2007: Quem ganhou? Tartufo ou Pinóquio?

2008: O sobe-e-desce“A injecção de liquidez concertada entre os bancos centrais ,na semana passada, foi impressionante”, escreve um editorialista do Financial Times (FT). “Todavia – prossegue – mais de cinco meses após o congelamento do mercado interbancário, a sede dos bancos por numerário parece insaciável.” Após considerar que o bancos centrais fizeram o possível e o impossível para garantir que o dinheiro não faltaria nos circuitos de financiamento do sistema, correndo consideráveis riscos, o articulista considera que o máximo que conseguiram foi evitar o “dilúvio da liquidez” advertindo que “a luz ao fundo do túnel ainda não está à vista.” “A banca comercial consegue dar a volta ao texto?” é a pergunta deixada no ar.

Aquilo que o opinion maker do FT agora enuncia são factos para os quais, repetidamente, temos vindo a chamar à atenção dos leitores da MRA Alliance , desde Setembro.

Estamos a assistir à tentativa dos bancos centrais para salvar os mercados hipotecário e interbancário com a panaceia de cortes nas taxas de juro e inundar o sistema com quantidades astronómicas de papel-moeda, sem o respectivo contra-valor em activos mais seguros e líquidos. O afundanço do dólar, os modestos resultados das multimilionárias injecções de liquidez, violando as regras prudenciais básicas do sector, o colapso dos mercados de capitais, a drástica redução do apetite dos investidores para o risco, a fuga da zona dólar para aplicações mais sólidas e estáveis são ingredientes que, conjuntamente, estão a transformar a “bolha imobiliária” na “bolha do sistema”. Ou seja a epidemia hipotecária está a transformar-se numa pandemia financeira global. A crise não é conjuntural. É sistémica. Contra factos, não há argumentos:

  • Os grandes bancos estão atulhados em capitais que, cautelosamente, guardam para seu próprio uso, pois sentem as areias movediças que pisam, mas desconhecem ainda se, e como, vão conseguir salvar-se do aperto. À cautela acumulam reservas para evitar a insolvência;
  • Ao mercado e aos accionistas, tanto quanto lhes é possível, os banqueiros globais vão anunciando as desgraças contabilísticas em pequenas tranches, convencidos de que essa é a estratégia adequada para evitar o pânico, e impedir a corrida dos clientes aos bancos, na tentativa de salvarem os respectivos depósitos (o caso Northern Rock é elucidativo);
  • Os milhares de milhões/bilhões (mm/bi) em créditos malparados, mas artificialmente não contalizados nos relatórios e contas da banca, vão crescendo hidroponicamente – regando gota-a-gota as ervas daninhas “subprime” – tentando esconder o sol com a peneira;
  • O facto de os conglomerados financeiros, entre si, não fazerem empréstimos overnight é revelador de que a comunidade bancária perdeu a confiança em si própria. Cada um estima as suas astronómicas perdas, mas desconfia que as contas do vizinho poderão ser ainda mais deploráveis;
  • Os mercados, perante isto, hesitam entre os tartufos e os pinóquios, mas cada vez menos acreditam no que lhes é transmitido pelos “Big Players”;
  • A volatilidade das sessões bolsistas é um dos sintomas da qualidade do humor dos investidores, cuja sintomatologia é igualmente reveladora de depressão bipolar;
  • Quatro meses depois da implosão “subprime” o contágio do alto risco alastrou pelo sistema financeiro global e já afecta a economia real, stressada com a contracção do crescimento económico global e a ameaça de hiperinflação – petróleo a rondar os USD 100,00/barril conjugado com a subida vertiginosa das matérias-primas e bens alimentares;
  • Perante isto, 2008 perfila-se como o ano da verdade, onde não cabem os personagens de Molière nem de Collodi/Lorenzini. Chegou a hora do acerto de contas. Entre mortos e feridos, alguém há-de escapar. Mas que vai ser penoso, e doloroso, não tenhamos dúvidas. E não julguem que somos pessimistas. Somos apenas optimistas, com alguma experiência (e memória)…

Apesar de tudo, Boas Festas…

Pedro Varanda de Castro

MRA, Dep. Data Mining

Consultor

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