipotecários, no valor de USD 5,4 mil biliões/trilhões (mibi/tri), estão falidas. A decisão de Washington foi apoiada pelos partidos Republicano e Democrata, pelos respectivos candidatos presidenciais – John McCain e Barack Obama – e pela generalidade da comunidade financeira, sob um coro de protestos e críticas de muitos analistas e investidores, liderados pelo bilionário Warren Buffett. Burocratas, políticos e os economistas que apoiam a medida usam o substantivo “conservatorship [curadoria]” para evitar o desagradável termo “insolvency [insolvência]”. De facto, Fannie Mae e Freddie Mac passaram a ter o estatuto de empresas intervencionadas pelo Estado. Os “curadores” mais não são do que “administradores da massa falida”, nomeados pelo governo, após o despedimento dos responsáveis pelo maior falhanço financeiro desde a Grande Depressão. A medida não deixa margens para dúvidas: as empresas intervencionadas não dispõem de capital suficiente para liquidar compromissos. Acertadamente os detentores de acções ordinárias vão perder os seus investimentos em benefício, erradamente, dos detentores de acções preferenciais – bancos centrais, bancos comerciais, fundos de investimento, etc. Ao arrepio da lógica da economia de mercado, mais uma vez, os reguladores fazem batota. Os contribuintes, como sempre, pagarão em prestações, nos próximos anos, qualquer coisa como USD 280 mil milhões/bilhões. Os lucros são privados. os prejuízos passam a ser públicos, penalizando a grande maoria que nunca quais correr riscos especulativos. Este é o custo oficial (estimado) da intervenção. Porém, os cálculos são enganadores. Os decisores assumem como garantido que, durante o período da intervenção – cujo prazo está no segredo dos deuses – acontecerá o seguinte: o mercado imobiliário vai sair da zona de turbulência, o valor dos activos sofrerá uma reavalição positiva e a depressão, que desde há um ano e meio afecta o sector, terminará com uma aterragem forçada mas suave. Wishful thinking.

A crise Fannie Mae/Freddie Mac é sistémica. Não afecta apenas o mercado imobiliário americano (USD 12 mibi/tri) mas toda a economia e os mercados globais da dívida. Neste momento, tem um impacto directo sobre os seus activos combinados – USD 1,7 mibi/tri – mas afectará, inevitavelmente, o grosso da dívida conjunta que é 13 (treze) vezes superior à que atirou recentemente o banco Bear Stearns para a morgue financeira americana. [Desde Agosto de 2007, a capitalização bolsista das duas empresas agora intervencionadas teve uma quebra de 90%. A emissão de novas acções preferenciais pelo governo vai liquidar quaisquer esperanças dos detentores de acções ordinárias para recuperar o investimento. Mas, esse foi o risco pelo qual foram remunerados até à implosão…] A intervenção está a ser executada sem a necessária transparência – desconhece-se a verdadeira dimensão do buraco, o real volume de hipotecas vencidas e vincendas e as respectivas maturidades (de 2008 a 2013), como e com quanto vão ser reembolsados os investidores “preferenciais”. Ninguém sabe quanto esta nacionalização dos prejuízos hipotecários custará aos cofres públicos. É certa, até ao final do ano, a deterioração dos fundamentais da economia americana e global. As bombas-relógio continuam a fazer tic-tac: as dívidas federais americanas somam qualquer coisa como USD 50/65 mibi/tri e os instrumentos derivativos de crédito estadunidenses, não regulados pelo sistema, ascendem a USD 185 mibi/tri. “Uma lei básica de economia é que não existem almoços grátis. O governo e os que se regalaram com uma festa sumptuosa nos mercados financeiros estão agora a pedir aos contribuintes para que paguem uma parte do desastre. Simplesmente, devemos dizer – Não.” A frase foi publicada hoje, pelo Financial Times, no artigo de opinião assinado por Josef Stiglitz, Prémio Nobel da economia, em 2001.

MRA, Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro, Consultor

Árabes preferem BRIC’s aos «velhos e decadentes ricos»

sábado, abril 5th, 2008

Analistas árabes, nas últimas semanas, têm dado sinais de que, contrariamente às tradições dos investimentos dos países do Golfo Pérsico, aliados dos Estados Unidos, e dos respectivos líderes políticos e empresariais, chegou a altura de mudar de rumo em direcção ao bloco BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – como alternativa às mais-valias sobre activos historicamente considerados mais seguros e lucrativos – EUA, Europa e Japão. Mais

MRA, Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro

Consultor

Opinião: Os efeitos especiais do ruidoso silêncio de Fidel Castro

terça-feira, fevereiro 26th, 2008

Fidel comanda via telefoneInacessível e invisível, Fidel Castro conseguiu uma brilhante vitória na batalha político-mediática sobre o futuro que a sua anunciada resignação como “Comandante em Chefe” terá para Cuba. A agora tão em moda “mudança de regime”, glorificada pelos neo-conservadores americanos e europeus, está a ser difícil de engolir e digerir. Mais…

Pedro Varanda de Castro

MRA, Dep. Data Mining

Consultor

Economia dos EUA pode ser capaz de resistir à recessão?

quarta-feira, janeiro 16th, 2008

2008 - Recessão ou retoma?As perspectivas económicas para os EUA podem parecer sombrias em Wall Street, mas alguns analistas dizem que as empresas estão com dinheiro em caixa, os consumidores têm empregos com salários estáveis e o combalido mercado habitacional dá sinais de estabilização.

