Os emergentes gigantes latino-americanos e o anão estadunidense

Os novos poderosos do continente americano

Há um ano atrás, a arrogância analítica de algumas das mais influentes casas financeiras de Wall Street olhava desconfiada para o Cone Sul do continente americano e destilava cepticismo sobre a capacidade dos países da região, sobretudo do Brasil, para «levarem a carta a Garcia». Não apenas se enganaram redondamente, como passaram da pesporrência à amarga conclusão de que a globalização teve efeitos adversos aos desejados pelos seus criadores: os EUA perderam poder e influência; as economias terceiro-mundistas da América Latina ficaram mais ricas, competitivas e menos dependentes dos apetites e interesses ianques.Desde finais de 2006, dezenas de relatórios e previsões transpiravam cepticismo relativamente às projecções de crescimento e desenvolvimento apresentadas por Brasília. Porém, o sonho brasileiro provou que as metas eram realistas. O crescimento económico duplicou, a inflação foi mantida no aceitável patamar dos 4.3% – abaixo das estimativas do Banco Central. No tocante ao emprego também erraram. Em lugar de o crescimento da massa salarial ter provocado desemprego, como previram, o Brasil criou em 2007 mais 2 milhões de novos postos de trabalho na economia formal. O desempenho positivo da Bovespa, a substancial subida de alguns índices (iShares MSCI Brazil, por exemplo) que avaliam diariamente o desempenho das empresas brasileiras com maior capitalização bolsista, registaram uma apreciação anualizada de 72%. Nada mais nada menos do que 1400% acima do desempenho dos mais antigos barómetros das bolsas americanas – Dow Jones Industrials e S&P 500. É certo que, à lupa, o comportamento diário das bolsas do Brasil e dos EUA parecem seguir caminhos paralelos. Os insistentes sinais de recessão vindos de Wall Street poderão até, durante um curto período, afectar os papéis transaccionados nas praças brasileiras. Mas será sol de pouca dura…Os factos aí estão para desfazer eventuais equívocos. Entre as principais dinâmicas dos mercados da América Central e do Sul, podemos identificar um triângulo mágico que influenciará, a longo prazo, a sua ascensão em contraciclo com a realidade do rico e ainda muito poderoso vizinho do norte.

  1. O factor demográfico

Na segunda década do presente século a população dos Estados Unidos será ultrapassada pelo conjunto dos naturais do Brasil e do México. Em termos populacionais o Brasil ocupa actualmente a 5.ª posição mundial (180 milhões). Em 2006, de acordo com dados oficiais, dos 299,3 milhões de cidadãos americanos ou emigrantes ali residentes, mais de 44,2 milhões eram hispânicos ou latinos (cerca de 15%). A taxa de natalidade deste grupo étnico é três vezes superior à média da totalidade dos habitantes dos EUA. As projecções demográficas do governo federal prevêem que, em 2050, aquele número ultrapasse os 105 milhões, passando a representar 1/4 da população americana. Outro dado significativo: as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Lima e México têm populações urbanas (sem incluir subúrbios/áreas metropolitanas) superiores a oito milhões de pessoas. O impacto demográfico nos negócios globais é tremendo:A leiloeira electrónica eBay passou a ter cotada em bolsa a sua versão hispânica/latino americana – MercadoLibre – e em apenas dois meses as acções subiram cerca de 60%. O gigante retalhista Wal-Mart, dos mais de 3000 centros comerciais que possui fora dos EUA, quase 1/3 (994) estão situados no México. Em todos eles oferece serviços financeiros para captar recursos locais através da abertura de novas contas bancárias. Mais de 2 600 empresas americanas estão operacionais no mercado mexicano.Nos mercados emergentes da América Latina as grandes multinacionais (locais e norte-americanas) estão a expandir-se agressivamente à medida que o nível de vida dos autóctones melhor e que aumenta o seu ávido consumo, de par com a modernização das sociedades e a melhoria das infra-estruturas.

