A maior empresa de crédito hipotecário dos Estados Unidos, Countrywide Financial Corp., anunciou prejuízos de 1,2 mil milhões/bilhões de dólares (mm/bi USD) relativos ao terceiro trimestre do corrente ano.“Nunca me passou pela cabeça o que se iria passar em Agosto passado [pré-falência]. Foi um completo colapso. Uma tremenda surpresa.”
A frase foi proferida ontem pelo presidente e principal administrador executivo da empresa, Angelo Mozilo, à Reuters, e completada com uma conclusão: “Na minha opinião, houve uma significativa mudança estrutural no mercado. E permanente.”
Após maciças operações de salvamento da Reserva Federal e da banca, no valor de 18 mm/bi USD, da reavaliação dos riscos e dos activos, e do despedimento de quase 12 mil empregados, o administrador executivo da Countrywide foi peremptório: “Penso que hoje temos melhores hipóteses de êxito do que qualquer outro concorrente no mercado hipotecário.” A bolsa reagiu positivamente ao optimismo do CEO, a despeito de sérios riscos de despedimento por parte de accionistas descontentes com o seu desempenho.
Os títulos da Countrywide, cotados na NYSE, subiram de USD 4,23 para USD
17,30/acção. Porém continuam 59 % abaixo da melhor cotação registada este ano e igualmente 21% negativos, após a injecção de USD 2,0 mm/bi garantida pelo Bank of America, em 22 de Agosto. “A situação era tão má, que qualquer notícia menos má apreciaria as acções da Countrywide” disse Stuart Plesser, analista da agência de rating Standard & Poors. Face ao desconhecimento da dimensão dos empréstimos de má qualidade da empresa, e do elevado volume de reservas necessário para cobrir futuros incumprimentos dos clientes, a S&P rebaixou a notação de crédito da empresa face ao cenário conjunturalmente negativo do mercado imobiliário: queda persistente dos preços das habitações; crescente número de imóveis que continuam no mercado sem encontrarem compradores (quase 5 milhões); last but not least, os efeitos devastadores que a subida dos juros terá nos cerca de 2 milhões de contratos hipotecários de taxa variável cujas prestações vão ter custos agravados para os mutuários, nos prazos de reavaliação de preços entre 31/10 e 31/12/2007. Por tudo isto, as notícias do quarto trimestre poderão ser decepcionantes.
Os prejuízos líquidos do terceiro trimestre totalizaram USD 2,85 por acção, resultantes
de USD 2,9 mm/bi em incidentes de crédito e na contabilização dos incumprimentos e perdas de vária ordem: amortizações causadas por prejuízos bolsistas - USD 1,0 mm/bi; reservas para créditos irrecuperáveis - USD 934,3 mm/bi; outros custos relacionados com crédito malparado - USD 981,0 mm/bi [incluindo o não pagamento de prestações de hipotecas de baixo risco/prime e contratos hipotecários com taxas de juro variáveis]. Que saudades de 2006: lucros de USD 647,6 milhões e ganhos por acção de 1,03 dólares.
Em tempo de vacas magras, um analista da Fox-Pitt Kelton Cochran Caronia Waller LLC,
Howard Saphiro, cautelosamente comentou: “Agora a Countrywide optou por um tratamento de choque.” Em contrapartida, Erin Swanson, analista do mercado bolsista na Morningstar, Inc., de Chicago, mostrou-se mais confiante: “Os proveitos foram uma lástima, mas eles estão a tomar as decisões certas para assegurarem que a empresa se manterá no mercado a longo prazo.”
O presidente e CEO da Countrywide Financial Corp., Angelo Mozilo, arrecadou USD 200 milhões na venda de stock options, desde Janeiro/2007, exactamente no período em que era esperada a implosão da bolha imobiliária. Segundo o diário Los Angeles Times, entre 11/2006 e 08/2007, Mozilo alterou os planos de venda de acções preferenciais (prémios de gestão) redefinindo quantas acções deveriam ser vendidas mensalmente. O patrão da Countrywide vendeu, no período, 4,9 milhões de acções. A maior parte comprou-as a preços abaixo do par, exercendo o seu direito de opção, conforme consignado no contrato de gestor profissional. A prática é comum entre os executivos de topo americanos, aproveitando as facilidades que a lei lhes concedeu em 2000, como forma para se defenderem de eventuais acusações de “insider trading” - gerar lucros a partir de informação privilegiada. Juristas e economistas são unânimes. A prática não é ilegal. Todavia já são “muitíssimo raras” mudanças de planos/estratégias de venda de tão largas quantidades de “stock options” em tão curtos períodos de tempo. Será que é esta a razão pela qual muitos accionistas querem ver Mozilo pelas costas?











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