Uma onda de más notícias levou a esmagadora maioria dos analistas a concluírem que os EUA rumam para uma recessão, opinião particularmente partilhada pelo sector financeiro de Wall Street, muito afectado pela crise do crédito imobiliário. Quem terá razão? Argumentos optimistas (bullish) e pessimistas (bearish) disponíveis aqui.

BRIC/2008: Mercados agressivos e em crescimento, mas com debilidades…

quinta-feira, dezembro 27th, 2007

Uma bola de cristal sem pontos de interrogação…Os BRIC padecem todos das mesmas maleitas: corrupção, má governança, Estados de Direito com inúmeros défices – exclusão social, analfabetismo, iliteracia ou menor inclusão no acesso ao saber e ao conhecimento, fosso crescente entre ricos e pobres e fracas classes médias. As opiniões públicas ou estão desorganizadas ou são reprimidas nos seus direitos, liberdades e garantias. Ainda assim, nos últimos 5-10 anos eles foram os grandes campeões da globalização e desafiam os seculares poderes transatlânticos de inspiração judaico-cristã. O fulcro dos centros globais de decisão está a mudar para Oriente e para Sul. A nossa antevisão para os quatro galácticos da competitividade global, embora compartilhando algum optimismo sobre a respectiva evolução global, não deixa de chamar à atenção para as arriscadas políticas públicas dos países mais poderosos do mundo. Mais… (pvc)

2007: Quem ganhou? Tartufo ou Pinóquio?

sexta-feira, dezembro 21st, 2007

2008: O sobe-e-desce“A injecção de liquidez concertada entre os bancos centrais ,na semana passada, foi impressionante”, escreve um editorialista do Financial Times (FT). “Todavia – prossegue – mais de cinco meses após o congelamento do mercado interbancário, a sede dos bancos por numerário parece insaciável.” Após considerar que o bancos centrais fizeram o possível e o impossível para garantir que o dinheiro não faltaria nos circuitos de financiamento do sistema, correndo consideráveis riscos, o articulista considera que o máximo que conseguiram foi evitar o “dilúvio da liquidez” advertindo que “a luz ao fundo do túnel ainda não está à vista.” “A banca comercial consegue dar a volta ao texto?” é a pergunta deixada no ar.

Aquilo que o opinion maker do FT agora enuncia são factos para os quais, repetidamente, temos vindo a chamar à atenção dos leitores da MRA Alliance , desde Setembro.

Estamos a assistir à tentativa dos bancos centrais para salvar os mercados hipotecário e interbancário com a panaceia de cortes nas taxas de juro e inundar o sistema com quantidades astronómicas de papel-moeda, sem o respectivo contra-valor em activos mais seguros e líquidos. O afundanço do dólar, os modestos resultados das multimilionárias injecções de liquidez, violando as regras prudenciais básicas do sector, o colapso dos mercados de capitais, a drástica redução do apetite dos investidores para o risco, a fuga da zona dólar para aplicações mais sólidas e estáveis são ingredientes que, conjuntamente, estão a transformar a “bolha imobiliária” na “bolha do sistema”. Ou seja a epidemia hipotecária está a transformar-se numa pandemia financeira global. A crise não é conjuntural. É sistémica. Contra factos, não há argumentos:

  • Os grandes bancos estão atulhados em capitais que, cautelosamente, guardam para seu próprio uso, pois sentem as areias movediças que pisam, mas desconhecem ainda se, e como, vão conseguir salvar-se do aperto. À cautela acumulam reservas para evitar a insolvência;
  • Ao mercado e aos accionistas, tanto quanto lhes é possível, os banqueiros globais vão anunciando as desgraças contabilísticas em pequenas tranches, convencidos de que essa é a estratégia adequada para evitar o pânico, e impedir a corrida dos clientes aos bancos, na tentativa de salvarem os respectivos depósitos (o caso Northern Rock é elucidativo);
  • Os milhares de milhões/bilhões (mm/bi) em créditos malparados, mas artificialmente não contalizados nos relatórios e contas da banca, vão crescendo hidroponicamente – regando gota-a-gota as ervas daninhas “subprime” – tentando esconder o sol com a peneira;
  • O facto de os conglomerados financeiros, entre si, não fazerem empréstimos overnight é revelador de que a comunidade bancária perdeu a confiança em si própria. Cada um estima as suas astronómicas perdas, mas desconfia que as contas do vizinho poderão ser ainda mais deploráveis;
  • Os mercados, perante isto, hesitam entre os tartufos e os pinóquios, mas cada vez menos acreditam no que lhes é transmitido pelos “Big Players”;
  • A volatilidade das sessões bolsistas é um dos sintomas da qualidade do humor dos investidores, cuja sintomatologia é igualmente reveladora de depressão bipolar;
  • Quatro meses depois da implosão “subprime” o contágio do alto risco alastrou pelo sistema financeiro global e já afecta a economia real, stressada com a contracção do crescimento económico global e a ameaça de hiperinflação – petróleo a rondar os USD 100,00/barril conjugado com a subida vertiginosa das matérias-primas e bens alimentares;
  • Perante isto, 2008 perfila-se como o ano da verdade, onde não cabem os personagens de Molière nem de Collodi/Lorenzini. Chegou a hora do acerto de contas. Entre mortos e feridos, alguém há-de escapar. Mas que vai ser penoso, e doloroso, não tenhamos dúvidas. E não julguem que somos pessimistas. Somos apenas optimistas, com alguma experiência (e memória)…