  1. O factor energético

As sucessivas descobertas de novas jazidas de hidrocarbonetos (petróleo e gás natural) no Brasil, Venezuela, México, Equador e Bolívia, para citar apenas alguns, prometem um futuro risonho para os cofres públicos das petro-nações sul-americanas, na fase da “energia cara” (acima dos USD 100,00/barril) que promete vir para ficar. Com estes preços torna-se rentável a exploração de jazidas profundas. A Petrobras é uma das líderes mundiais nas tecnologias de perfuração e extracção de petróleo deste tipo. Assim, estão criadas as condições para, pela primeira vez na sua história, que o Brasil passe a ser um país exportador de petróleo, com futuro assento na OPEP.O analista do sector energético do Credit Suisse, Emerson Leite, num relatório difundido no passado dia 3, informou que as recentes descobertas acrescentam entre 12 a 24 mil milhões/bilhões de barris de crude às actuais reservas. O stock petro-energético do país, internacionalmente reconhecido, soma 13 mm/bi de barris. Porém, o analista do banco suiço prevê que novas descobertas estão para breve calculando o seu potencial conjugado acima dos 46 mm/bi de barris. A ser verdade, este cofre-forte de energia fóssil colocaria o Brasil no mesmo plano da Rússia, com 60 mm/bi barris, posicionando-o como um dos mais promissores exportadores do mundo. Isto numa fase de crescente escassez desta fonte energética, do crescimento descontrolado da procura e da consequente subida dos preços.O cenário torna-se ainda mais favorável quando adicionamos os números relativos à produção de biocombustíveis, à farta abundância de terra para cultivar plantas para a produção de biodiesel e à avançada tecnologia que o Brasil detém neste sector condenado ao crescimento e à expansão, durante o século presente. A produção de etanol a partir do açúcar aumentou 13% em 2007 e deverá registar em 2008 um acréscimo de mais 10%. A controversa relação biocombustíveis vs. cadeia alimentar já é, e no futuro promete continuar a ser, uma vantagem competitiva acrecida para o agronegócio e as biotecnologias brasileiras. O paradigma energético está numa acelerada fase de mudança. Cada vez é mais difícil e caro descobrir novas reservas de energia fóssil. Mas os devastadores efeitos no aquecimento global do planeta e a crescente pressão para o sequestro de carbono colocam o competitivo etanol brasileiro na linha da frente da procura. Os seus concorrentes americanos e europeu – provenientes do milho e da beterraba – são bem mais caros e desequilibram mais fortemente a instável e precária cadeia de valor das indústrias agro-alimentares. O Congresso americano, de acordo com o novo pacote legislativo que desenha a futura matriz energética dos EUA, implica a produção de 15 mm/bi de litros de etanol não derivado do milho, por volta de 2020. O Brasil, neste momento, é o único país com capacidade e domínio tecnológico capazes de satisfazer esta procura.A Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, líder mundial na Investigação e Desenvolvimento ( I&D) de novas tecnologias aplicadas ao agronegócio, tem no pipeline duas inovações que prometem ajudar a romper mais rapidamente com a bomba-relógio da energia fóssil herdada do século passado. Os engenheiros genéticos da empresa pública estão na fase final do mapeamento do genoma de um fermento/levedura que promete revolucionar o processo de transformação do acúçar (de cana) em etanol. Melhores e mais eficientes agentes biogenéticos irão tornar o biodiesel brasileiro no mais competitivo do mundo. Novas portas para a auto-suficiência energética, e a dramática melhoria da balança comercial brasileira, vão abrir-se para aumentar as substanciais reservas monetárias do país.

3. O Factor Metalogénico

A globalização e o acelerado processo de industrialização de gigantes como a China e a Índia, catapultaram as riquezas mineral-metálicas da América do Sul para o pelotão da frente dos fornecedores de matérias-primas chave. Minério de ferro, alumina/bauxite, cobre, níquel, zinco, nóbio etc., são abundantes na região e fazem da CVRD – Companhia Vale do Rio Doce – uma das companhias globais da região e das mais valorizadas. A parceria com o conglomerado siderúrgico chinês Baosteel têm sido desde a passagem do milénio um manancial de liquidez que parece não ter fim, no que se relaciona sobretudo com o minério de ferro, commodity que faz da CVRD a líder mundial.O preço do cobre, com enormes jazidas no Chile e no Perú (mais de 1/3 das reservas mundiais), foi durante anos influenciado pela procura americana. Ultimamente a China passou a liderar o processo. Mesmo com a anunciada recessão que paira sobre os EUA, a voracidade das indústrias asiáticas funciona como air-bag para salvar o metal de uma quebra nas cotações. Durante seis décadas, até 1999, o preço vacilava na casa dos 0,60 dólares a libra (0,453 gr.). Entre Junho daquele ano e Maio de 2006 a cavalgada chegou aos 3,75 dólares/libra. Hoje fechou a USD 3,34 para fornecimentos em Março/2008.São dados como estes que explicam quanto mundo mudou desde a queda do Muro de Berlim. Os mercados mundiais são cada vez menos dependentes do desempenho das economias dos países ricos. O pelotão dos emergentes BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – comanda o rápido avanço e independência de outras economias com elevado dinamismo – África do Sul, Chile, México, Malásia, Filipinas, Tailândia e Turquia. Se a estes juntarmos a Venezuela, o Equador, a Bolívia e outros países latino-americanos percebemos as razões que explicam a sua menor vulnerabilidade às macrotendências negativas importadas dos países “subprime”, como os Estados Unidos e a Inglaterra. Isto não significa que serão imunes a uma ou outra gripe. As pneumonias, no entanto, são mais ameaçadoras nas ocidentais e industriais gerontocracias do Hemisfério Norte.

MRA, Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro

Consultor

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