Agravamento das tensões inter-coreanas é um teste ao pragmatismo da China

No início da década de 1990, os mapas chineses tinham uma única Coreia, a “Democrática e Popular”, com capital em Pyongyang, e Seul, a capital sul-coreana, aparecia em letra mais pequena, como qualquer cidade de província. Vinte anos depois, a península coreana continua dividida – e tensa – mas a China já não se posiciona da mesma maneira e o que os seus aliados norte-coreanos insistem em designar por “governo fantoche do Sul” é hoje um dos maiores parceiros regionais de Pequim, escreve o delegado da Lusa na capital chinesa num despacho distribuído hoje.

Por coincidência, numa altura de renovada guerra verbal da Coreia do Norte contra os “gansgters” e “traidores” da Coreia do Sul, o primeiro ministro chinês, Wen Jiabao, é esperado na sexta feira em Seul. Wen Jiabao irá participar também, no próximo fim de semana, na cimeira anual com o seu homólogo japonês, e o presidente sul-coreano, Lee Myung-hwa.

A crise atual está relacionada com o ataque de torpedo que afundou uma corveta sul-coreana, há dois meses, matando 46 dos seus tripulantes. Segundo as conclusões de um inquérito internacional anunciadas na semana passada em Seul, o torpedo foi disparado por um submarino norte-coreano. A Coreia do Norte negou qualquer responsabilidade no incidente e qualificou o inquérito como “uma farsa conspirativa”.

Aparentemente embaraçado, o governo chinês disse que vai “avaliar” a situação e prometeu ser “objetivo”, multiplicando os apelos à “calma” e à “contenção”. Ao contrário da Coreia do Sul, Estados Unidos e Japão, a China tem evitado condenar “o comportamento beligerante” da Coreia do Norte, mas não adotou a versão de Pyongyang, que qualificou este caso como “uma pura invenção, fabricada pelo grupo de traidores de Lee Myung-bak”.

A China partilha com a Coreia do Norte uma fronteira com 1400 quilómetros de comprimento e combateu ao seu lado na Guerra da Coreia (1950-53), um sangrento conflito que envolveu também os Estados Unidos.

Em 1992 – o ano em que o Partido Comunista Chinês (PCC) se converteu abertamente à economia de mercado – a China estabeleceu relações diplomáticas com a Coreia do Sul e desde então a cooperação económica bilateral tem-se desenvolvido em ritmo acelerado.

Segundo estatísticas chinesas, nos primeiros quatro meses deste ano, o comércio entre a China e a Coreia do Sul somou cerca de 62 900 milhões de dólares (51 500 milhões de euros), um aumento de 46,8 por cento em relação a igual período de 2009. Com a vizinha Coreia do Norte, o comércio também aumentou (9,4 por cento) entre janeiro e abril de 2010, mas somou apenas cerca de 720 milhões de dólares (590 milhões de euros).

MRA Alliance/Lusa

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