Apesar de tudo, Boas Festas…

Pedro Varanda de Castro

MRA, Dep. Data Mining

Consultor

Opinião: Rússia, Putin e a autoridade moral do Ocidente para os apoucar

segunda-feira, dezembro 3rd, 2007

Políticas, Democracias, Fraudes e outras “desgracias”A generalidade das chancelarias ocidentais e organizações multilaterais controladas pelos países ricos, afinam pelo mesmo diapasão dos oposicionistas russos: as eleições russas foram um logro, uma fraude, recheada de violações à lei, de atropelos intoleráveis aos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, e a “democraticidade do processo” foi deliberamente posta em causa pela pobre logística eleitoral disponibilizada pelo Czar Putin. Será que os russos deveriam seguir o exemplo das eleições presidenciais nos EUA, de 2000?
Ver o comentário de Pedro Varanda de Castro.

Pastores mais pobres e vacas anoréxicas

domingo, novembro 18th, 2007

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A crise «subprime» – créditos hipotecários de alto risco – afectou a credibilidade das agências de notação de risco, evidenciou fragilidades do respectivo sistema de avaliação e escancarou os “conflitos de interesse” entre avaliadores e operadores do sistema financeiro. Após 20 anos de inacção chegou a hora de regulamentar um sector até aqui em «autogestão». Sonantes nomes da aristocracia global do rating, como as agências Standard & Poor´s (S&P), Moody´s ou Fitch, eram sinónimos de prudência, credibilidade, independência e seriedade. Qualquer notação AAA ou AA por elas atribuída, era igual a “dinheiro em caixa” ou a “risco zero”. O «subprime» teve o mérito de mostrar que muito está podre, e é opaco, nos múltiplos, interligados e interdependentes mercados mundiais – das divisas às commodities passando pelas acções, obrigações, opções, futuros, seguros de risco etc. Segundo o jornal Público “havia uma confiança quase cega nestas instituições internacionais de notação de risco, cuja supervisão e regulação é quase inexistente, limitando-se a pouco mais do que o registo da actividade e a prestação de informação. Mas a suspeita de que as agências de “rating” poderão ter fechado os olhos ao risco e dado o seu aval e uma notação positiva a produtos de crédito de alto risco que não davam garantias de cumprimento manchou a reputação destas instituições.” Demasiadas eram as ocasiões em que actuavam como avaliadoras de risco e prestavam consultoria, em simultâneo, na mesma operação, a clientes que estavam do lado oposto da barricada negocial: a procura de facilidades de crédito, por exemplo.

A SEC (Securities and Exchange Commission) iniciou há algumas semanas um processo de investigação sobre as práticas destas instituições que, a peso de ouro, vendiam os seus serviços de avaliação e notação de risco (político, económico, financeiro, capacidade de entrega de bens/serviços contratados, e solvência das partes envolvidas) a preços exorbitantes pois actuavam em regime de oligopólio global. Os seus clientes âncora eram Estados soberanos, a comunidade financeira, as empresas ou grandes investidores (pessoas individuais ou colectivas).
A Comissão Europeia e o Senado norte-americano, aterrorizados com o colapso em cadeia de vários segmentos do mercado económico-financeiro prometem agora – depois da casa roubada trancas na porta – impor boas práticas e regulamentar os sectores empresariais da avaliação e da gestão do risco. O grau de liquidez, a capacidade para dar garantias colaterais, fungíveis em numerário, ou em activos altamente líquidos, no âmbito do cumprimento de contratos entre Estados/Governos, empresas públicas ou privadas irão correr pelo legisoduto regulador do crédito e das relações económicas, financeiras, legais e técnicas dos mercados.

Para além do encarecimento do preço do dinheiro, da reavaliação, em baixa, de muitos activos contaminados pela especulação e a trafulhice de muitos operadores pouco escrupulosos, do sobe e desce dos câmbios, das matérias primas, dos bens de primeira necessidade, 2008 promete ser o início de um novo ciclo – menos despesa, mais aforro e o crescimento exponencial do rebanho das vacas magras…

Pedro Varanda de Castro

MRA, Dep. Data Mining

Consultor