2009-2011: Fed tentou dourar a pílula mas as perspectivas reais são sombrias

No passado dia 18, a Reserva Federal (Fed) – publicou uma das famigeradas minutas da não menos famosa comissão federal que decide a sorte do mercado monetário – Federal Open Market Committee (FOMC) – na qual têm assento todos os membros da direcção do Fed e os presidentes dos seus 12 bancos regionais.

A importância da última reunião, realizada em 27/28 de Janeiro, reside na publicação das projecções económicas da instituição para os próximos três anos (2009-2011). Quando analisamos os prognósticos dos banqueiros centrais dos EUA sobre desemprego, inflação e crescimento económico percebemos a extensão e a profundidade da actual crise.

Como a economia norte-americana depende em 70% do consumo não é necessário ser um génio para compreender que aquilo que irá acontecer nos próximos três anos à economia mundial será bem pior do que as benignas projecções dos banqueiros do Fed.

Um perigoso cocktail, recheado dos ingredientes recessão, estagflação e deflação, irá tolher os desempenhos da economia mundial, com diferentes ritmos e intensidade, mas ao mesmo tempo. Os efeitos serão sérios e profundos nas economias  industrializadas (G7) e emergentes (BRIC’s). Porém, serão ainda piores em países periféricos como Portugal. 

Vejamos porquê.

As aparências…

As projecções de longo prazo dos banqueiros centrais estadunidenses pretendem reflectir a acomodação e convergência entre as variáveis emprego e estabilidade dos preços ou, como outros preferem interpretar, entre desemprego, inflação e quantidade de dinheiro em circulação (massa monetária, M3).

A sustentabilidade do crescimento depende, entre outras, de algumas variáveis importantes – produtividade, qualidade do trabalho (resultante do conhecimento e da formação profissional da força de trabalho), capacidade de geração de novos empregos bem como das políticas  públicas sobre inovação, tecnologia e emprego.

Aparentemente as previsões até são animadoras – crescimento 2,5%-2,7%; desemprego 4,8%-5,0%; inflação 1,7%-2,0% (na óptica do índice de preços das despesas de consumo pessoais).

A realidade 

Nas entrelinhas do debate entre os participantes quase tudo muda de figura. De resto, entre os presentes na reunião da FOMC, a discórdia prevaleceu sobre algumas das questões nucleares em análise. O documento, por outro lado, reflecte a preocupação dos banqueiros sobre a fiabilidade das suas projecções dando cabimento a todo o tipo de justificações técnicas para um eventual falhanço…

  • As projecções sobre o crescimento real do PIB foram revistas em baixa – de -0,2%/+1,1%, em Outubro, passaram para -1,3%/-0,5%, em Janeiro;
  • Antecipação de um “amplo declínio” na produção agregada de bens e serviços durante a primeira metade de 2009;
  • Os gastos com o consumo “provavelmente” irão piorar com o aumento do desemprego, o aperto do crédito, a continuação do declínio dos preços do imobiliário e a abrupta contracção do património em acções;
  • A economia poderá começar a recuperar “ainda que gradualmente”, na segunda metade de 2009, fruto dos estímulos fiscais e das políticas monetárias de apoio aos mercados financeiros; Porém, é reconhecido que “o ritmo da recuperação em 2010 será fraco”, com o crescimento real  a retomar intensidade apenas em 2011; “A maioria dos participantes espera que, caso “não surjam mais choques”, o crescimento económico poderá finalmente convergir para uma taxa entre 2,5%-2,7%”;
  • O desemprego vai continuar a piorar em 2009 e 2010 devendo “manter-se bem acima da taxa sustentável de longo prazo, no final de 2011”; Após 2011 é possível que continue a tendência de descida com a maioria dos banqueiros a prognosticar uma taxa de desemprego entre 4,8% e 5,0%;
  • Todos consideraram “surpreendente” o tamanho da queda da inflação nos últimos meses; Esta tendência, devido à depreciação dos preços da energia e ao abrandamento da economia global, deverá manter-se dentro dos seguintes parâmetros – 2009 (o,3%-1,0%); 2010 (1,0%-1,5%); 2011 (0,9%-1,7%) longo prazo (1,7%-2,0%);

 No essencial, conforme o texto distribuído pelo Fed, “os participantes continuam a interpretar como mais altas do que o normal as incertezas sobre as perspectivas do crescimento económico” e muitos deles duvidam da eficácia dos programas públicos para reactivar a economia e reconstruir o sistema financeiro…

Sobre o tema, o Prémio Nobel da Economia (2008) Paul Krugman escreveu este fim de semana no seu habitual blogue publicado pelo New York Times:

“Percebe-se a razão pela qual os homens do Fed estão tão pessimistas. Sejamos claros: As políticas da administração Obama ajudarão durante este período difícil -especialmente se o governo pegar o touro pelos cornos e nacionalizar bancos em dificuldades. Ainda assim, pergunto: Quem vai acabar com este sofrimento?”

MRA Dep. Data Mining

Pedro Varanda de Castro, Consultor�

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